Este caso surge um dia depois de o ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, cuja demissão em julho gerou uma vaga de contestação popular, ter dirigido duras críticas sobre a situação de corrupção na Ucrânia e pedido condições para a realização de eleições em tempo de guerra.
A demissão de Iryna Mudra foi anunciada no ‘site’ da presidência ucraniana, no dia em que o Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) e a Procuradoria Especial (SAP) mostraram na rede Telegram a realização de uma “operação especial”.
As autoridades indicaram que a operação visou uma "organização criminosa" que operava sob a direção de um parlamentar ucraniano em exercício e de um ex-parlamentar, "com a participação de altos funcionários da presidência ucraniana e outros".
O deputado ucraniano em causa, Vadym Stolar, declarou nas redes sociais que a sua casa foi alvo de buscas por parte dos investigadores e que está a "cooperar plenamente" com as autoridades anticorrupção.
O jornal The Kyiv Independent apresenta Vadym Stolar como um, deputado que representava a fação pró-russa Plataforma de Oposição-Pela Vida no parlamento até ter sido banida no seguimento da invasão das tropas de Moscovo, em 2022.
Atualmente é independente e representa o grupo Restauração da Ucrânia, uma dissidência da Plataforma de Oposição-Pela Vida.
Segundo o NABU, os suspeitos terão lavado 150 milhões de hryvnias (cerca de 2,8 milhões de euros) para pagar a caução de um arguido noutro grande caso de corrupção que abalou a Ucrânia no ano passado.
Este caso envolveu um grande desfalque no setor energético e provocou a demissão dos ministros da Justiça e da Energia, bem como a saída de Andriy Yermak, chefe de gabinete presidencial e braço direito de Zelensky. Era na altura considerado um dos homens mais influentes da Ucrânia.
De acordo com os investigadores, este vasto esquema de corrupção foi orquestrado por Timur Mindich, um empresário considerado um amigo próximo do chefe de Estado.
A corrupção é um flagelo recorrente na Ucrânia há muitos anos e o seu combate foi uma bandeira eleitoral de Zelensky quando chegou ao poder em 2019 e uma exigência vital da União Europeia no processo de adesão de Kiev.
Vários grandes escândalos eclodiram desde o início da invasão russa, incluindo no setor da Defesa e das forças armadas, levando ao afastamento de vários membros do Governo, oficiais militares e titulares de cargos públicos.
No entanto, até à data, as operações do NABU e do SAP raramente resultaram em condenações.
Em 2025, Zelensky enfrentou amplas manifestações de protesto que o acusavam de procurar retirar a independência dos dois órgãos anticorrupção, mas acabou por recuar nas suas intenções perante a contestação da sociedade civil e dos aliados ocidentais de Kiev.
Na terça-feira, O ex-ministro da Defesa Mikhail Fedorov apelou para a criação de condições para a realização de eleições, apesar da invasão russa, como forma de "restaurar um processo democrático pleno".
Fedorov, cuja demissão gerou um movimento popular de apoio ao seu regresso ao Governo, argumentou que “a democracia não pode ser feita refém da Rússia”.
A Ucrânia encontra-se sob lei marcial desde o inicio da guerra, levando à renovação automática dos mandatos dos cargos dos titulares políticos, incluindo Zelensky.
Além dos impedimentos legais, as autoridades ucranianas alertam para a dificuldade em realizar uma votação nacional segura quando parte da Ucrânia está ocupada pela Rússia, que também bombardeia o país todos os dias.
Além disso, milhões de ucranianos encontram-se na situação de refugiados no estrangeiro ou estão deslocados no país e largos milhares de soldados foram destacados para as frentes de combate.
Num discurso transmitido na plataforma Youtube, Fedorov pediu também aos titulares de cargos públicos que sejam transparentes e prestem contas, em referência aos casos de corrupção que abalaram o país nos últimos anos.
"Poder deve significar responsabilidade", insistiu Fedorov, que exigiu também melhor comunicação ao Governo, ao advertir que “a extraordinária confiança concedida às autoridades em tempo de guerra” não lhes dá "licença para agir sem explicações".
O ex-ministro foi substituído no mês passado quando já eram públicas as divergências com o então chefe das forças armadas, Oleksandr Syrsky.
