Como todos os jovens da sua geração, Abel Tavares Carreiro integrou a Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres, seguindo os passos da sua família.
“Entrei para a Irmandade há mais de 50 anos. Fazia parte da tradição da família”, conta.
O antigo membro da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres guarda com saudade o momento, vivido todos os anos, em que o seu olhar se cruzava com o do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
“Quando nós vimos a imagem a sair da igreja, sentimos uma espécie de nó aqui na garganta. É a fé que a gente tem no Senhor Santo Cristo. E foi isso que justificou a minha continuidade nas festas”, diz.
Enquanto pôde, levou o andor da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Suportar o seu peso durante a procissão nunca foi para si um sacrifício. Pelo contrário, era uma missão que o honrava e que só deixou de cumprir depois de um acidente, em 1998, que afetou a sua mobilidade.
“O peso era dividido por oito pessoas. Deviam ser uns quarenta quilos por pessoa. E eu levei o andor na frente e nos lados. Tínhamos de avançar sempre com o pé direito, senão o andor balançava muito, e era perigoso”, explica, acrescentando que há um irmão que segue ao lado de quem leva o andor, para ir dando orientações que são seguidas à risca.
Recorda uma história para a qual não encontra uma explicação. “Houve um ano em que choveu muito. Por volta da rua Marquês da Praia, começou a chover. E a imagem chegou sequinha ao adro da igreja. São coisas que a gente não sabe explicar”, admite Abel Tavares Carreiro.
Também sempre colaborou no bazar. Recorda-se dos tempos em que ainda se vendiam as rifas avulso, uma a uma, por uns centavos.
E na sua memória está ainda o ano, já depois do 25 de Abril de 1974, em que a Irmandade passou a convidar pessoas da Junta de Freguesia: “cada freguesia tinha um grupo de pessoas que levava o andor numa parte do trajeto. A Irmandade levava do adro da Igreja ao Largo da Matriz, salvo erro. Depois avançavam as freguesias até ao Canto da Zenite, junto ao Jardim Sena de Freitas, e a partir daí, a Irmandade pegava no andor e levava até ao adro”, recorda.
Apesar dos tempos mais atribulados que se seguiram à Revolução dos Cravos, Abel Tavares Carreiro assegura que “houve sempre respeito pelas Festas do Senhor Santo Cristo”.
Desde 1998 já não pode viver as festividades do mesmo modo. Mas não perderam significado para si.
“É uma festa única para mim”, revela.
Vai seguir os momentos altos pela televisão, como habitualmente, mas este ano conta ir ao Campo na segunda ou terça-feira.
“Aquela imagem do Senhor Santo Cristo entra na gente. Não há palavras para explicar o que é que a gente sente. Ele toca aqui dentro”, diz, apontando para o coração.
