Angra como “capital universal do culto do Espírito Santo”

Coloridos, ornamentados e sempre diferentes entre si, os Impérios do Espírito Santo são uma das construções que mais marcam quem passa pela ilha Terceira. Mas porque é que surgiram nos Açores e não noutros lugares onde também existia o culto do Espírito Santo?




É a essa questão e a tantas outras que o arquiteto e historiador João Campos procura responder no livro Ilha Terceira - Arquitectura dos Impérios do Espírito Santo, depois de décadas dedicadas à investigação sobre um património que, para si, considera único.

Para começar, influências vindas do Oriente
Um dos pontos apresentados pelo autor tem a ver com a influência que os contactos entre Portugal e o Oriente tiveram na forma como os impérios foram concebidos.
João Campos explica que a exuberância das formas, a riqueza da decoração e o uso de cores aparecem na arquitetura portuguesa depois dos contactos marítimos com os territórios orientais. E essas influências acabaram por se estender aos impérios do Espírito Santo.
No entanto, essa relação só diz respeito à arquitetura, não ao culto religioso em si.

Angra será mesmo a capital dos impérios?
O culto do Espírito Santo acontece desde o século XII e teve uma presença muito grande em várias regiões da Europa e também de Portugal continental, mas os impérios enquanto material, enquanto edifícios próprios para este culto, nasceram apenas nos Açores.
Para o investigador, isso é resultado da história do arquipélago:  pelas populações que chegavam de vários lugares e pelas influências culturais e religiosas que dessas ligações advinham. João Campos sublinha que “é uma criação exclusivamente açoriana”.
No levantamento que foi feito para o livro, o investigador inventariou 72 impérios na ilha Terceira. Este número, segundo João Campos, representa praticamente metade dos impérios que existem, inclusive os que estão construídos fora dos Açores.
Para o historiador, a concentração única deste património em Angra do Heroísmo dá à cidade um papel central na preservação desta herança cultural.
Por isso, João Campos dá uso à sua “liberdade” e atribui à cidade um título simbólico: o de “capital universal do culto ao Espírito Santo” no século XXI. O investigador explica que considera adequada esta designação para um lugar que reúne uma grande parte dos impérios que hoje existem.
Só na cidade de Angra do Heroísmo registou 49 impérios, o que, para o investigador, torna-a numa referência no que à preservação desta tradição diz respeito.

Nenhum é igual ao outro
Todos são reconhecíveis, olha-se e sabe-se que é um império, mas conseguem ser diversos naquilo que têm em comum.
Há aqueles que são mais elaborados, outros que são mais modestos; há também os que têm cores mais discretas e outros pintados de cores vivas. E, por isso, João Campos considera esse aspeto extraordinário: “Há uma coisa excecional nos impérios, nenhum é igual ao outro”.
É a individualidade dentro de uma identidade comum que torna este património tão especial.
“A memória é o ADN
do património”
A conservação dos impérios é incontornável e o autor reconhece que o património evolui. Mas quer lembrar que algumas intervenções ou “ajustes” podem descaracterizar os edifícios.
E para João Campos, o mais importante é garantir que a memória associada a estas construções não se perca: “A memória é o ADN do património”.
Como exemplo dá o uso de vernizes e de novos produtos de conservação que alteram a imagem tradicional destas construções. Segundo o investigador, o que distingue os impérios é a riqueza das cores, que ao longo dos anos vão sendo renovadas pelas irmandades.
Estas pinturas além de “encherem as vistas”, servem também para proteger a pedra da humidade e das condições do clima atlântico, de modo a evitar a degradação da construção. E a este ponto acrescenta-se outra curiosidade, uma vez que o investigador conta que no Oriente muitos edifícios religiosos também são pintados e repintados para combater as consequências da humidade.
Contudo, o historiador reconhece que se a mudança faz parte da evolução, ainda assim a identidade deve ser preservada.

Um património para o futuro
Depois de 30 anos de investigação e de questionamentos, João Campos ainda tem dificuldade em definir o que é um império, mas tem a certeza de que são mais do que pequenas construções religiosas. São símbolos da comunidade, de partilha e de uma tradição que continua viva nas festas, nos bodos e na vida das freguesias.
“O império é uma forma de manifestar a vitalidade da cultura própria de uma comunidade”, acrescenta.
Com este livro, João Campos quer deixar registada a arquitetura dos impérios, bem como o significado cultural e espiritual que lhes deu origem e que continua a dar-lhes vida. Pois, mesmo que o tempo traga mudanças, o importante é que se preserve o conhecimento sobre aquilo que os impérios foram, representam e continuam a significar para os Açores.
A influência dos impérios atravessou também o Atlântico. Na ilha de Santa Catarina, no sul do Brasil, os açorianos levaram consigo o culto do Espírito Santo e a tradição de construir impérios, mas aconteceu o inevitável, a evolução e transformação da tradição. 

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