UEFA boicota provas da FIFA em protesto contra plano de comercialização dos Mundiais

As federações europeias vão boicotar as provas de clubes e seleções organizadas pela FIFA em protesto contra o modelo de comercialização dos Mundiais proposto pelo organismo regulador do futebol mundial



“Como resultado da discussão, nenhuma associação da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que sejam abandonadas por completo e que sejam dadas garantias vinculativas de que a FIFA jamais abrirá a sua governança ou as competições à propriedade privada”, pode ler-se em comunicado publicado no sítio oficial da confederação europeia na Internet.

A UEFA pronunciou-se no fim de uma reunião com as suas 55 federações-membro, após ter contestado nos últimos dois dias a intenção revelada na terça-feira pela FIFA de angariar até 4,2 mil milhões de dólares com a venda de participações dos Campeonatos do Mundo a privados.

“A posição da Europa é clara. Jamais daremos legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender o que detém para a próxima geração. Ninguém deve ter dúvidas: a UEFA e as suas federações nacionais vão opor-se a esses planos com absoluta determinação”, referiu.

Na quarta-feira, o presidente da FIFA, o ítalo-suíço Gianni Infantino, afirmou que o modelo de comercialização proposto é uma oportunidade para as federações-membro do organismo, mas não uma obrigação.

“Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a ceder. O Mundial pertencerá sempre ao futebol e, enquanto a Europa tiver voz, jamais estará à venda”, reiterou a UEFA, na sequência de preocupações e críticas manifestadas por outras entidades da modalidade e pela política.

A FIFA quer aumentar nos próximos anos o financiamento destinado ao desenvolvimento do futebol para mais de 10 mil milhões de dólares, através de uma nova estrutura comercial, cuja criação depende da aprovação da maioria do Conselho e das 211 federações-membro.

A proposta passa pela criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), integralmente detida pela FIFA e que reunirá os direitos comerciais do organismo, vendendo participações minoritárias a investidores privados, que não vão ter papel operacional na subsidiária, avaliada inicialmente em 20 mil milhões de dólares.

“É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta significativa. Isso não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial”, acrescentou a UEFA, liderada pelo esloveno Aleksander Ceferin.

A operação permitirá reforçar o programa FIFA Forward e vai aumentar o financiamento de desenvolvimento por federação dos atuais oito para 20 milhões de dólares no ciclo 2027-2030, de 22 milhões entre 2031 e 2034 e para 24 milhões de 2035 a 2038.

A FIFA assegura que vai manter o controlo exclusivo sobre a governação do futebol, as competições, o calendário internacional e todas as decisões regulamentares e desportivas, num plano revelado depois do Mundial2026, que foi coorganizado por Estados Unidos, México e Canadá e atingiu recordes de público e audiência na história do principal torneio de seleções.

O jornal britânico The Times avançou na quarta-feira que o presidente da FIFA deu um prazo de 53 dias às 211 federações-membro, entre as quais a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), para aceitarem o modelo, a troco de alguns milhões de euros.

“As federações enfrentam agora um ultimato: aceitar a captura irreversível das maiores competições ou arcar com as consequências. Esta não é uma ‘decisão democrática’, mas uma governança pela intimidação”, concluiu a UEFA, convicta de que “o futebol não pode hipotecar o seu futuro em busca de lucro”.

Para operacionalizar o projeto, a FIFA está a trabalhar com o banco J.P. Morgan, surgindo entre os potenciais investidores a Thrive Capital, fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, que é genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

 


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