O distanciamento entre os aliados da Europa e os Estados Unidos (EUA), desde o início da atual administração do Presidente norte-americano Donald Trump, em janeiro de 2025, teve “efeitos positivos”, já que permitiu uma “evidente aproximação da União Europeia (UE) com o Reino Unido e também com o Canadá”, considerou Paulo Rangel no Foro La Toja – Vínculo Atlântico, evento que decorre em Lisboa.
Além disso, acrescentou, esse arrefecimento das relações “obrigou a Europa a tomar consciência da sua própria responsabilidade, como os americanos advogam há muitas décadas e sobretudo nos últimos anos”.
Apesar destes pontos positivos, o chefe da diplomacia portuguesa defendeu que a relação com os EUA deve ser mantida e trabalhada, já que “é essencial à definição da política externa” dos países europeus e da UE.
“Os países europeus dispõem dos recursos para tomar conta da sua defesa, ainda que, por escolha, o façam e devam fazer em conjunto com os seus aliados do outro lado do Atlântico”, afirmou.
O líder da política externa portuguesa salientou ainda que a posição de Portugal e de Espanha relativamente aos Estados Unidos é diferente.
“O lugar da relação atlântica na equação dos dois países ibéricos não é igual. Portugal é exclusivamente atlântico. A Espanha tem uma evidente projeção atlântica, mas tem também uma presença mediterrânica e continental”, disse Rangel.
Atualmente, a relação entre Espanha e a administração Trump atravessa um período de grande tensão diplomática, devido sobretudo a divergências estratégicas e militares em relação ao conflito com o Irão.
O Governo do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, recusou o uso de bases militares em território espanhol e fechou o espaço aéreo a aviões norte-americanos para ataques contra o Irão.
Em resposta, Trump declarou que queria suspender todas as relações comerciais com a Espanha, classificando a atitude do país como “terrível” e avançando com a ideia de suspender Madrid da NATO.
Por seu lado, Portugal optou por uma “colaboração leal” com Washington, dando aos EUA uma “autorização condicional” para o uso da base aérea das Lajes, nos Açores, e do espaço aéreo em missões que não visassem ataques a infraestruturas civis do Irão.
Rangel lembrou que até com o mais antigo aliado de Portugal, o Reino Unido, houve “momentos complicados”, recordando o episódio do “Ultimato Britânico de 1890” - quando Lisboa foi obrigada a retirar da zona entre Angola e Moçambique e pôr fim ao projeto colonial do ‘Mapa Cor-de-Rosa’ –, mas que isso não pôs em causa a manutenção da relação.
Ainda assim, o ministro dos Negócios Estrangeiros defendeu que a Europa deve apostar “noutros vínculos atlânticos”, dando como exemplo o Mercosul (Mercado Comum do Sul – composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), “um mercado de 700 milhões de pessoas que constitui um antídoto para as novas tentações protecionistas”.
“Temos de olhar para o Atlântico inteiro e não apenas para as latitudes do norte”, disse, recordando que o Atlântico se alarga do Ártico ao Antártico e defendendo apostas em regiões como a América do Sul e a África.
