Cinema

João Canijo filma versão de Electra no Portugal rural

João Canijo filma versão de Electra no Portugal rural

 

Lusa/AOonline   Cultura e Social   6 de Out de 2008, 12:31

O filme "Mal nascida", com o qual o realizador João Canijo volta a mergulhar no Portugal interior e agreste, de costumes nada brandos, é uma versão de Electra e integra uma trilogia cinematográfica por ora incompleta.
"Mal nascida", que conta no elenco com Anabela Moreira, Gonçalo Waddington, Márcia Breia, Fernando Luís e Tiago Rodrigues, estreia-se quinta-feira mais de um ano depois da rodagem e da sua passagem pelo festival de Veneza.

    Sexta longa-metragem de João Canijo, 50 anos, este é também o último filme que fez com produção de Paulo Branco.

    A história revisita o mito de Electra, com Lúcia (Anabela Moreira), que cumpre um luto eterno pelo assassínio do pai, a confrontar-se com a mãe e o padrasto até a morte, auxiliada por um irmão que regressa a casa ao fim de muitos anos de afastamento.

    "Mal nascida" é o terceiro filme de uma trilogia sobre mundos paralelos iniciada em 2003 com "Noite escura", que João Canijo idealizou com base na tragédia grega e com Electra no centro das histórias.

    O segundo filme, intitulado "Piedade", está ainda no papel, porque "não havia condições de produção por ser muito caro e ter muitos actores", disse o realizador em entrevista à agência Lusa.

    "O primeiro [`Noite escura´] passa-se numa casa de alterne, o segundo passava-se no crime organizado, com tráficos, e o terceiro era este [`Mal nascida´], passava-se no Portugal rural", descreveu João Canijo, que queria contar a história clássica da família de Agamemnon e de Clitemnestra, pais de Electra, nesses três filmes.

    "Mal nascida" é um filme que incomoda, por escancarar as portas de um país isolado, de ganância, crime e castigo, adultério e incesto, a cheirar a morte, de ausência de diálogo dentro das famílias.

    "As aldeias são tão desertificadas, que vivem numa espécie de casulo, onde todas as emoções e todos os sentimentos explodem muito mais facilmente; qualquer pequena coisa faz explodir", opinou o realizador.

    "É um isolamento que fez perder a civilização rural que existia e não fez ganhar uma nova. É uma coisa muito estranha, porque são pessoas absolutamente incivilizadas, mas que vêem a televisão que se vê nas cidades", constatou.

    Essa rudeza de que fala João Canijo chega ao espectadores através da interpretação dos actores.

    Ao contrário do que aconteceu em "Noite escura", que levou João Canijo durante dois anos a percorrer várias casas de alterne, em "Mal nascida" grande parte da pesquisa foi feita pelos actores, sobretudo por Anabela Moreira, que viveu dois invernosos meses numa aldeia transmontana próxima de Boticas antes da rodagem começar.

    Viveu como se fosse uma camponesa, cuidou de vacas e de porcos, ganhou a confiança da aldeia e, por decisão própria, engordou 25 quilos, "para ficar mais brutal, mais monstruosa, mais bicho tosco", recordou João Canijo.

    No método de trabalho com o elenco, João Canijo defende que "os actores são responsáveis e também são artistas e a interpretação que ela fizesse do meio onde teria que se mover o seu personagem seria mais produtiva" do que uma interpretação sua.

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