Natália Correia foi das “grandes pensadoras do século XX”

Ângela de Almeida Investigadora fala sobre o legado deixado por Natália Correia, no dia em que se celebram 30 anos da sua morte e no ano do centenário do seu nascimento




A obra de Natália Correia continua atual hoje, como o foi no seu tempo?
A Natália Correia é cada vez mais atual. A sua obra é exatamente um compromisso com a humanidade, assente no postulado de um novo paradigma para a humanidade, assente na completa dissolução das antinomias existentes no nosso mundo, hoje, e na criação de um mundo sem discriminação, sem qualquer forma de desigualdade, onde as religiões possam não ocupar a supremacia que ocupam hoje no mundo, onde a cor da pele e todas as formas de diferença possam ser enquadradas como a beleza diversa do ser humano.


Tudo temas da atualidade, o que corrobora a ideia que a Natália Correia era uma mulher à frente do seu tempo?
Muito à frente. É preciso ver que, no ciclo de vida dela, 40 anos de vida foi sob o signo da ditadura. O que foi terrível: apanhou a Constituição de 1933, que “apedrejava” as mulheres com uma legislação que as reprimia; apanhou duas guerras mundiais, a emergência dos fascismos e do Holocausto, a emergência do 3.º Mundo, da Guerra Fria, do terrorismo, do abate do planeta, tudo isso. E foi exatamente essa consciência que a fez lutar e erguer uma bandeira de libertação da humanidade de todos esses condicionalismos, sempre com um universo subtextual maravilhoso, que era a ilha natal onde tinha nascido e onde ela bebia a força, o ânimo para continuar. Toda a sua obra, todo o seu pensamento, é uma viagem da ilha para o mundo e do mundo para a ilha, para poder voltar ao mundo e tornar a erguer essa bandeira.

Era uma devota profunda e uma defensora acérrima dos direitos humanos e do seu integral cumprimento.

O que não é fácil, atendendo a todas essas condicionantes que referiu.

Não era, exatamente porque ela foi violentamente perseguida pela PIDE. A PIDE fazia relatórios minuciosos, exaustivos de toda a sua vida: sondava-lhe a casa, os lugares onde ia, de norte a sul, violava-lhe a correspondência, proibiu a circulação de oito livros. E mesmo assim, ela não parou e não se calou. Toda a morte da voz que lhe ditaram teve uma consequência exatamente inversa.


Amplificou-a?
Exatamente. E catapultou-a para um postulado ao nível da humanidade.


Já se descobriu tudo sobre a Natália Correia ou ainda há aspetos novos?
Ainda há. Há uma obra inédita colossal, muito profunda, muito extensa, e que nos dá a conhecer um pensamento muito importante, ao nível de um Eduardo Lourenço, de um Agostinho da Silva. Aliás, a Câmara Municipal de Ponta Delgada, através do seu presidente, já manifestou todo o interesse em publicar esses inéditos, que relevam o quanto ela estudava. Porque a Natália revirou todos os tempos da História, estudou todas as correntes estéticas e de pensamento, todos os períodos e géneros literários, para criar uma só voz, como ela dizia: “Escrever é causal, é a causa do Homem” e “Eu só tenho uma religião, é o Homem”.


Enquanto estudiosa de Natália Correia, que aspeto da sua vida multifacetada a fascina mais?
A irreverência, a sua capacidade de matar o medo e a forma como ela acentuava a sua coragem por cima de uma enorme fragilidade, de um enorme desencanto e de uma enorme tristeza. É preciso entender o discurso hiperbólico da Natália: todos aqueles exageros como uma forma barroca que ela encontrou de chamar a atenção para a realidade do país e do mundo.


Sente que Natália Correia, enquanto figura cultural, está a ter a projeção que merece?
Fora da Região, sim. Fora da Região, ela está a ser estudada em algumas universidades, está a ter essa projeção e inclusive pelos jovens, que estão a descobrir a sua obra e o seu pensamento. E isso é notável.


Fora da Região....e dentro?
Dentro, não. Dentro da Região, não, ainda. A nível da Universidade [dos Açores], há um livro ou outro dela que entram dentro de um programa de literatura açoriana, mas é muito pouco. Esta Universidade devia ter uma cátedra Natália Correia, à semelhança das outras universidades.

É preciso ver que a Natália Correia foi uma das grandes pensadoras da segunda metade do séc. XX, a nível europeu, a par de uma Marguerite Yourcernar, de uma Simone Beauvoir; e até ao nível do mundo, a par de uma Nadine Gordimer, de uma Doris Lessing. E se nós as lemos e as estudamos e absorvemos os seus pensamentos, como é que é possível que não o façamos com a Natália Correia?


O que estará por trás disso?
A imensidão do seu conhecimento, que amedronta, que intimida, que nos coloca no patamar da humildade que devemos ter, perante a grandeza do seu pensamento. Acho que há um interesse maior nos tiques pessoais da Natália Correia, que desvirtuam e não interessam absolutamente nada para o seu conhecimento. Temos de ler a obra da Natália, como lemos a obra de outros autores, com a mesma envergadura.


Se a Natália Correia fosse viva hoje, o que diria?
Estaria muito feliz, pois antes de morrer, telefonava incessantemente e dizia “Nunca mais vejo o dia de chegar à minha terra para falarem da minha obra”. Era da obra que ela gostava que falassem e é sobre a obra que importa falar, quando se estuda um autor.

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