Leão XIV apela à paz no noroeste anglófono dos Camarões

O Papa lançou, no segundo dia da visita aos Camarões, um apelo à paz em Bamenda, epicentro do conflito separatista anglófono que causou milhares de mortos em quase uma década, na etapa mais simbólica da viagem



Chegado num papamóvel com vidros blindados e sob escolta militar, Leão XIV abençoou a multidão que o recebeu num ambiente de alegria, entre cânticos, buzinas, apitos, percussão, bandeiras dos Camarões e do Vaticano e trajes tradicionais coloridos com a sua efígie.

"Vamos servir a paz juntos", apelou o líder da Igreja Católica na catedral de São José de Bamenda, "terra ensanguentada, mas fértil, terra ultrajada, mas rica em vegetação e generosa em frutos".

"Aqueles que despojam a vossa terra de recursos investem geralmente grande parte dos lucros em armas, numa espiral de morte sem fim", denunciou o Papa perante os fiéis.

"Fingem fechar os olhos ao facto de que são necessários milhares de milhões de dólares para matar e devastar, mas que não se encontram os recursos necessários para curar, educar e reconstruir", afirmou Leão XIV.

Ainda na Catedral, o Papa elogiou o movimento pela paz e manifestou-se contra permitir que a religião se intrometa nos conflitos.

"Bem-aventurados os pacificadores!", disse.

Na véspera, o Papa apelou a que se rompesse as correntes da corrupção, ao respeito pelos direitos humanos e ao Estado de direito.

Desde esta manhã, o dispositivo de segurança foi reforçado nas principais artérias da cidade.

Na sequência de manifestações pacíficas violentamente reprimidas, surgiu no final de 2016 um conflito que opõe o Governo de Yaoundé aos independentistas da minoria anglófona do país, que proclamaram a República da Ambazonia.

Tanto os separatistas como as forças de segurança são regularmente acusados de abusos.

Presos num impasse, principalmente na região noroeste, onde os grupos armados são mais ativos, os civis tornaram-se alvo de assassínios, extorsões e sequestros para obtenção de resgate.

Pelo menos 6.000 morreram desde 2016, segundo a ONU.

Na segunda-feira, alguns grupos armados anunciaram uma trégua de três dias nas duas regiões anglófonas, onde vive cerca de 20% da população, para permitir receber o Papa em segurança.

Os separatistas também depositam grandes esperanças nesta visita.

O grupo Unity Warriors of Ambazonia explicou à agência de notícias France-Presse (AFP) que espera que o Papa exorte o Governo a retomar as negociações "onde as raízes do conflito possam ser discutidas".

Neste país da África Central, onde cerca de 37% dos cerca de 30 milhões de habitantes são católicos, a Igreja desempenha um papel de mediação e gere uma vasta rede de hospitais, escolas e obras de caridade — uma alavanca de influência que a Santa Sé deseja consolidar.

"Falámos com ambas as partes e pensamos que chegou o momento de elas agirem e encetarem esse diálogo", declarou Andrew Fuanya Nkea, arcebispo de Bamenda, conhecido por ser próximo de Leão XIV.

Os separatistas solicitaram, nomeadamente através do seu advogado, "o estabelecimento de um diálogo sob a égide do Vaticano que permita debater as causas profundas do conflito, com a participação da ONU, única via credível para a paz".

Devido à violência associada a este conflito, mais de 330.000 pessoas foram deslocadas no interior dos Camarões em 2025 e mais de 100.000 outras refugiaram-se na vizinha Nigéria, segundo a ONU.

Antes de chegar aos Camarões, o Papa norte-americano realizou uma visita histórica à Argélia, parcialmente ofuscada por um duplo atentado suicida a cerca de 40 quilómetros de Argel e pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, que o acusou, nomeadamente, de ser "um zero na política externa".

No sábado, o líder dos 1,4 mil milhões de católicos segue para Angola, onde estará até dia 21, para a terceira etapa da sua viagem, que termina na próxima semana, dia 23 de abril, na Guiné Equatorial.


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Alerta a CGTP-IN Açores, que está também preocupada com as regressões no mercado de trabalho e com o aumento de lucros que não se traduzem na subida de salários. E receia um aumento do desemprego na sequência da crise desencadeada com a Guerra no Irão