A FLAD está a assinalar 40 anos e, nas suas palavras, “mais do que um contributo ao passado, pretende fazer desta data um compromisso com o futuro”. De que modo irá fazê-lo?
Em primeiro lugar, fazê-lo é condição de partida, respeitando aquilo que a FLAD hoje representa. (…) A FLAD é uma instituição que tem mérito no trabalho que fez e a simpatia da comunidade, e tem uma posição quase única de reconhecimento, credibilidade e aceitabilidade pela comunidade. Essa é a condição de partida do trabalho que fizemos – a de garantir que entregamos este facho imaterial de credibilidade e posição da FLAD intacto. O limite das nossas ações tem de ser sempre o eventual prejuízo desta posição que a FLAD construiu ao longo dos anos.
Se queremos olhar para o futuro, aqui, como em qualquer outra casa, a primeira coisa que temos de fazer é olhar para nós próprios e preparar hoje esse futuro. E isso acontece em coisas tão simbólicas quanto o facto de uma fundação que viveu 40 anos de porta fechada, passar a viver com a porta aberta, para se abrir à comunidade. É simbólico mas é importante. Durante 40 anos nunca teve uma agenda, o que limitou desta forma a comunicação com a comunidade. Destas formas simbólicas procura abrir-se mais à comunidade, ser mais orientada para o utilizador da fundação do que para a própria fundação. Esse virar para o cliente que é toda a comunidade é uma primeira preocupação.
É também preocupação nesta reorganização ou preparação para o futuro – eu chamo-lhe FLAD 2030 – fazermos algum update na instituição, então vamos fazê-lo, e assim ganharemos aqui uma posição distintiva, preparando não os desafios de hoje, mas os desafios que até ao fim da década somos capazes de antecipar. Portanto, se vamos mexer no hardware e no software da instituição, vamos fazê-lo olhando para a frente, num compromisso com o futuro, e procurar não atualizar a FLAD para o ano de 2025, mas posicionar já a FLAD para o ano 30, antecipando hoje e mudando hoje o que parecem ser as direções importantes de um tempo de mudança de comunicação global, de inteligência artificial... E, depois, alargando as suas áreas preferenciais de atuação, quando pensamos introduzir o Desporto como sendo uma das áreas em que a FLAD privilegia a sua intervenção, ao lado da Cultura, da Ciência e Tecnologia. Nesta área, Portugal pode também beneficiar da sua relação com os Estados Unidos, quando vemos atletas a procurar os EUA que têm condições de treino e de preparação de atletas únicas. (…)
Na Cultura, parece-nos importante que a FLAD volte a ter música. A FLAD em tempos idos teve uma intervenção cultural na área da Música, o que se deveu a alguns homens extraordinários que por exata casa passaram, mas com o tempo desapareceu. A FLAD não tem música, está silenciosa, e isso não faz sentido. Temos de avançar aí, como procuraremos avançar na valorização de um património – esse físico – que é a coleção da FLAD, e que não é manifestamente suficientemente conhecida, como devia ser, e reconhecida pela comunidade. Portanto, temos de mexer neste património, completá-lo onde seja necessário. Dou o exemplo da autonomização do Núcleo de Fotografia que até aqui apareceu um pouco indistintamente dentro da coleção - queremos autonomizá-lo, valorizá-lo, completá-lo também.
Em todas as áreas está a ser feita uma reorganização que começámos por celebrar nos 40 anos. Estes 40 anos apontam muitas destas direções. Desde logo, e à cabeça, o apontar o Mar como desígnio que assumimos para os próximos cinco anos. Porque é a nossa fronteira, a fronteira entre Portugal e os EUA é o oceano Atlântico e de importância crescida, porque é no meio desta fronteira que está o arquipélago dos Açores. É para aqui que queremos olhar.
Em relação aos Açores, a FLAD assume que é “uma prioridade transversal a todos os seus pilares de atuação”. De que modo é que isto é posto em prática?
De maneiras diferentes. Não apresentei ainda o Plano Estratégico para os cinco anos. Só a partir de novembro é que foi completada a administração e, portanto, há alguns pontos que guardo para esse plano estratégico. Mas, desde já, em primeiro lugar nos dois momentos que criámos neste programa de celebração dos 40 anos nos Açores – primeiro em São Miguel, e mais tarde na Terceira, em Angra e na própria Base das Lajes.
No primeiro caso, fazendo algo que acredito possa ser o começo – eu acredito muito nos começos e acredito que é tempo de redes, não é um tempo de estruturas verticais e compartimentadas. Tendo isso presente, e tendo presente que das mais de 50 geminações com cidades dos EUA, 38 são com cidades dos Açores. E parece-me que existe aí, talvez, uma ponta de novelo que valha a pena puxar, como princípio de caminho. Vamos juntar nos Açores elementos destas 38 cidades portuguesas e 38 cidades norte-americanas, para numa relação one-to-one, de contacto individual e direcionado, criar rede, a mesma rede que se lançou já há uns anos para os Legisladores Lusodescendentes, esta é outra dimensão em que podemos também ser impulsionadores de rede, uma rede de cidades norte-americanas geminadas. Os primeiros parceiros que devemos procurar para contactar, dialogar nos EUA – uma rede que permita acompanhar mais de perto as comunidades lusodescendentes - essa é uma preocupação que procuramos atingir neste Sister Cities Summit – identificação, comunicação e o apoio às comunidades lusodescendentes. Esta conferência terá lugar em São Miguel e é uma realidade nova porque não me parece que se tenha feito nada desta dimensão, e, na minha opinião, um princípio de caminho que caberá aos próprios desenvolvê-lo. A FLAD é o arco que lança e ajuda a flecha a ganhar força e tensão, mas quando a flecha vai, vai. A FLAD deve ser arco.
Nas Lajes vamos fazer uma abordagem muito diferente e que tem a ver com a própria base, e com uma escritora portuguesa, professora nos Açores, diretora regional e que é autora de um livro onde faz a recolha das histórias ignoradas ou menos faladas da Base das Lajes, como por exemplo o concerto de Frank Sinatra em exclusivo num pequeno espaço da Base das Lajes, ou a passagem de Marilyn Monroe. (…) Também com a apresentação de uma exposição de fotografia dentro da linha de trabalho que há pouco referi, na própria Base das Lajes.
Na conferência, contaremos como Keynote Speaker com o Dr. Durão Barroso, pelo conhecimento da realidade norte-americana, pela sua capacidade de análise geoestratégica global, como poucos ele tem. Quem melhor que ele para apontar direções. (…)
Falou de criar redes. A FLAD há algum tempo que organiza também um encontro de legisladores de ascendência portuguesa e vai voltar a fazê-lo. Há algum resultado prático destas reuniões que a FLAD promove?
Há. É o resultado da comunicação que passou a existir entre muitos deles. E isso acontece e dessa comunicação é evidente que vão resultando, a nível estadual e mais do que a nível federal, resultados concretos na defesa de posições, na assunção de posições comuns, na defesa da mesma ideia em matérias diferentes – e uma rede que pode e, de alguma forma já foi ativada ou auto ativada, quando algumas questões se colocam, sejam as questões mais políticas, como se o consulado dos Açores continua ou não, ou até questões mais de índole normativa como sejam as relativas à situação de não-americanos nos EUA. Portanto, sim, tem resultado prático. Primeiro, o conhecimento da comunicação livre e individual entre eles. Segundo, o de um acerto e coincidência de posições a nível estadual em determinadas matérias. E é evidentemente uma rede que devemos olhar como uma rede de segurança que também pode e deve ser ativada pelos interesses sérios das comunidades lusodescendentes. É uma rede de segurança de emergência quase, para defesa das comunidades lusodescendentes. Tem resultados práticos e dá-nos uma garantia de termos hoje, que não tínhamos, uma rede de segurança, de emergência que poderemos acionar. (…) São personalidades influentes e que têm a capacidade de fazer ouvir opiniões, de expressar posições e provocar decisões. Portanto, sim, acho que tem já um enorme resultado prático. (…) A portugalidade não é vista como um deflator de problemas ou até mesmo ou é um elemento muito positivo de construção do percurso norte-americano e na ligação que mantêm a Portugal.
As comunidades portuguesas nos EUA – haverá casos pontuais, marginais, mas não têm problemas de integração, têm quanto muito o problema inverso que o problema de uma integração bem sucedida de mais que esmorece as ligações a Portugal, e as segundas e as terceiras gerações já não sentem essa ligação e esse apelo.
Portanto, o nosso trabalho é muitas vezes apontado para isto – defender essa ligação. Passá-la às segundas e terceiras gerações, resultado de uma comunidade bem integrada de mais e vista como positiva pela comunidade norte-americana.
A FLAD vai também aliar-se à celebração dos 230 anos do Consulado dos EUA em Ponta Delgada, nos Açores. Acredita que este não será um dos alvos dos cortes da administração norte-americana?
A resposta que lhe posso dar não é uma questão de profissão de fé. É um bocadinho uma questão de ler os astros, porque não sabemos. Temos indicação que terão surgido nalguns documentos preparatórios da equipa que acompanha Elon Musk nessa reforma, o Consulado dos Açores como integrando a lista de consulados a encerrar. E devo dizer que se alguém olhar para a dimensão, para a racionalidade económica, para a justificação, pelo número de envolvidos de cidadãos norte-americanos, até percebo que numa lógica meramente economicista possa não fazer sentido a manutenção do consulado. Agora, é muito mais do que isso. É um elemento de contacto importante para os lusodescendentes na circulação EUA-Portugal, e dos açorianos para os EUA; tem esse património histórico de ser o consulado mais antigo dos EUA ainda em funções. Temos muitos cônsules nos Açores, mas são honorários. O único que é de carreira e que tem capacidade de intervenção, enquanto estrutura diplomática, é o norte-americano. (…) [O evento] foi pensado muito antes de ser pública qualquer ideia de possível encerramento. Nós vamos com certeza marcar estes 230 anos. E com isso fazer um alerta para a importância não económica (no sentido de racionalidade económica direta) para a continuação do Consulado. Que seja um alerta para a importância nas diferentes dimensões, e de forma diferente para os EUA e para Portugal que este consulado tem. (…)
A cooperação bilateral entre os dois países, com esta nova postura da administração norte-americana, de que modo poderá ser afetada, e em concreto os Açores?
A FLAD não surge por causa da Base das Lajes, surge por causa da alteração das circunstâncias de alteração da relação entre Portugal e os EUA antes e depois da entrada na Comunidade Europeia. A partir de 1985 deixamos de ser qualificáveis daquilo que anteriormente aconteceu entre 1976 e 1984 – um investimento forte dos EUA na defesa e consolidação da democracia, na criação e no apoio a programas que visavam o desenvolvimento de Portugal nas mais diversas áreas. E é no âmbito desta descontinuação necessária e obrigatória de condição de adesão à CEE que surge a FLAD. E a FLAD é um pouco uma cana de pesca que é oferecida, que é colocada e criada para permitir por ventura que, nos anos subsequentes, pudesse Portugal continuar a conhecer os “peixes” que conhecia antigamente na ajuda ao desenvolvimento direto dos EUA. A FLAD é essa ferramenta que fica. Ela existe por essa razão – vamos ser historicamente corretos e não animarmos mitos que depois só nos prejudicam em termos de funcionamento. E, dito isto, a importância dos Açores e a centralidade absoluta dos Açores na relação de Portugal com os EUA não é posta em causa e a FLAD tem de ter isto presente e concretizar isso em ações, desde na área da saúde mental, ou no Atlantic Center, na investigação e relacionamento internacional com centralidade nos Açores, nas mais diferentes áreas. (…) E algumas outras que agora iniciaremos, como a rede de Sisters Cities. O reforço do Atlantic Center vejo-o como fundamental, a realização de conferências, que por uma vez queremos que aconteçam nos Açores.
A FLAD tem de ser capaz de passar das palavras aos atos, como tem feito ao longo da história, e ser capaz de desenvolver mais e novos pontos de apoio aos Açores, de direcionamento de uma preocupação com as comunidades luso-descendentes que são de origem açoriana, e vamos ver se este programa dos 40 anos serve como ponto de partida, indicador da direção em que vamos, das prioridades que temos, e da maneira prática e objetiva como pretendemos abordá-los.
E de algum modo esta postura da administração norte-americana poderá afetar a atividade da fundação?
Francamente não vejo como. A FLAD é a única fundação portuguesa criada por tratado internacional – é uma fundação muito singular, única, resultante do tratado internacional entre estes dois Estados. E funciona para aproveitar os rendimentos de um fundo que, por altura dessa descontinuação de '85, foi constituído e que é da administração dos rendimentos desse fundo que o orçamento da FLAD existe, não depende de qualquer subsídio público, nem nacional, nem internacional. É absolutamente estanque nas relações financeiras com o Estado, ou receber dinheiro do Estado ou da União Europeia – não, a FLAD faz o percurso inverso, procura pôr o dinheiro que administra ao serviço desta causa. (…) Não vejo que atividade da FLAD possa ser afetada.
Mas temos de ter o bom senso de seguir com muita atenção alguns aspetos desta realidade da administração norte-americana que podem tocar interesses das comunidades de luso-descendentes. A postura da FLAD é muito simples: é verdade que vivemos um tempo mais caracterizado por isolamentos, encerramentos de pontes, destruição até de pontes. Pois, a nossa posição é muito simples: é inversa disso. (…) A FLAD tem como missão e manterá sempre a função de abrir pontes, defender pontes, manter pontes, desenvolver pontes. E é isso que vamos fazer, de uma forma ou de outra, durante estes cinco anos, e espero que continuemos a fazer sempre, porque é esse o papel da FLAD.
Miguel Monjardino afirmou recentemente que Portugal e os Açores estarão confrontados com um choque estratégico que forçará o País e as alianças estabelecidas a um processo de adaptação. De alguma forma é necessário refletir sobre como reagir e de que modo o País e a Região deve agir e direcionar a sua política e investimento para áreas cruciais?
As palavras do professor Miguel Monjardino que passou a integrar o Conselho de Curadores da FLAD acompanham-nos. Acho que o que ele diz é como é e como será. Também acho que não nos cabe a nós – não devemos fazê-lo – procurar ser os reatores, os decisores de quais são as formas como o País se deve adaptar ou como se deve reagir. (...)Tudo o que contribuir para o debate e reflexão, sempre. (…) Mas não nos cabe a nós assumi-lo ou deixaremos de construir pontes e ficaríamos prejudicados nesse caminho. (…)
Temos as mesmas preocupações que tem o mundo inteiro: esta alteração que os EUA conscientemente introduziram e provocaram na ordem estabelecida – digamos assim – em termos internacionais, e com todo o direito de o fazer, apanha as ondas concêntricas ou discêntricas destas alterações ainda não as percebemos completamente sequer, quanto mais antecipar as suas consequências e os seus efeitos. Agora que vão ter efeitos, vão. E vão ter efeitos como um todo, e vai-se fazer sentir não é só do ponto de vista diplomático e institucional... não, é do ponto de vista das populações. Todas estas alterações vão ter um custo e vamos pagá-lo por igual todos, no mundo. (…) Não somos um País à parte e podem avizinhar-se tempos de dificuldade porque todo o processo de transformação normalmente tem um custo – o custo da mudança. (...)
FLAD organiza conferência de cidades geminadas para incentivar criação de rede
O Açoriano Oriental republica a entrevista que Morais Sarmento concedeu enquanto Presidente da FLAD - Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, em maio de 2025
Autor: Paula Gouveia
