“Os produtores estão indignados e desmotivados. Tem de haver alguma solução para alterar esse cenário. Está nas mãos dos produtores e dos delegados da Unicol. Os produtores acomodam-se muito”, afirmou, em declarações aos jornalistas, o presidente da Associação Agrícola da Ilha Terceira (AAIT), José António Azevedo.
A cooperativa Unicol informou os produtores de leite das ilhas Terceira e Graciosa, no dia 31 de janeiro, por mensagem de texto, que o preço base do leite pago ao produtor iria baixar três cêntimos por litro a partir do dia 01 de fevereiro, “devido à conjuntura adversa”.
Cerca de uma centena de produtores da ilha Terceira participou numa reunião informal numa exploração agrícola, na freguesia de São Sebastião, para discutir medidas a tomar face a esta descida.
Brian Dinis, um dos produtores que organizou o encontro, sublinhou que os lavradores estão “descontentes” com a descida do preço e com a forma como formam informados.
“Receber uma mensagem num sábado dia 31 de janeiro, às 20h30, a dizer que o leite ia descer dali a três horas, no dia 1 de fevereiro? Acho que eles já sabiam disso há mais tempo. Deviam ter falado já com os produtores de leite para a gente se precaver”, apontou.
A Federação Agrícola dos Açores e as associações das ilhas Terceira e Graciosa já solicitaram uma reunião com a Unicol.
Os produtores da Terceira querem que a cooperativa justifique a descida, numa reunião e não por mensagem.
“[Queremos] perguntar à Unicol se acha que os produtores de leite vão sobreviver com o preço do leite base a 35 cêntimos. Os produtores de leite querem ouvir isto da boca deles”, salientou Brian Dinis.
Se não obtiverem respostas até ao final do mês, os lavradores admitem sair à rua em protesto.
“Pode chegar ao ponto de a lavoura ter de se organizar massivamente e fazer uma visita lá abaixo e fechar alguma coisa, até à Unicol vir falar com os produtores”, adiantou Brian Dinis.
O presidente da AAIT avançou com outras medidas, que dependem, no entanto, de autorização da Comissão Europeia ou de apoios do Governo Regional dos Açores.
Entre elas pode estar a redução da entrega de leite na fábrica e a libertação de apoios para antecipar o abate de animais.
Outra medida em cima da mesa é a conversão de explorações de leite em explorações de carne, que só na ilha Terceira poderá abranger 25 a 30 produtores.
Com esta descida, o preço base do leite pago pela Unicol baixa para 35 cêntimos por litro, o valor mais baixo dos Açores.
“Estávamos a receber o leite ao preço do custo, neste momento baixou três cêntimos fica abaixo do preço do custo […] Ficamos entre a espada e a parede. Não recebemos para produzir e ao mesmo tempo temos de alimentar os animais e gastar dinheiro todos os dias”, alertou José António Azevedo.
A descida ocorreu um mês depois de a Lactogal, que detém 51% da Pronicol, única fábrica de grande dimensão da Terceira, ter baixado também três cêntimos no preço pago no continente.
No entanto, os produtores lembram que o preço pago na Terceira e na Graciosa ainda é inferior em 10 cêntimos ao pago no continente.
O presidente da AAIT rejeitou também a justificação de que a descida esteja relacionada com o que se passa no mercado europeu.
“A Lactogal não vende produtos no norte da Europa, vende é em Portugal continental. O continente português não baixou o preço na prateleira, os preços da comercialização não baixaram assim tanto. O leite só baixou no centro e norte da Europa, onde está a ser pago ao produtor a 57 e a 58 cêntimos”, salientou.
Também o presidente da Associação dos Jovens Agricultores Terceirenses (AJAT), Diego Aguiar, apelou à intervenção do Governo Regional para apoiar os produtores, na adoção de medidas para fazer face à descida do preço do leite.
“O essencial era uma posição diferente por parte da indústria, não só no preço, mas também na comunicação, que fica muito aquém. Na minha opinião é uma falta de respeito para com os sócios da cooperativa”, salientou.
O boicote à entrega do leite já foi pensado, mas tem de ser “muito bem organizado” para “criar impacto”, por isso o presidente da AJAT defendeu, em alternativa, uma redução voluntária da produção de leite, como já ocorreu no passado, com compensações aos produtores.
Diego Aguiar alertou para o envelhecimento do setor e sublinhou que a descida do preço pode afugentar ainda mais os jovens na Terceira.
“Temos o exemplo de São Jorge em que houve um aumento considerável do preço do leite, que fez com que mais jovens ingressassem [o setor]. Temos jovens para ingressar no setor, mas com essa baixa de certeza que já estão a pensar em não ingressar”, reforçou.
Produtores da ilha Terceira concertam medidas de resposta à descida do preço do leite
Os produtores de leite da ilha Terceira, admitiram reduzir a produção, converter as explorações para a carne ou sair à rua em protesto face à descida do preço do leite em três cêntimos
Autor: Lusa/AO Online
