“Grande parte de nós está no desporto por gosto. E normalmente esse trabalho não aparece”

Helena Machado. Ligada ao desporto há mais de 50 anos, tem no União Micaelense o seu clube do coração. A paixão pelo desporto recebeu-a do pai desde cedo. Das pistas de atletismo, pavilhões e zonas de controlo de ralis, é das pessoas mais conhecidas do desporto açoriano com uma alegria contagiante




Entre pistas de atletismo, pavilhões de basquetebol, de voleibol, provas de rali e viagens constantes entre as ilhas e o continente, Helena Machado construiu uma vida ligada ao desporto, não como atleta ou treinadora, mas de uma forma, muitas vezes pouco visível, e, no entanto, presente como a que organiza, acompanha, arbitra, coordena e faz acontecer. Helena Machado nasceu em São Miguel e recorda uma infância muito feliz, numa família onde não faltou estabilidade e carinho. 

“A ideia que tenho é que sempre fui para a praia, sempre fui muito bem tratada pelos meus pais. Eram outros tempos. Tinha empregada que me fazia tudo, cheguei a dizer que fui tratada como uma princesa, pelo meu pai e pela minha mãe”, diz-nos com boa disposição. Aliás, ao longo da nossa conversa não faltou a boa disposição na viagem que fez ao passado e as boas recordações de outros tempos de desporto. 

Apesar do 25 de Abril de 1974 ter trazido “outra  realidade, como por exemplo, deixámos de ter empregada, a minha mãe foi estudar à noite, mas continuo com boas memórias do meu tempo do liceu. E, para mim, nada mudou, porque sempre tive uma infância e uma juventude feliz”.

Foi através do pai que nasceu a paixão pelo desporto. Helena Machado acompanhava-o para campos, pavilhões e provas de ralis. Absorveu, desde cedo, o espírito associativo que marcava o desporto em São Miguel: “O meu pai levava-me para todo o lado e foi assim que começou o meu gosto pelo desporto”. Na altura, foi criada a “Comissão Instaladora do Atletismo, da qual o meu pai fez parte, e então, comecei a praticar, mas como atleta fazia um salto em altura, um salto em comprimento, só mesmo para tapar buracos”. Ainda jovem, Helena Machado começou a colaborar no atletismo, acompanhando crianças. Com 18 anos foi para Braga com uma delegação de cerca de 20 crianças, entre os 13 e 14 anos. Depois foi coordenadora de ilha. “Fomos várias vezes ao Olímpico Jovem”, conta. 

Em 1986 começou na arbitragem de atletismo, “deixei de ser dirigente e passei a ser mais coordenadora dos eventos de crianças e de os acompanhar”, referiu. O basquetebol ocupou também um lugar especial na sua vida. “A minha irmã Maria João jogava basquetebol no União Micaelense - o meu clube do coração; convidaram-me e lá estive mais de 20 anos, no acompanhamento da equipa, na organização de viagens, no apoio às atletas. Corri o país inteiro”, diz com orgulho, acrescentando que, “no último ano, quando acabou tudo, peguei num carro e fui a Fátima agradecer, porque nunca me aconteceu nada, nem a mim, nem às atletas”. 

Esteve também ligada ao voleibol durante cinco anos: “no Volei Clube, nos Antigos Alunos, depois criou-se um núcleo no União Micaelense. Mas depois deixei, e fiquei só com ralis (controladora) e o atletismo”. 

Em 2011, afastou-se do basquetebol e passou os direitos desportivos para o União Sportiva, numa altura em que o desporto começou a tornar-se mais profissionalizado. Adianta que “continuei na Associação de Basquetebol mas sem atividade. Foi a melhor decisão que fiz. O União Sportiva é mais profissional. O União Micaelense fez a sua geração de basquetebol”. Continuou com os ralis e o atletismo. Atualmente é presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Atletismo de São Miguel e mantém atividade regular na arbitragem. Nos ralis, onde começou ainda adolescente ao lado do pai, continua igualmente ativa, acompanhada há décadas pela prima Cristina Gamboa.

A paixão pelo arbitragem foi crescendo, “fui criando um bichinho e um dia, o José Neves perguntou-me se não queria tirar o curso de árbitro e fomos. A partir daí, começámos a ser convocados a nível nacional. Há dois anos, ele convenceu-me a tirar o curso de árbitro de bronze”. Um curso muito exigente, mas ao qual Helena Machado não virou a cara, nem mesmo com todas as peripécias que aconteceram: “São três horas de teste online, para o mundo inteiro - cada um recebe na sua língua -, só que, no ano anterior, eu e o José Neves fizemos este curso, mas naquele dia, a luz da minha casa apagou e pedi para fazer no meu local de trabalho. Não sei o que se passou que não
conseguia subir o programa. Fiquei frustradíssima. Mesmo assim, apanhei 68% “. Ora, no ano a seguir recebeu uma comunicação para realizar de novo o curso. Então, “não disse nada a ninguém, estudei muito. Foi numa sexta-feira de Santo de Cristo que fiz o teste e consegui ser bronze, com todo o meu mérito e fiquei muito contente”, afirmou, sublinhando que o bronze “não me dá nada mais a nível nacional, ou seja, sou convocada para as mesmas provas, mas foi um curso que me deu um gosto especial passar”. 

Mulher de desafios, Helena Machado decidiu, aos 50 anos, ingressar na universidade. É licenciada em Ciências do Ambiente com ‘minor’ em Gestão e Sustentabilidade, na Universidade Aberta. “Comecei a universidade em 2009 e acabei em 2013”, diz com orgulho. Uma conquista alcançada entre dois trabalhos, viagens e família. Recorda, com um sorriso radiante, que “aproveitava todos os bocadinhos para estudar. Era nas viagens, nos intervalos dos jogos, entre um carro de rali e outro, até na loja”. “Deu-me um gosto especial passar com média de 14”, disse , enaltecendo que “além disso, sou mãe, agora avó, ainda tentei o mestrado, mas seriam mais dois anos. Tenho que dar atenção à minha mãe, aos meus netos, aos meus filhos - que ficam ciumentos porque agora ligo mais aos netos do que aos filhos”, confessou-nos entre risos.

Por falarmos em família, os filhos cresceram entre treinos, viagens e competições. “Claro que, às vezes, em algumas viagens - eles ficavam com a minha mãe ou com a minha sogra. Depois começaram no desporto”. Na altura era mais uma ‘roda viva’, porque “saía do serviço - só tinha um trabalho, comecei a ter dois quando eles foram para o continente - levava um para o golfe, a minha filha para o ténis, ia para os treinos, depois recolhia-os”. Acrescenta, orgulhosamente que “o meu filho é profissional e professor de golfe e, foi recordista ibérico de lançamento de dardo. A minha filha tirou licenciatura em Educação Física, é professora de padel e agora é selecionadora nacional de padel”.

Helena Machado nunca deixou de fazer nada por causa dos filhos, “se queria ir ao cinema, mesmo que o filme não fosse para eles, eles gostavam das pipocas e das batatas, e lá iam eles comigo”. “E foi assim que fui conciliando a vida pessoal, com a vida de desporto, e sempre deu certo”.

Recentemente foi distinguida com o Prémio Carreira na Gala do Desporto da autarquia de Ponta Delgada, um reconhecimento que teve um significado especial. Refere que “primeiro fiquei surpresa. Esses prémios, normalmente, são atribuídos a treinadores ou a atletas, mas gostei deste precedente”, porque ajuda a valorizar “todos aqueles que trabalham nos bastidores do desporto”, como dirigentes, árbitros, controladores, organizadores e voluntários. “Grande parte de nós está no desporto por gosto. E normalmente esse trabalho não aparece”, afirmou.

Apesar de se sentir feliz e realizada, ainda guarda sonhos por concretizar. Fazer um cruzeiro, conhecer Nova Iorque e o Rio de Janeiro, são alguns deles. Mas acima de tudo deseja ver os filhos e os netos felizes.

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