José Eliseu, cantador e improvisador, nasceu em São Bartolomeu de Regatos, concelho de Angra do Heroísmo, ilha Terceira. Recorda uma infância simples, com muitas brincadeiras na rua, “de ir para os terrenos com o meu pai e de jogar a bola na rua. Ia-se a pé para a escola primária. Não havia esta coisa dos pais irem com o automóvel levar os filhos à escola”, disse para acrescentar que “não apanhei a fase do pé descalço, apanhei o pé calçado”, enaltecendo que vem “de uma família de agricultores de subsistência em que havia carteira vazia, mas panela cheia”.
A escola primária foi realizada na freguesia que nasceu, depois foi para o liceu em Angra do Heroísmo e mais tarde fez a licenciatura de Engenharia do Ambiente no polo universitário da Terra Chã, da Universidade dos Açores.
Conta-nos que a avó materna, que cresceu e viveu uma grande parte da sua vida nos Estados Unidos da América, tinha o ‘middle school’ feito nos Estados Unidos na década de 20 e ela valorizava muito a educação, “quando regressou trouxe a mentalidade de estudar, pese embora os “filhos dela não terem estudado - a minha mãe e o meu tio - porque o meu avô era de uma outra mentalidade e não aceitou”. Contudo, a “minha mãe fez força para que eu estudasse até contra a minha vontade, porque a minha cabeça dava era para outras coisas e não propriamente para estudar”, refere bem disposto. Se era o curso que queria tirar, diz-nos que não, mas “tirei um curso conforme as possibilidades que a minha família tinha. Portanto, não havia a possibilidade de ir estudar para fora e dentro daquilo que era a oferta na ilha, escolhi aquele curso que era novo. Apesar de ter a licenciatura em Engenharia, não sou engenheiro porque estou na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo a trabalhar numa área que não é de Engenharia, mas sim de contratação pública”, explica.
O gosto pelas cantigas ao desafio cresceu com ele. Conta que “o meu pai gostava muito de cantigas ao desafio e de cantar ao desafio, embora sempre em ambiente de tertúlia, nada que fosse oficial, nem em palcos públicos”. Como o pai promovia muitos serões de cantigas ao desafio, “fui crescendo condicionado por aquele ambiente e aquela sonoridade das violas, e depois, de tanto ouvir, experimentei, por curiosidade, a fazer uma quadra. Aquilo foi crescendo e haviam uns americanos que pediam para eu fazer uma quadra”. Até que em 1981, no Império de São João Deus, na freguesia de Santa Luzia, um ano a seguir ao abalo, porque recorda-nos que no ano de 80 não houve festas na ilha Terceira, “o senhor António Plácido - um famoso cantador de velhas, juntamente com o João Ângelo - que pediu autorização aos meus pais para me levar a uma cantoria pública”.
Foi fazer “um pezinho, o equivalente à folia, mas com outros moldes, e à noite fiz um dueto com o senhor António Plácido, e até hoje, já lá vão quase 45 anos de cantorias que serão celebrados a 10 de junho deste ano”.
Para José Eliseu, o improviso é uma combinação de talento natural e prática. Adianta que “ser cantador é a arte de pensar rápido e transformar o pensamento em quadras de redondilha maior”. Porém, “pode haver aqui um dom inato. Mas também o condicionamento é muito importante. Ou seja, se eu tivesse este dom inato, mas se tivesse nascido em Cabul, por exemplo, não seria cantador ao desafio. É muito importante também o ambiente que se tem (…)”.
Ao contrário do que se pode imaginar, as cantigas ao desafio não funcionam com grupos fixos. Normalmente, os espetáculos são organizados por comissões de festas ou entidades, que convidam cantadores individualmente, que depois se juntam no momento da atuação. José Eliseu diz ainda que “tem que haver um instrumento, seja guitarra, bandolim ou viola da terra, e uma viola clássica ou violão e, no remato do espetáculo, todos se despedem e nestes tempos mais recentes, fazem na moda da desgarrada, uma moda que foi levada de São Miguel para a Terceira e generalizou-se a tudo o que é comunidades portuguesas”.
Ao longo dos anos, José Eliseu foi assistindo a várias transformações nas cantigas ao desafio. “Quando comecei, uma cantoria ainda era quase como um ato de culto. Depois o povo começou a gostar muito das cantigas de escárnio e maldizer, por isso, na Terceira gostavam muito das velhas (...)”. Recorda que à medida que “foram morrendo os ‘velhos lobos’, a cantoria passou, na ilha Terceira, por uma fase de declínio, em termos de entusiasmo das pessoas”. No entanto, “há uma fase de renascimento, por volta de 2008/09, quando aparece uma nova vaga de bons cantadores, com discurso leve, bom ambiente e, nessa altura a cantoria é tida como um ato de entretenimento do que propriamente o tal ato de culto”.
As cantorias podem ser umas das paixões de José Eliseu, mas tem outras, como o futebol. Essa sua paixão levou-o a que fosse desafiado a escrever crónicas de futebol para o Diário Insular a convite de Armando Mendes e mais tarde, a relatar para a RDP Açores, hoje Antena1 Açores. E os seus relatos não passam despercebidos, quem tem por hábito ouvir, sabe quem é o ‘relator- cantador’ da ilha Terceira. José Eliseu confessa com humor que “no início foi uma desgraça os relatos, mas fui aprendendo e encontrando o meu estilo, e tenho que dizer que o António Nanques foi o meu verdadeiro mestre”. Mais tarde foi para RTP Açores, “o meu orientador técnico foi o Vítor Alves, foi ele que me ensinou a fazer a base de uma reportagem de futebol e ainda cá estou”.
Quanto ao futuro das cantigas ao desafio nos Açores, José Eliseu mostra-se otimista. Acredita que, pelo menos nas próximas décadas, a tradição continuará forte. “Há muita gente nova a cantar e ainda há muito público interessado”, afirma.
A finalizar, refere que “não posso pedir mais nada na vida porque já tenho tanta coisa que já me custa ter tempo para tudo”, mas confessa ter pena de “não ter sido músico numa filarmónica, com um instrumento que me atrai, que é o trombone”.
