O turismo nos Açores atravessa um período de quebra que exige medidas urgentes para recuperar a procura, em particular do mercado nacional, considerado o principal emissor de turistas para a Região. O alerta foi lançado por Gilberto Vieira, presidente das Casas Açorianas, durante o encontro de 2026, a decorrer na Ilha Terceira, sob o tema “Rumo: Como voltar ao crescimento ?”.
“O turismo está a decrescer nos Açores de uma forma preocupante”, afirmou o responsável, chamando a atenção para os dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA), que apontam para 11 meses consecutivos de quebra na procura turística.
“Perguntam-me muitas vezes se os proprietários das casas açorianas estão preocupados. A resposta é fácil, é de dar face à leitura dos números. Sim, estamos preocupados”, afirmou o presidente da associação.
Uma das principais preocupações prende-se com a evolução do mercado português, responsável por 36,5% das dormidas nos Açores em 2025. “11 meses consecutivos de queda na procura por parte do mercado nacional configura uma situação de perda que é anterior ao final do mês de março, data em que a Ryanair deixou de voar do continente para os Açores”, disse.
“A atuação no mercado do continente não pode ser deixada para amanhã, mas para ontem”, defendeu, afirmando a necessidade de implementação imediata de um plano de ação dirigido ao mercado nacional, articulado com operadores turísticos e agências de viagens.
O responsável considera que a Visit Azores deve liderar a elaboração de um plano global de promoção, envolvendo os agentes locais e parceiros do setor. Defende igualmente que o Governo Regional dos Açores reforce o investimento na promoção turística, sublinhando que a estratégia precisa de recursos financeiros para produzir resultados.
“Atingimos essa maturidade e agora é a hora de o provarmos, mostrando competência, e criando um bom plano global de promoção para que não andemos a fazer promoção casuística”, declarou.
Acessibilidades aéreas condicionam a recuperação
A importância das ligações aéreas para a retoma do turismo foi também destacada por Fátima Amorim, presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. A autarca considera que a recuperação da procura depende da capacidade de melhorar o acesso às ilhas e garantir condições de transporte compatíveis com as possibilidades dos visitantes.
Para Fátima Amorim, as tarifas aéreas têm um peso significativo na decisão de viajar, sobretudo para as famílias que comparam os custos, horários e alternativas disponíveis. “Se o valor da viagem representa um esforço demasiado elevado, a decisão pode ser diferente, mesmo existindo vontade de conhecer as nossas ilhas”, explicou.
Turismo rural deve valorizar a identidade açoriana
Por sua vez, Vânia Ferreira, presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória, destacou o potencial do turismo em espaço rural para diversificar a oferta, dinamizar as economias locais e aproximar os visitantes das tradições e dos modos de vida das comunidades açorianas.
De acordo com os dados regionais de 2025 referidos pela autarca, este segmento representou cerca de 4,8% do total das dormidas no arquipélago. Vânia Ferreira considera que, apesar da sua dimensão no conjunto da atividade turística, existe margem para reforçar o seu contributo económico.
“O desafio que temos pela frente não consiste apenas em atrair mais visitantes. Consiste em proporcionar melhores experiências, distribuir os benefícios do turismo pelo território, combater a sazonalidade e assegurar que o crescimento da atividade se traduz em benefícios concretos para quem cá vive”, afirmou.
Defendeu uma promoção integrada da Ilha Terceira, que articule património histórico, paisagens naturais, gastronomia, festas populares e experiências rurais. Vânia Ferreira destacou também o potencial da diáspora açoriana, considerando que os laços familiares podem contribuir para estimular visitas, reencontros e estadias mais prolongadas.
Crescer com sustentabilidade
A preservação do património a autenticidade e a qualidade de vida das populações foram preocupações comuns às três intervenções. Vânia Ferreira sublinhou que “a autenticidade não se fabrica, respeita-se, protege-se e logo se transmite”, enquanto Fátima Amorim defendeu um turismo assente na qualidade, na diferenciação e na sustentabilidade.
Gilberto Vieira reafirmou a disponibilidade das casas açorianas para colaborar na promoção do destino, defendendo que o objetivo deve ser fidelizar os visitantes: “não queremos um turista para uma única visita, mas para que volte”.
