Açoriano Oriental
Incêndio
Investigador alerta para comportamento cada vez mais intenso do fogo

O investigador na área da proteção civil Duarte Caldeira alertou para um novo comportamento dos incêndios florestais, que este ano têm uma “progressão aceleradíssima” e “uma grande intensidade”, por vezes impossíveis de combater.

Investigador alerta para comportamento cada vez mais intenso do fogo

Autor: Lusa/AO Online

“Analisando com detalhes e cruzando informações, nomeadamente dos incêndios que têm estado a ocorrer em Espanha, há um dado que seguramente deve fazer refletir todos aqueles que estudam esta matéria, que é a progressão aceleradíssima das frentes de fogo e depois, por outro lado, a intensidade e a energia que é criada pelo próprio incêndio”, disse o presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil (CEIPC).

Duarte Caldeira, que pertenceu também ao observatório técnico independente criado pelo parlamento até 2021 para avaliar os incêndios florestais, fez à Lusa uma leitura dos fogos que se tem registado no país desde 08 de julho e que já consumiram mais de 45.000 hectares em 15 dias.

“A constatação destes últimos dias e das informações que tenho recolhido é que o fogo está a ter um novo comportamento e tem uma grande aceleração e uma grande intensidade. Esta circunstância das correntes multidirecionais geradas pelo próprio incêndio levarem a que o fogo se expandisse em múltiplas direções e dando origem a novas ignições”, descreveu, frisando que esta é “uma situação nova”.

O antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e da Escola Nacional dos Bombeiros considerou que este novo comportamento do fogo, que se espalha com muita facilidade, deve ser objeto de estudo e de análise especifica, uma vez que estes fenómenos vão ocorrer mais vezes no futuro.

Nesse sentido, o especialista defendeu que, até ao final de outubro, quando termina o período de maior incidência de incêndios florestais, deve recolher-se informação para depois ser feita uma análise multidisciplinar com operacionais, políticos, academia e cientistas.

“Estamos na presença de eventos extremos que vão continuar a suceder-se, vão passar a ser algo regular e com o qual temos que conviver. Olhemos então para o nosso sistema, tal como está configurado, e perceber se está ou não adaptado a esses desafios”, disse, ressalvando que o sistema atual nasceu num quadro diferente daquele que se está a viver atualmente.

Duarte Caldeira destacou o comportamento do dispositivo de combate a incêndios perante a intensidade do fogo e da severidade meteorológica registada, realçando “a substancial redução do numero de ignições”.

“Se tivermos em consideração a severidade e estes novos dados do comportamento do incêndio, é claro que há aqui um dado que é uma redução substancial do número de ignições e se compararmos com 2003 e 2005 em particular, dois verões dramático e onde efetivamente chegou a haver mais de 400 ignições num dia”, disse.

Duarte Caldeira afirmou que em 2003 e 2005, quando arderam mais de 400 mil e 300 mil hectares respetivamente, o sistema colapsou.

“Este ano, qualquer pessoa séria que queira abordar esta questão tem que reconhecer a dimensão da resposta”, sublinhou, considerando que “é justo reconhecer que se denota uma evolução positiva na organização, estratégia, mobilização e comunicação do dispositivo de combate”.

O presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil destacou igualmente que hoje os decisores políticos e operacionais transmitem à população “confiança e não transmitem o dramatismo e a desorientação que, muitas vezes, ao longo dos anos, transmitiam”.

Duarte Caldeira saudou também a decisão assumida em algumas fases de alguns incêndios que não havia condições de combater devido à sua intensidade, salvaguardando assim a vida dos operacionais.

O especialista criticou, por outro lado, que os relatórios oficiais nos últimos dois anos tenham “subvalorizado a redução da área ardida como se estivesse na presença de alguma coisa que fosse estrutural e que fosse para manter”.

“É tempo de acabar com o campeonato das áreas ardidas, que é uma forma de não olhar para este problema com a racionalidade que exige pela sua dimensão e importância para o país. Não é uma questão de mais 10, 20 ou 100 hectares, isso é enganar efetivamente a realidade objetiva da situação, é simplesmente perceber que, da mesma forma que tivemos 20.000 hectares no ano passado, em condições concretas como foram aquelas, temos hoje, perante condições meteorológicas radicalmente diferentes, 58.000”, concluiu.


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