O dia 24 de outubro é o Dia Mundial de Combate à Pólio, uma data dedicada a reforçar o esforço global de erradicação da doença e a importância da vacinação.
Como se envolveu o Rotary International no combate à poliomielite?
Tudo começou em 1979, numa altura em que a poliomielite se alastrava e alarmava o mundo inteiro. O então presidente do Rotary International, James L. Bomar Jr., deslocou-se às Filipinas para participar nas primeiras vacinações e prometeu continuar a apoiar a causa naquele país. Mais tarde, um rotário epidemiologista sugeriu que o Rotary abraçasse este combate a nível global. Mas só em 1985 outro presidente do Rotary, médico e amigo do Dr. Sabin (o criador da vacina oral contra a pólio, com o vírus atenuado), decidiu avançar com este projeto a que chamou Pólio 2005, porque se pensava que seria nesse ano, o do centenário do Rotary, que se poderia comemorar a erradicação da doença.
Percebendo a dimensão e a complexidade do desafio, em 1988, o Rotary juntou-se à Organização Mundial da Saúde (OMS), à UNICEF e ao Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, e criaram a GPEI (sigla em inglês de Iniciativa Global para a Erradicação da Pólio), com o nome PolioPlus, porque tem objetivos para além da vacinação: ensina hábitos de saúde e de higiene, promove a vacinação contra outras doenças, como o sarampo, a rubéola, etc., e distribui suplementos alimentares, como vitamina A, muito importante para o crescimento das crianças malnutridas.
Nessa altura, aconteciam no mundo 1000 casos de pólio por dia. Graças a esse grande esforço conjunto, a doença permanece hoje endémica em apenas dois países: o Paquistão e o Afeganistão. Estamos com 42 casos, 36 no Afeganistão e 6 no Paquistão, números à data de 13 de outubro.
A poliomielite é uma doença altamente contagiosa causada pelo poliovírus, transmitida sobretudo por via fecal-oral, através de água ou alimentos contaminados. Pode atingir o sistema nervoso e provocar paralisia permanente; em casos raros, pode mesmo ser fatal. Não existe cura, mas a doença é prevenível através da vacinação — daí o foco desta data na manutenção de coberturas vacinais elevadas e na vigilância epidemiológica.
Sendo uma causa de dimensão global, como é que as várias organizações dividem as tarefas e o financiamento?
Atualmente, fazem parte da GPEI, além das já citadas, a Fundação Gates, que entrou em 2007, e a Gavi, a Aliança para as Vacinas, que entrou para a organização em 2020. Conta ainda com o apoio de vários países ricos que são grandes doadores, como o Japão, a Alemanha, os Emirados Árabes Unidos e o Canadá, etc.
Cada parceiro tem uma função específica: a OMS define as estratégias de combate à doença; a UNICEF mobiliza os profissionais de saúde no terreno e presta ainda apoio financeiro; o CDC desenvolve a investigação e orienta as equipas; a Gavi procura obter os melhores preços para as vacinas; e a Fundação Gates apoia a investigação laboratorial e concede financiamento direto e de contrapartida.
E qual é o papel específico do Rotary International nesta aliança?
A função do Rotary é, sobretudo, sensibilizar, consciencializar a população e angariar fundos. A nossa meta anual global é de 50 milhões de dólares. Como existem cerca de 37 mil clubes Rotary no mundo, isso equivale, em média, a 1500 dólares por clube.
O grande incentivo é que a Fundação Gates se compromete a contribuir com o dobro desse valor: se angariarmos os 50 milhões, entrega outros 100 milhões. Para atingir este objetivo, os clubes organizam jantares beneficentes, galas, torneios desportivos, corridas e outras iniciativas.
Como se estão a organizar os clubes em Portugal e nos Açores, para assinalar o Dia Mundial de Combate à Pólio?
Em Portugal temos dois distritos rotários; no nosso temos 67 clubes. Ao longo de outubro, e em setembro, têm-se realizado jantares de angariação de fundos em várias localidades.
Nos Açores, além das ações já realizadas, haverá uma iniciativa promovida pelos membros mais jovens do nosso clube, em Ponta Delgada: um passeio a cavalo, no qual todos usarão t-shirts alusivas à luta contra a pólio, para angariar fundos e divulgar a mensagem.
Foi ainda criada pela Rotary Foundation, em todo o mundo, a Polio Plus Society, uma rede internacional de pessoas comprometidas com um mundo livre da poliomielite, que em São Miguel e noutras ilhas tem grande adesão. Ao aderir, demonstramos o compromisso através de um donativo anual mínimo de 100 dólares para o Fundo PolioPlus, contribuindo diretamente para, além do que já referi, a aquisição de vacinas, a vigilância epidemiológica, o transporte de profissionais de saúde e a implementação de furos de água potável em regiões ainda afetadas pelo vírus.
Quais são os maiores desafios no terreno, sobretudo nas regiões onde ainda há resistência às vacinas?
O maior desafio é mesmo a dificuldade em sensibilizar quem é contra a vacinação e chegar aos locais mais longínquos naqueles dois países onde a pólio ainda é endémica, o Paquistão e o Afeganistão. É necessário vacinar cerca de 400 milhões de crianças todos os anos, não só nestes países, mas também noutros onde os sistemas de saúde são débeis.
No Paquistão, as equipas de vacinação precisam de proteção policial e enfrentam uma enorme hostilidade: infelizmente, já morreram mais de 200 polícias a proteger os profissionais de saúde. É fundamental perceber que a vacinação é a única forma de prevenir e erradicar a doença. Enquanto houver um caso de pólio no mundo, todas as crianças estarão em risco.
