“Heróis do mar. É assim que começa o nosso hino nacional”, lembrou Miguel Monjardino, presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. E foi às “heroínas e heróis do mar” que o açoriano deixou a mensagem de que “o amanhã não é longe demais”, sublinhando que “uma nação livre não deve ter medo. (...) Deve é estar prevenida e preparada”.
E, segundo o especialista em Geopolítica e Geoestratégia, não faltam razões para o fazer. “Nos próximos anos, teremos de navegar em ondas semelhantes às da Nazaré”, sustentou.
“Até 2030, viveremos tempos de urgência. A desordem e a ignorância são os nossos principais inimigos. Temos aliados na Europa, Américas, Ásia e na Oceânia com quem partilhamos valores, interesses e memórias históricas? Claro que sim. Mas, tal como Camões e os surfistas na Nazaré, dependeremos primeiro de nós. Teremos de estar atentos aos nossos aliados e adversários”, defendeu Miguel Monjardino.
O professor universitário lembrou que “os menos fortes podem não ter muitas cartas. Mas os mais fortes, também não têm todas as cartas. E, algumas vezes, esquecem-se disto”.
“Coragem é liberdade. Liberdade é coragem”, realçou, considerando que é preciso fazer a defesa do multilateralismo e de uma nova coligação de potências médias.
Segundo o académico, “um longo ciclo histórico iniciado em 1945, após o final da Segunda Guerra Mundial, chegou ao fim nos últimos anos”. “A Grande Rutura está em curso e estamos presentes na criação de um novo ciclo histórico”. “Um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer e a ser substituído por um mundo muito mais hierárquico, complexo e fragmentado”, sublinhou Monjardino.
Deste modo, o professor universitário deixa o desafio: “aceitemos que não nos compete dominar ou compreender todas as marés do mundo até 2030. Devemos é ter a capacidade de compreender atempadamente como é que as sociedades, os ecossistemas científicos e tecnológicos, as linhas de comunicação marítimas, terrestres e aeroespaciais, os centros de recursos, o sistema financeiro internacional e o poder militar estão a mudar e que impacto tudo isto terá em nós”.
“Só assim estaremos em condições de contribuir para a reinvenção da NATO e do seu pilar europeu. Só assim participaremos ativamente na União Europeia. E, finalmente, só assim poderemos fortalecer e diversificar as nossas relações pelo mundo fora”, considerou.
Para Miguel Monjardino, “este será um século marítimo” e por isso “devemos olhar para a terra novamente a partir do mar”, sendo certo que “os Açores e a Madeira continuarão a fazer a ligação entre a Europa, as Américas e África. Precisamos de ter as pessoas e os recursos para garantir a soberania nacional no território português no Atlântico”.
O presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas aproveitou a ocasião para deixar uma mensagem aos açorianos: “Estes não podem, não devem, ser tempos de divisões egoístas e míopes entre ilhas”. “Muito foi feito nos Açores e na Madeira desde 1976 para o seu desenvolvimento” e “a governação de ilhas com dimensões geográficas e demografias muito diferentes será sempre uma tarefa exigente quer ao nível político quer nos deveres da administração pública para com os seus cidadãos. Mas, nestas ilhas tão devotas à irmandade do Espírito Santo, nenhuma pode ficar esquecida”, sustentou.n
Monjardino diz que “uma nação livre não deve ter medo”
Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas deste ano lembrou que nestes tempos de rutura Portugal tem de se preparar
Autor: Paula Gouveia
