Insetos com milhões de anos e que ‘valem’ milhões de euros

Seis insetos que só existem nos Açores compõem a exposição “Açorianos há milhões de anos” cujas telas gigantes podem ser vistas na Lagoa. De aspeto assustador, os insetos desempenham um papel no equilíbrio da natureza que custaria milhões de euros, se fosse feito por humanos



Só existem nos Açores e estão cá há milhões de anos, muito antes dos seres humanos. Desempenham um papel importante na decomposição, no controlo das pragas, na polinização e na própria arquitetura da paisagem. Podem parecer bichos repelentes, mas na verdade são seres vivos que desempenham funções que custariam milhões de euros à economia, se tivessem de ser feitas por humanos.

Imagine-se o que seria da agricultura e da alimentação humana, se tivéssemos de polinizar, com as nossas mãos, todas as plantas de cujos frutos beneficiamos?

A exposição “Açorianos há milhões de anos” é composta por telas de grande dimensão expostas em locais estratégicos das ruas da cidade da Lagoa. As telas chamam a atenção pela ampliação e pormenorização das fotografias dos insetos, o que transmite uma falsa sensação de monstruosidade, na medida em que estamos a falar de pequenos insetos com milímetros de comprimento. As telas - cujas fotografias ilustram esta reportagem - incluem pequenas descrições dos insetos e a todos eles foi atribuído um cognome baseado nos Reis que fizeram parte da História de Portugal.

As imagens têm também um selo que alerta para o risco de desaparecimento destas espécies endémicas, que têm vindo ao longo dos séculos a perder grande parte do seu habitat natural, por efeito da ação humana. Estes insetos endémicos vivem na floresta nativa dos Açores, restando apenas cerca de 2,5% do habitat original das ilhas, antes do povoamento.

Mas quem são, afinal, os insetos nativos dos Açores, ‘heróis’ desta exposição?

São eles a borboleta-castanha-dos-Açores; o escaravelho/gorgulho (Drouetius borgesi borgesi); o neuróptero (Hemerobius azoricus); a traça (Ascotis fortunata azorica); o peixinho-de-prata das árvores e o escaravelho cavernícola (Trechus terceiranus).

A borboleta-castanha-dos-Açores ocorre apenas nas zonas altas das ilhas do Grupo Central, com exceção da Graciosa. Tem uma função polinizadora e o seu cognome ‘A Desejada’ vem do Rei D. Sebastião.

O gorgulho é uma subespécie endémica da ilha Terceira, ocorrendo apenas nas zonas altas da floresta nativa da ilha. Os adultos comem durante a noite folhas e pequenos ramos, contribuindo para a arquitetura das árvores da florestas nativa. O cognome ‘O Artista’ vem do Rei D. Fernando II.

O neuróptero (Hemerobius azoricus) é um inseto predador que vive nas árvores endémicas das florestas nativas de oito ilhas, com exceção do Corvo. Este inseto contribui para a regulação das populações de outras espécies, controlando as pragas. O cognome “O Justiceiro” vem do Rei D. Pedro I.

A traça (Ascotis fortunata azorica) é uma subespécie endémica dos Açores, que existe nas nove ilhas. Esta traça é um polinizador noturno, que pela sua beleza teve o cognome ‘A Formosa’, que vem do Rei D. Fernando I.

O peixinho-de-prata das árvores é um inseto comum nos troncos das árvores endémicas dos Açores, com exceção do Grupo Ocidental. Confunde-se facilmente com a madeira e é uma espécie decompositora, desempenhando um importante papel na reciclagem. O seu cognome ‘O Restaurador’ vem do Rei D. João IV.

Por fim, o escaravelho cavernícola existe apenas na ilha Terceira, com destaque para o Algar do Carvão, sendo um predador de topo perfeitamente adaptado ao ambiente inóspito e com pouco alimento das grutas. O cognome ‘O Bravo’ vem do Rei D. Afonso IV.

Divulgada em São Miguel pelo Expolab - Centro Ciência Viva , na cidade da Lagoa, a exposição “Açorianos há milhões de anos” é, no entanto, uma iniciativa do Grupo da Biodiversidade dos Açores e da Universidade dos Açores. A exposição foi concebida por Ana Moura Arroz, Rita São Marcos, Isabel R. Amorim, Rosalina Gabriel e Paulo A. V. Borges, sendo as macrofotografias que lhe servem de base da autoria de Javier Torrent, num delicado processo de montagem que demorou cerca de dois meses.
Está previsto que a exposição “Açorianos há milhões de anos” dure até ao fim do mês de outubro.

Conforme explica em declarações ao Açoriano Oriental a coordenadora do Expolab, Susana Cabral, o objetivo desta exposição é o de comunicar à população “a importância destes organismos que cá existem muito antes de nós e que, como tal, também devem ser considerados como património que deve ser conservado. Mas para o conservarmos, também precisamos de o conhecer, desde logo pelos serviços ecossistémicos que estes insetos prestam”.

Apesar das limitações de concentração de pessoas impostas pela pandemia de Covid-19, o Expolab tem desenvolvido atividades relacionadas com esta exposição.
Susana Cabral salienta que a ideia geral que a população tem sobre os insetos é a de que “eles são horríveis, pelo que a exposição procura desmistificar esta ideia e procura que a população olhe com maior atenção para eles, por via do serviço que eles prestam e, por exemplo, quando pensamos que em poucas semanas o planeta ficaria sem alimento se não houvesse polinizadores”.

Mas não foi só nas atividades relacionadas com a exposição “Açorianos há milhões de anos” que o Expolab viu a sua atividade condicionada nos últimos seis meses.
Todas as restantes atividades sofreram importantes alterações, na medida em que esta instituição relacionada com a divulgação científica realiza muitos trabalhos com escolas e com ATLs, cujas atividades ficaram bastante limitadas, quer no número máximo de participantes, quer nos horários das visitas.

“Estamos a tentar reajustar o nosso plano de atividades, de forma a conseguirmos desempenhar a nossa missão, o que pode passar pelo desenvolvimento de mais ações nas escolas, possibilitando assim às escolas que não se conseguirem deslocar ao centro também o contacto com com as atividades desenvolvidas pelo Expolab”, explica Susana Cabral.

O Expolab irá também acolher, já a partir do próximo dia 20 de setembro, uma nova exposição intitulada “Porque somos como somos?”, que resulta do trabalho de um consórcio de Centros Ciência Viva, liderado pelo Centro Ciência Viva de Estremoz, no Alentejo.

Conforme explica Susana Cabral, esta exposição “fala da evolução, desde o ancestral comum até à grande biodiversidade, numa perspetiva que não é só a da biologia, mas sim uma perspetiva mais abrangente, procurando mostrar como várias áreas do saber estão interligadas”.

A exposição “Porque somos como somos?” tem também a particularidade de inaugurar no dia em que o Expolab completa 11 anos de atividade.

PUB