“Os Açores são a única região que tem um diplomata a tempo inteiro”

Kathryn Ryan Hammond, cônsul dos Estados Unidos em Ponta Delgada, numa entrevista a propósito dos 225 anos do consulado, realça a importância da relação dos Estados Unidos com a Região e revela que há cada vez mais famílias norte-americanas a escolher os Açores para residir’




O consulado dos Estados Unidos da América nos Açores já tem 225 anos de história no arquipélago. Efeméride que é assinalada hoje, ainda de forma diferente da inicialmente prevista devido a pandemia de Covid-19. Como será comemorada esta data?
O consulado tem agendados para hoje alguns eventos. Vamos visitar o túmulo de Thomas Hickling, o primeiro cônsul em Ponta Delgada, no Cemitério dos Ingleses e também estamos a trabalhar com a Câmara Municipal de Ponta Delgada para iluminar as Portas da Cidade de vermelho, branco e azul no dia do nosso aniversário. Vamos também afixar pela cidade ‘banners’ com mensagens de congratulação pelo aniversário assinadas por várias personalidades como Devin Nunes, o embaixador dos EUA em Portugal George E. Glass ou o presidente do Governo Regional. A estas comemorações vai também associar-se a cidade irmã de Ponta Delgada, Fall River, que também vai iluminar a réplica das Portas da Cidade de vermelho, branco e azul.
Também na RTP Açores vai uma programação especial esta noite.


Inicialmente estava previsto um programa mais extenso que teve de ser reduzido devido à pandemia...
O plano inicial era o embaixador dos EUA em Portugal viajar por todas as ilhas dos Açores durante o mês de maio de modo a destacar os intercâmbios educativos assim como culturais que partilhamos devido à nossa longa história. Infelizmente todas as visitas tiveram de ser canceladas, mas esperamos encontrar uma forma de realizar este programa.


Historicamente os Açores sempre tiveram uma grande relação com os EUA. Como vê o futuro dessa relação?
A História entre os Estados Unidos e os Açores vai sempre existir e poderá sempre ser desenvolvida.
Uma das coisas que gostei muito de ver este ano foi o programa Fulbright que enviou alunos dos Açores para os Estados Unidos e dos Estados Unidos para os Açores, mostrando como nós podemos trabalhar em conjunto. As alterações que estão a acontecer na indústria da hospitalidade devem ser aproveitadas.
Anualmente vemos o turismo dos Estados Unidos nos Açores a crescer e, apesar da Alemanha nos ultrapassar sempre, estamos muito próximos de ser o destino que mais turistas traz aos Açores, a seguir aos portugueses.
Por isso, a realização de intercâmbios com escolas de formação ligadas ao turismo será muito benéfico, não apenas para os alunos norte-americanos como para os açorianos.


No futuro este consulado poderá tornar-se num consulado honorário?
Não acredito que isso possa acontecer. Mas se acontecer eu regresso para os Açores para ser a cônsul honorária (risos). Tenho trocado mensagem com embaixadores e alguns Secretários de Defesa Assistentes e todos se mostraram muito orgulhosos no facto deste ser o consulado mais antigo do mundo continuamente operacional e todos enviaram as congratulações. Acredito que fomos os primeiros a chegar e vamos aqui permanecer.


Os açorianos têm grande orgulho na sua posição geoestratégica. Esta ainda continua a ser importante?
Essa importância mantém-se. Os Açores estão localizados no meio do oceano atlântico entre os EUA e a Europa e não me parece que haja posição mais estratégica. Não estou apenas a basear-me nos 225 anos de história que nos ligam, basta pensar o quão importante os Açores ainda são para os cidadãos norte-americanos. Posso dar como exemplos os navios que atravessam o oceano e que precisam de ajuda e que são apoiados pela Marinha Portuguesa. Mas também das emergências médicas a bordo de aviões que depois aterram nas Lajes. Isto são pequenos exemplos que ilustram a importância geoestratégica do arquipélago e a razão por que nunca vai deixar de ser importante. O arquipélago está na rota entre os Estados Unidos e a Europa, e a Europa e a Nato são dos nossos maiores aliados.


Acredita que a nossa importância ultrapassa a Base das Lajes?
Sim. As pessoas pensam sempre a nossa relação se resume às Lajes. A Base é importante, mas não é tudo. Temos cerca de 160 militares da Força Aérea e mais 400 portugueses a trabalhar lá, mas também os Açores também são a única região que tem um diplomata a tempo inteiro, o que mostra a importância e a estima que os EUA têm por esta relação. Uma das formas como isso se manifesta é o facto de recentemente terem mudado a minha comissão de serviço de dois para três anos, o que mostra que querem que exista uma relação consistente e que o Governo dos Açores e a população sinta que pretendemos continuar cá.


É impossível não perguntar sobre o futuro das Lajes, o que poderá acontecer?
Atualmente está a decorrer um estudo sobre as necessidades de pessoal, que está a causar dúvidas entre os residentes da Terceira. Este estudo pretende verificar se os trabalhadores da base estão a exercer funções em posições que se justifica, o que não significa que no final do estudo vá haver despedimentos. O que se quer verificar é o trabalho que é realizado, se numa secção as pessoas têm excesso de trabalho e noutras trabalho a menos, e se é necessário mudar as pessoas de forma a equilibrar a situação.
Posso afirmar que não há planos para expandir a Base das Lajes, mas neste momento também não há planos para a reduzir. Acho que os EUA estão satisfeitos com o tamanho da base atualmente e este vai-se manter nos próximos tempos.


Outro assunto é a descontaminação dos solos, qual a atual situação?
Quando o embaixador George E. Glass chegou a Portugal havia 19 locais que estavam a ser analisados, que tinham sido sinalizados pelos Estados Unidos e Portugal, através da Comissão Bilateral. E desde que o embaixador George E. Glass chegou a Portugal o número de locais já reduziu para metade e há um plano para os reduzir para seis a curto prazo. Mas ainda há trabalho a ser desenvolvido e este embaixador tem estado muito empenhado em tratar desta situação. Ainda que esta área não seja da minha competência, posso revelar que há um plano para que especialistas em questões ambientais norte-americanos e portugueses se reúnam, preferencialmente presencialmente, e em conjunto analisem os dados existentes e o que ainda é necessário fazer. Parece-me que esta é uma boa solução, ainda que possa não agradar a todos, mas este é um bom passo.


Como está a decorrer o protocolo com a Universidade dos Açores?
Esta parceria está a decorrer muito bem. Ainda na semana passada reunimos com a Universidade para discutir novas ações a realizar no próximo ano.
Ainda um dia destes estive com uma professora assistente de inglês do programa Fulbright que passou um ano nos Açores, que me contou como gostou de cá estar e se sentiu segura, mesmo com a pandemia de Covid.
E há mais intercâmbios deste tipo planeados e este ano já foram atribuídas mais bolsas deste programa. É uma excelente oportunidade quer para os alunos de cá como para os norte-americanos, porque permite fazer novos conhecimentos. Pretendemos manter o American Corner e a forte relação com a Universidade.


A população açoriana emigrada nos EUA é muito grande. Como é que esta população é vista nos EUA?
A comunidade portuguesa nos EUA é uma comunidade com orgulho da sua origem e que deseja fazer a diferença. Há políticos bastante proeminentes de origem portuguesa que têm muito orgulho do seu passado, o que é muito positivo.


Os açorianos mostram grande interesse pelos Estados Unidos?
(...) Ainda há muitos cidadãos norte-americanos que regressaram aos Açores que assim que os seus filhos nascem vêm ao Consulado para os registarem como norte-americanos, porque querem que eles tenham essa opção. É sempre bom que uma criança tenha diferentes oportunidades.


E norte-americanos nos Açores, quantos há?
Nos Açores há muitas pessoas com dupla nacionalidade mas, como não são obrigados a declarar, eu não consigo dizer o número exato de norte-americanos na Região. E essa pode ser uma das razões porque o número de turistas norte-americanos nos Açores não é superior, uma vez que muitas das pessoas entram nos Açores com o passaporte português.
Mesmo assim acho que o número de norte-americanos nos Açores está a crescer e que cada vez mais há pessoas sem qualquer ligação ou herança portuguesa a mudarem-se para cá. Muitos dos norte-americanos que estão a escolher os Açores vieram cá na sua lua-de-mel ou numas férias e gostaram tanto que decidiram mudarem-se para cá, comprar propriedades cá. Sei de um casal que ainda na semana passada conseguiu a residência em Portugal, o que é motivo de grande orgulho.


Como se podem descrever estas pessoas?
Trata-se de casais com filhos em idade escolar que estão a mudar-se para cá, apesar de não saberem português. São pessoas que gostam de viver aqui, da segurança que garante aos filhos e da tranquilidade. Como mãe eu compreendo esta decisão, porque não deve haver mais nenhum local no mundo tão seguro e tranquilo quanto os Açores. Para além de que são um lugar lindo.


É cônsul dos EUA nos Açores desde julho de 2019. Como tem sido a experiência na Região?
Adoro estar cá, tanto assim é que decidimos comprar uma casa em São Miguel para quando nos reformarmos podermos passar os verões cá. É um lugar mágico. Sempre que passeamos pela ilha, pode perder-se a vista do mar por uns minutos, mas depois ele volta a aparecer e isso é muito bonito.















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