Uma obra criada em 2014, inspirada nas memórias de infância de quem cresceu e brincou junto à orla costeira, conquistou recentemente lugar na coleção do Museu da Presidência.
O artista açoriano João Amado diz que ainda está a “flutuar” e custa-lhe acreditar que a sua peça “Rapaz do Calhau” foi adquirida para integrar a sala do Conselho de Estado, no Palácio Nacional de Belém.
A notícia chegou de forma inesperada, através das redes sociais. O convite foi feito pela curadora Carla Cardoso, depois de ter conhecido o trabalho do artista durante a Walk&Talk - Bienal de Artes. A oportunidade surgiu depois de Vhils abdicar do pagamento pelo retrato que criou de Marcelo Rebelo de Sousa, com a intenção de que esse valor fosse investido na aquisição de obras de novos artistas. A peça de João Amado acabou por ficar entre as 14 obras adquiridas.
“Há muitos artistas em Portugal e nós, sendo açorianos, muitas vezes estamos mais afastados dos grandes centros. Nunca imaginei que alguém estivesse, do outro lado do oceano, com o olho no meu trabalho”, conta João Amado.
A obra agora faz parte da coleção do Palácio Nacional de Belém e está exposta numa das paredes da sala do Conselho de Estado, um espaço institucional que conta com as peças selecionadas para renovar a estética da sala.
“Rapaz do Calhau” retrata um miúdo descalço em cima das pedras da costa, uma memória familiar para quem cresceu nas ilhas, mas com um lado surreal: “O miúdo encontrou uma pérola junto ao calhau e todas as gaivotas sentiram-se atraídas por ela, porque dentro das lamparinas que carregam, também existe uma pérola. É como se essa pérola fosse um talismã que atrai, que vibra e lança um sinal que leva as gaivotas a convergir para o miúdo. É uma ideia de linguagem que se acontece sem palavras, mas através de um campo de vibração”, explica o artista.
João Amado trabalha com a técnica de colagem, reúne imagens de livros e arquivos visuais que colecionou ao longo dos anos, e sobrepõe camadas até construir narrativas visuais. O processo é intuitivo, feito de tentativa e erro: “Há uma parte invisível do trabalho que as pessoas não veem. Há muito teste, muita procura pela imagem certa, diálogo e também descarte”.
Apesar da sala onde a obra está exposta não ser acessível ao público em geral, o artista considera a aquisição um reconhecimento importante. Mais do que a visibilidade, destaca o facto de o trabalho passar a integrar o património artístico do Estado.
Para João Amado, a arte é reflexão e é “uma forma de transformar ideias e emoções em algo visível”, conclui.
