Este ano, a produção de meloa de Santa Maria ficou muito aquém do que os produtores esperavam. Na Cooperativa de Produtos Agro-Pecuários da Ilha de Santa Maria - Agromariensecoop entraram até agora cerca de 57 toneladas, quando, no ano passado, por esta altura, já tinham sido produzidas cerca de 105 toneladas.
A diminuição da produção fez-se sentir nas prateleiras das ilhas e também nas do continente. Tendo em conta que não se produziu fruta suficiente para encher um contentor dentro do período de tempo em que a meloa está boa para consumo.
“O navio sai na quinta-feira e eu só ponho lá dentro a fruta de segunda, terça e quarta. E para três dias, conseguir encher o contentor com essas quantidades que me estão a entrar, é totalmente impossível”, explica Ricardo Melo, engenheiro da Cooperativa de Produtos Agro-Pecuários da Ilha de Santa Maria.
Nos últimos três anos, conta que conseguia enviar entre oito e dez contentores para o continente e que este ano só conseguiu um. A meloa tem um período de vida útil curto e, por isso, não dá para esperar que seja colhida mais meloa com o intuito de encher contentores: “Ela entra hoje, até no máximo depois de amanhã tenho que a tirar daqui”, acrescenta.
Nesse sentido, tendo em conta que se produziu menos, é claro que a oferta não correspondeu à procura: “Vou tentando chegar aos meus clientes todos, mas nunca nas quantidades que eles precisam”, admite Ricardo Melo.
Muita chuva e alguns piolhos
À falta do clima certo juntaram-se as pragas. As mudanças do tempo potenciaram o aparecimento de piolhos da cultura, que acabara mesmo por afetar alguns terrenos que já estavam cultivados.
“Houve ataques na própria sementeira, são semeadas em cuvetes que ficam em estufa. E até nas próprias sementeiras, quando as plantas germinam, naquela fase teve ataques que dizimaram essas sementeiras e depois já não houve tempo para recuperar”, explica o engenheiro.
A chuva intensa também prejudicou a fruta, tendo em conta que a planta quando absorve muita água, a meloa estala e deixa de estar boa para vender.
A chuva atrasou os trabalhos no terreno. Plantas que deviam ter sido transplantadas em abril chegaram à terra em junho e as que estavam previstas para junho acabaram por ser plantadas em julho: “Foi um ano atípico”, sublinha. E além de chuva na primavera, choveu também em julho e agosto.
A quebra na produção prejudicou as contas, a Agromariensecoop preparou a campanha deste ano a contar com as cerca de 100 toneladas que costuma produzir nos anos anteriores. Nesse sentido, foram adquiridas caixas, alvéolos e outros materiais que agora estão parados por não haver meloa suficiente para transportar.
A isso juntam-se os custos das caixas alugadas, que mesmo que não sejam usadas, têm de ser devolvidas, o que obriga a Cooperativa a pagar de novo o transporte de volta.
Apoios ao transporte ainda não chegaram
A situação financeira torna-se ainda mais grave pelo atraso nos apoios do Programa de Apoio ao Acesso aos Mercados, do Governo Regional, que comparticipa parte dos custos de transporte.
Segundo Ricardo Melo, a Cooperativa ainda não recebeu os pagamentos relativos às despesas de 2025, apesar de já ter pedidos aprovados. Normalmente, estas verbas chegavam antes do início da campanha seguinte, o que ajudava a preparar a nova produção. Contudo, este ano, “não recebemos nem um tostão”, afirma.
O transporte de uma campanha de cerca de 100 toneladas pode rondar os 50 mil euros, sem o apoio é a própria Cooperativa que avança com os custos: “Numa Cooperativa pequena como a nossa é um encargo brutal”, sublinha.
E alerta que numa ilha com cerca de cinco mil pessoas garantir que a logística do transporte permita escoar a produção de forma justa é fundamental: “Esse programa existe, fazemos sempre contas dessas verbas entrarem”.
