Os Açores preparam-se para avançar com a implementação do primeiro programa organizado de rastreio ao cancro do pulmão, um projeto que deverá arrancar ainda este trimestre através de uma fase piloto nas ilhas de São Miguel e Terceira. A iniciativa, coordenada pelo Centro de Oncologia dos Açores (COA), surge num contexto de elevada incidência da doença no arquipélago e pretende melhorar a deteção precoce, reduzir a mortalidade e testar a capacidade de resposta do sistema de saúde.
Em declarações ao Açoriano Oriental, o presidente do COA, João Macedo (na foto), explica que os passos para a concretização do rastreio começaram a ser dados no ano passado, com a criação de um grupo de trabalho responsável pela definição dos pressupostos técnicos e pela elaboração do manual executivo do programa. Segundo o responsável, o manual técnico encontra-se finalizado e entregue, permitindo avançar para a fase operacional.
Após a conclusão do manual técnico, os passos seguintes centram-se na preparação operacional, com destaque para a aquisição de equipamentos de diagnóstico complementar.
“Os passos seguintes são os passos mais de preparação operacional. Estão em curso os procedimentos de aquisição de alguns equipamentos de diagnóstico complementar que serão necessários depois para os hospitais fazerem o seguimento dos doentes que sejam positivos e que necessitem de avaliação hospitalar”, referiu. Estes procedimentos decorrem no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e encontram-se em fase de concurso, com processos já em curso e em fase de conclusão. Em paralelo, encontra-se em desenvolvimento uma plataforma informática que terá um papel central na gestão do rastreio.
Outro dos eixos do trabalho atual passa pela definição e contratualização com os hospitais, bem como pela organização dos próprios exames de rastreio. “Estão também em curso alguns procedimentos de definição e contratualização com os hospitais para definir os períodos e a forma como serão feitos os próprios exames de rastreio, que será através de TAC, o exame preconizado para o rastreio”, acrescentou, referindo ainda que existem outras contratações complementares em curso, necessárias para assegurar a diminuição dos tempos de resposta e o aumento da capacidade operacional.
Questionado sobre o calendário, João Macedo admite que existem variáveis externas, mas mostra-se otimista quanto ao arranque do programa ainda este semestre. “Há aqui algumas variáveis que não dependem só de nós e do sistema de saúde, depende da própria natureza das coisas, mas eu diria que sim”, afirmou. O responsável acrescentou que, tendo em conta o estado avançado da plataforma informática e os procedimentos de aquisição em curso, é expectável que as partes mais burocráticas fiquem concluídas até ao final do primeiro trimestre, permitindo iniciar a fase de implementação.
Cancro do pulmão é o cancro com maior taxa de mortalidade nos Açores
A criação deste programa surge num contexto em que o cancro do pulmão apresenta uma incidência significativa nos Açores, sendo um dos tipos de cancro mais frequentes na Região. “O cancro do pulmão é um dos que tem maior incidência, ou seja, a taxa de incidência na Região é superior à média nacional, sobretudo nos homens”, afirmou João Macedo. O responsável destacou ainda que, embora a incidência seja mais elevada na população masculina, se tem verificado um aumento progressivo dos casos entre as mulheres. “Nas mulheres a incidência também tem vindo a aumentar ao longo do tempo, derivado também de questões sociais, nós sabemos que o consumo de tabaco é o maior fator de risco”, disse.
Em termos de números, o presidente do COA indica que a Região regista, em média, entre 130 e 140 novos casos por ano. “Na Região, nós temos em média geralmente à volta de 130, 140 casos anuais, sendo um dos cancros com maior incidência”, afirmou.
O rastreio ao cancro do pulmão distingue-se de outros programas de rastreio por não depender apenas da idade, mas também do historial de consumo de tabaco. “O rastreio do cancro do pulmão tem uma particularidade relativamente aos outros, uma vez que não é só a idade que torna as pessoas elegíveis. Tem também o fator do consumo de tabaco”, salientou João Macedo. A população-alvo será composta por pessoas entre os 50 e os 74 anos que tenham os seus hábitos tabágicos registados no sistema de saúde, com base em critérios específicos de consumo ao longo do tempo.
As estimativas iniciais apontam para a realização de cerca de mil exames no primeiro ano, dependendo da taxa de adesão da população. João Macedo sublinha, no entanto, que este número poderá crescer à medida que mais cidadãos atualizem os seus registos clínicos.
Para além da componente técnica, o programa tem como objetivo central a redução da mortalidade associada ao cancro do pulmão. “A ideia de qualquer programa de rastreio, e sobretudo deste, prende-se com a tentativa de reduzir a mortalidade”, afirmou João Macedo.
“A evidência aponta para que a mortalidade após rastreio do cancro do pulmão consiga uma redução de 20 a 30%”, explicou, sublinhando que este efeito se verifica tanto em homens como em mulheres.
O presidente do COA destaca ainda que uma das razões para a elevada mortalidade associada a este tipo de cancro está relacionada com o facto de a doença ser muitas vezes silenciosa nas fases iniciais. “O grande problema do cancro do pulmão é que muitas vezes é silencioso até já estar num estádio muito avançado. Quando as pessoas têm alguma sintomatologia e procuram explorar isso, muitas vezes o cancro já está numa fase mais avançada”, salientou.
No âmbito do projeto, a taxa de adesão da população é considerada um fator determinante para o sucesso do rastreio. Para esse efeito, está prevista uma forte aposta na literacia em saúde, na informação e na sensibilização dos cidadãos. O programa pretende ainda reforçar a prevenção, nomeadamente através da promoção da cessação tabágica. O responsável defende que os médicos de família e as equipas multidisciplinares desempenham um papel essencial tanto na adesão ao rastreio como na prevenção.
Relativamente aos sintomas da doença, João Macedo reconhece que podem ser variados e que é importante evitar alarmismos desnecessários. “A sintomatologia pode ser muito variada e é difícil estar a descrever, até porque pode gerar falso alarmismo na população”, afirmou.
Ainda assim, destacou que sintomas persistentes ou fora do padrão habitual, como tosse prolongada, expetoração com sangue ou desconforto respiratório persistente, devem ser avaliados por um médico.
“As pessoas devem procurar o apoio do seu médico de família ou do médico assistente se sentirem alguma sintomatologia fora do normal e sobretudo se verificarem que ela tem uma persistência maior do que é habitual”, aconselhou.
