Açoriano Oriental
Alterações climáticas não têm impacto dramático nos Açores, mas obrigam a adaptação

O climatologista da Universidade dos Açores Eduardo Brito de Azevedo afirmou na quarta-feira que os agricultores açorianos terão de se adaptar às alterações climáticas, mas que a situação no arquipélago não é tão dramática como noutras regiões.

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Foto: Luis Pedro Silva
Autor: Lusa/AO Online

“Naturalmente, a alteração climática está a acontecer também nos Açores, mas temos uma margem de manobra e uma margem de conforto muito razoável, que nos permite enfrentar este problema global de uma forma mais tranquila e eficaz em relação às medidas a tomar, quer na mitigação, quer na adaptação”, adiantou, em declarações aos jornalistas, na Praia da Vitória, à margem do XII Congresso da Agricultura dos Açores.

Segundo Brito de Azevedo, que é coordenador do Grupo de Estudos do Clima e Mudanças Globais da Universidade dos Açores, o anticiclone dos Açores está a deslocar-se para norte, o que tem tornado o clima do arquipélago mais irregular.

Os fenómenos extremos no arquipélago, como o recente furacão “Lorenzo”, são mais frequentes e com maior intensidade, as temperaturas aumentam cerca de 0,33 graus a cada 10 anos e a precipitação está a diminuir nas zonas mais baixas.

Ainda assim, frisou, a situação não tem “efeitos tão dramáticos como noutras regiões geográficas que estão a enfrentar problemas muito graves”.

“O nosso clima não vai mudar tanto como à mesma latitude nas regiões continentais. O efeito de termorregulação do oceano permite-nos ter uma amenidade climática que nos garante algum conforto”, salientou.

A irregularidade climática é, na opinião de Eduardo Brito de Azevedo, a principal dificuldade colocada à agricultura nos Açores, mas pode ser combatida com melhor informação e com o contributo da ciência.

“Há alternativas quer a nível das culturas, quer a nível da adaptação dos animais a climas diferentes e no caso concreto dos Açores o clima não será excecionalmente diferente do que é agora. Vai ser mais seco, vamos ter temperaturas mais altas, mas há alternativas no domínio das variedades de culturas que existem para adaptar a atividade às novas circunstâncias”, salientou.

Apesar de admitir que o setor agrícola também tem de contribuir para a redução de emissões de gases com efeitos estufa, o investigador considerou que não é possível comparar o impacto da atividade agrícola com o da utilização de combustíveis fósseis.

“Como é que se pode comparar a emissão de uma indústria que retira carbono fóssil e o coloca na atmosfera com uma indústria que retira carbono da atmosfera e o volta injetar?”, questionou.

“Ninguém está a pôr em causa que a agricultura não tem pegada ecológica, tem muita, sobretudo na parte da pressão sobre os ecossistemas, agora temos de usar argumentos, em termos de opinião pública, que sejam comparáveis”, acrescentou.

Também presente no encontro, Paulo Canaveira, da Agência Portuguesa do Ambiente, disse que “não é possível reduzir as emissões [de dióxido de carbono] para zero, mas é possível reduzir significativamente as emissões da agricultura”.

A missão, sublinhou, “não é fácil”, no entanto, já existe “muita investigação”, por exemplo, sobre a alimentação dos bovinos.

“É possível ter fertilizações mais eficientes e com isso reduzir emissões relacionadas com o uso de adubos e de fertilizantes. Na área dos animais é possível manipular a alimentação que os animais utilizam para se tornar mais eficiente. É possível trabalhar o melhoramento genético dos próprios animais que utilizamos na agricultura”, apontou.

Entre as várias opções em estudo está a possibilidade de se introduzirem melhorias na composição das pastagens, garantindo uma erva que seja digerida com mais eficiência, e a criação de suplementos alimentares às rações.

“Uma das que está a dar resultados promissores, mas que ainda não está propriamente disponível comercialmente, tem a ver com a adição de algas às rações que damos aos animais e, em particular, no caso das vacas já se conseguiram resultados muito encorajadores. Claro que agora é preciso perceber qual é o efeito que isto tem na própria saúde dos animais, se é possível produzir aquelas algas em quantidade suficiente para alimentar os animais”, sustentou o investigador.

Segundo Paulo Canaveira, a população mundial está a crescer e o consumo de carne “continua a subir”, por isso, terá de haver “algum ajuste nas dietas”, mas isso “não passa necessariamente pelo vegetarianismo”.

“Teremos de favorecer os sistemas mais eficientes e com menos emissões e tentar reduzir a expressão dos mais poluentes”, salientou, alegando que “não é igual produzir bovinos estabulados na Alemanha ou produzir bovinos em pastagem nos Açores”.


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