Acaba de adquirir em leilão um lote contendo documentação de Francisco Lacerda que se irá juntar a parte do espólio do maestro que já possui na sua coleção. Qual o interesse deste lote em concreto para a coleção que já possui sobre o maestro, e de que modo a documentação que já possui permite compreender o percurso desta personalidade açoriana?
O interesse consiste no enriquecimento do espólio com novos suportes documentais que permitem identificar e estudar melhor o extraordinário e singular percurso do Maestro Francisco Lacerda. A dispersão documental constitui, por si, um obstáculo à preservação e ao conhecimento.
O início desta coleção ocorreu em 2006, data em que a Leiloeira do Palácio do Correio Velho levou a leilão um importante e vasto conjunto documental do Maestro Francisco Lacerda: cartas, telegramas e bilhetes. O acervo contém cartões assinados por nomes como Amélia Rey Colaço, o Visconde das Mercês, Jaime Cortesão, Vitorino Nemésio e Raul Brandão, entre outros. Dele consta, também, diversa correspondência com artistas estrangeiros, entre os quais Rodney Gallop, Vincent d’Indy e Georges Ganuchat, conservando a maioria dos postais e envelopes os selos da época. Completam o conjunto centenas de fotografias impressas que relatam a sua vida artística e pessoal, cartazes e recortes de jornais - documentação que o Governo Regional dos Açores considerou constituir “fontes de relevante interesse para a história cultural dos Açores”. A agência Lusa, atenta à sua importância, deu nota desse leilão e identificou o Arquivo do Maestro.
Licitei este lote. Posteriormente, procurei enriquecer o acervo com novas aquisições, em leilões ou por via direta. Destaco o curioso e importante conjunto de cartas de Claude Debussy para o Maestro Lacerda, adquirido a um familiar deste, que veio valorizar o espólio. Mais recentemente, licitei na Bestnet Leilões um lote constituído por documentação diversa, com particular significado por valorizar o conjunto.
A documentação destas coleções está a ser estudada (ou já foi)?
Ao longo deste processo, dei nota pública da minha disponibilidade para que o acervo seja consultado - no intuito do seu conhecimento - e/ou depositado em instituição regional, na premissa do tratamento, organização e conservação (como referi em artigos no Açoriano Oriental e no Correio dos Açores). Por via dessa nota, alguns investigadores contactaram-me para a consulta da documentação, nomeadamente o Doutor Duarte Rosa, que viria, mais tarde, a incluir na sua tese de doutoramento cópia das cartas de Francisco Lacerda a Tomás Borba, provenientes da coleção que guardo - não digo que possuo, porque esta coleção, na minha ótica, extravasa o sentido de posse individual para se afirmar como bem coletivo, pertença da história cultural e social de uma comunidade.
Que outras coleções tem na sua posse?
Tenho dedicado os últimos 25 anos à procura de livros e manuscritos antigos relacionados com personalidades de referência da nossa história, seja na literatura, seja na política, com particular atenção às de âmbito regional. Terei muito gosto, em tempo oportuno, de as partilhar.
Que espólio tem surgido no mercado dos leilões com interesse para os Açores?
Recentemente, têm surgido, nos leilões nacionais, algumas cartas autógrafas de Antero de Quental que, embora na sua maioria já publicadas, constituem, no meu modesto entender, documentos de elevada relevância. Essa importância coaduna-se com o elevado interesse que uma personalidade da dimensão de Antero de Quental desperta.
A Região tem estado atenta a esta realidade? Os Açores têm sabido salvaguardar património com interesse para a compreensão do seu passado?
A Região faz o que o seu limitado orçamento para a cultura permite. Denoto vontade e conhecimento por parte dos seus técnicos, e sublinharia o notável trabalho que a Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada desempenha com os parcos meios que dispõe.
Na minha perspetiva, falta alguma imaginação à tutela, ao não explorar mecanismos como o mecenato cultural para mitigar as suas limitações orçamentais. Essa forma, fomenta o envolvimento da sociedade civil e confere capacidade e rapidez, no propósito maior de agilizar aquisições para salvaguarda do património da Região. Existem modelos, como o da Fundação Serralves, que, adaptados à nossa escala e realidade, podem congregar público e privado na missão desse enriquecimento e promoção cultural.
O que o motiva a investir em património arquivístico e na sua salvaguarda?
Missão e identidade, colecionar é preservar.
