“As pessoas colocarem um bocadinho da sua vida no nosso coração, enriquece-nos espiritualmente”

Padre Adriano Borges. Cresceu numa família unida e teve uma infância feliz. Entrou no seminário com 10 anos e foi ordenado padre em 2000, porque optou por esperar pelos irmãos. Todas as suas experiências deram-lhe uma visão ampla da Igreja e da realidade humana, em especial no contacto com a fé e a esperança das pessoas




Nascido na Ribeirinha, concelho da Ribeira Grande, Padre Adriano Borges cresceu numa família com nove irmãos “quase em escadinha”. “Dos rapazes sou o mais velho - sou mais velho que os gémeos dez meses - mas tenho três irmãs mais velhas”, conta-nos. A infância, recorda, foi vivida com simplicidade, mas sem carências essenciais. O pai era o único sustento da família, trabalhando na fábrica de laticínios - “era condutor da Lacto Açoriana”, enquanto a mãe se dedicava à casa e à educação dos filhos. “Uma grande mãe, uma grande mulher”, descreve, para sublinhar que “tivemos uma infância muito bonita com as dificuldades que tínhamos de viver”.

A escola primária surge como um dos primeiros grandes marcos da sua vida. Conta-nos que teve uma professora exigente, e “hoje, tenho a certeza absoluta que foi um pilar importantíssimo para a minha formação futura”, acrescentando que “a exigência dela era tão grande que a escola era das nove às três e ficávamos até de noite. As tardes de verão eram passadas na casa dela, debaixo de uma latada, também a estudar”, o que lhe deixava um “bocadinho aborrecido, porque queria ir brincar com os meus irmãos, queria ir ao porto de Santa Iria tomar banho”, refere com boa disposição.

Naquela altura, a Igreja fazia parte do quotidiano das famílias da Ribeirinha e, “tínhamos uma excelente relação com o nosso pároco, o padre Artur Pacheco Agostinho. Ele batizou os meus pais, casou os meus pais”, disse, para sublinhar que as “pessoas tinham muita confiança nele, porque ele era um homem bom”.

Longe de um chamamento como muitas vezes se imagina, para o Padre Adriano Borges, o gosto de seguir o sacerdócio ocorreu porque um colega de escola manifestou a intenção de ir para o seminário, e isso despertou-lhe a curiosidade. Ora, quando contou aos pais, “a minha mãe ficou assim um bocadinho... sem saber bem o que é que isso implicaria, depois falou com o meu pai que não se mostrou, no início, muito convencido - provavelmente teria sonhado para mim um outro tipo de vida - mas a minha mãe falou com o padre, ele chamou o meu pai, não sei que conversa é que tiveram, mas o meu pai chegou a casa e disse à minha mãe para começar a preparar as coisas para eu ir para o seminário”. 

Tinha 10 anos quando veio para o seminário em Ponta Delgada, como nos recorda: “Em outubro de 1984, sozinho com a minha mãe e uma mala muito grande, viemos na camioneta para Ponta Delgada. Para mim foi entrar num mundo completamente diferente. No princípio, estranha-se um bocadinho, porque não é o nosso ambiente familiar, temos que pensar um pouco como adultos, com regras e horários muito apertados. Era regime de internado, mas saíamos (...)”. Diz que foram anos muito bons, porque no ano a seguir, “vieram os meus irmãos. Somos os nove muito amigos, somos uma família muito unida, mas naturalmente, eu e os gémeos, por termos seguido a mesma vida - cada um com as suas ideias e com as suas crises, porque isso é assim mesmo - ligou-nos muito (…)”. 

Prossegue os estudos em Angra do Heroísmo e após concluir o ensino secundário, ingressa no curso de Teologia, completando seis anos de formação. Foi ordenado padre em 2000 porque optou por esperar um ano pelos irmãos. Durante esse período, foi para Santa Maria, onde inicia funções pastorais ainda como diácono. A passagem por esta ilha é recordada com carinho, destacando a união da população em torno da recuperação de igrejas. 

Em 2004, o Bispo D. António de Sousa Braga, convida-o para estudar Direito Canónico, mas declina. Em 2006, o Bispo volta a fazer-lhe um convite, desta vez aceita por ser em História da Igreja, e foi para Roma. “Foi talvez a maior experiência que tive”, refere. Em Roma, “fiz um bacharelato em Património, Bens Culturais da Igreja, fiz a licenciatura em História da Igreja, que no total deu um Mestrado em História e Bens Culturais”, num percurso que incluiu visitas regulares a locais de valor histórico e artístico. “Era uma aprendizagem constante, dentro e fora da sala de aula”, recorda. O contacto com colegas de diferentes culturas e realidades contribuiu para uma visão mais ampla da Igreja e do mundo.

Regressa aos Açores em 2009, assumindo funções no Seminário em Angra do Heroísmo, onde passa a lecionar. Paralelamente, desempenha funções pastorais e, posteriormente, administrativas, sendo nomeado Ecónomo da Diocese. Durante este período, percorre várias ilhas, adquirindo um conhecimento mais amplo da realidade açoriana.

“Por todos os lugares por onde passei tenho excelentes memórias”, diz, recordando que o convite que recebeu em 2016, para assumir as funções de Reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, veio “com redobrada alegria” explicando que “conheci uma outra faceta, aliás, foi em dois momentos. O primeiro, na Terceira, pertencia a uma comissão de festas do Espírito Santo, em São Carlos e, uma das coisas que me enriqueceu espiritualmente foi ir à casa das pessoas e ver a alegria quando a Coroa chegava e a tristeza quando íamos buscá-la”. O segundo momento foi quando chega a São Miguel, “(…) de Santa Maria ao Corvo todos são devotos do Senhor Santo Cristo, também do continente, e. claro, os nossos emigrantes”. “Muitas pessoas deslocam-se ao Santuário para pôr um bocadinho da sua vida no nosso coração, as suas dificuldades, as suas dores, o seu sofrimento. Isso enriquece-nos espiritualmente e dá-nos uma humildade muito grande, porque sentimos que não somos nada perante esses problemas... Torna-nos mais pequeninos e dá-nos uma outra perspetiva da dor humana”. Mas não quer isso dizer que o Santuário “seja um lugar de sofrimento. Muita gente vai lá dar graças, como as mães que antes de darem à luz vão ao Santuário, e depois do bebé nascer, o primeiro lugar que vão é lá (...)”.

Atualmente está na paróquia da Matriz, onde vive uma realidade distinta do Santuário, marcada por uma maior proximidade com a comunidade local. Entre celebrações, acompanhamento de doentes, apoio social e gestão paroquial, o Padre Adriano Borges identifica desafios significativos, sobretudo ao nível das infraestruturas, uma vez que o  “edifício da igreja está em baixo, com infiltrações e humidade, podendo existir um possível problema de térmitas (mas só saberemos quando levantarmos as telhas, o que faremos este verão). Depois vamos começar lá dentro, porque o chão está uma desgraça, a bancada é outro problema...”. Paralelamente, a diminuição da prática religiosa, particularmente entre os mais jovens, é uma das suas preocupações. Aponta fatores como a mudança de hábitos familiares e as atividades paralelas à escola. “Se os pais não participam, é difícil que os filhos se envolvam”, observa. Ainda assim, mantém uma visão de esperança, defendendo a necessidade de adaptação da Igreja às novas gerações, através de uma linguagem mais próxima e de uma presença mais ativa junto dos jovens.

Num mundo marcado por conflitos e incertezas, o Padre Adriano Borges deixa uma mensagem: “A paz deve ser um valor central. Um ser humano que não defenda a paz, não é ser humano”.

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