Migrações

ONG pedem proteção da UE após decreto que limita atividade de resgate em Itália

Organizações não-governamentais (ONG) que realizam resgates de migrantes no Mediterrâneo alertaram quarta-feira que o novo decreto de imigração aprovado pela Câmara de Deputados italiana terá consequências “mortais”, apelando à intervenção da União Europeia (UE).



"Os novos regulamentos e a atribuição de portos distantes impedem os navios de realizarem as suas operações de resgate. Como resultado, ainda mais pessoas morrerão na rota de migração mais mortal do mundo", realçou a advogada da SOS Humanity, Mirka Schaefer, em comunicado.

Esta organização humanitária sublinhou que o novo decreto, elaborado pelo Governo de extrema-direita liderado por Giorgia Meloni, "viola as leis internacionais e europeias", instando, por isso, a Comissão Europeia a “tomar medidas contra as infrações à lei de um país membro da União Europeia".

Também a ONG espanhola Open Arms apelou à constituição de uma comissão parlamentar para investigar e apurar responsabilidades face às "violações dos direitos humanos" que os seus trabalhadores e voluntários testemunharam "nos últimos sete anos".

“Não é possível continuar a prestar assistência aos náufragos devido às omissões de socorro, às retiradas forçadas por milícias líbias disfarçadas de guardas-costeiras com dinheiro europeu e à aprovação de decretos inconstitucionais”, frisou esta organização em comunicado enviado à agência Efe.

No início do ano, o Conselho de Ministros italiano promoveu o referido decreto com dois pontos que modificam substancialmente as atividades de resgate: a obrigação de solicitar o desembarque imediatamente após um resgate, sem poder fazer mais, e a atribuição de portos distantes para desembarque das pessoas salvas.

As ONG arriscam multas pesadas e o arresto dos navios se não cumprirem as regras impostas pelo Governo italiano.

Na terça-feira, o navio Ocean Viking, da ONG francesa SOS Mediterranée, recebeu autorização para desembarcar 84 pessoas resgatadas em Ravenna (nordeste da Itália), onde só chegará no próximo sábado por estar a "quatro dias da travessia", detalhou fonte da organização à Efe.

Segundo esta organização, as medidas promovidas pelo decreto “resultam numa redução mortal” das suas capacidades de salvamento.

A única embarcação que nestas semanas conseguiu um porto próximo foi o Sea Eye 4, que viajava com 109 migrantes e dois cadáveres após duas operações de resgate no Mediterrâneo central e conseguiu atracar em Nápoles (sul), visto que o primeiro porto designado ficava a cerca de cinco dias de navegação.

A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), no entanto, teve que viajar para os portos de Ancona e La Spezia, no norte da Itália, depois de resgatar centenas de pessoas no Mediterrâneo central em janeiro.

“No mês passado já foram interpostos dois recursos solicitando a anulação das medidas administrativas pelas quais os portos de Ancona e La Spezia nos foram atribuídos”, destacou esta ONG nas redes sociais, onde voltou a insistir que o decreto “não cumpre direito internacional" por não priorizar a atenção à saúde dos resgatados.

No início deste mês, o Conselho da Europa manifestou preocupação em relação a este decreto que, segundo a comissária para os Direitos Humanos, Dunja Mijatovic, "poderia impedir o fornecimento de assistência por parte das ONG no Mediterrâneo Central e, portanto, poderia estar em desacordo com as obrigações de Itália sob os direitos humanos e o direito internacional".


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