“Território marítimo em redor dos Açores tem relevância para parceiros atlânticos”

Elise Racicot, Embaixadora do Canadá em Portugal




De que forma a cooperação entre Açores e Canadá pode ser proveitosa?
Eu acredito que temos, obviamente, laços de pessoa para pessoa, que existem de ambos os lados do oceano, e que os Açores, de uma forma muito clara, são também uma ilustração geográfica das nossas conexões. Ao longo dos últimos cinco séculos sempre existiram muitas navegações que ligaram Portugal e o Canadá, e os Açores sempre estiveram, literalmente, no meio dessa relação.
Temos uma diáspora muito forte no Canadá, que vem dos Açores, e cada vez mais canadianos interessados também em regressar para visitar os Açores, e até em alguns casos, de se estabelecerem nos Açores. Agora com voos diretos também, que ligam o Canadá diretamente com os Açores, sem ter de passar pelo continente. Acho que essa questão é uma base muito proveitosa.

De que forma o mar une os Açores ao Canadá?
Em assuntos voltados ao mar, obviamente, há uma colaboração que já existe e que pode ser ampliada, quer na área da conservação, quer na elaboração de políticas que permitam zonas marítimas protegidas. Tanto o Canadá como Portugal e os Açores têm um papel importante dentro disso.
São nações que têm um compromisso muito forte com estas questões, devido à sua geografia, obviamente, o que também as leva a trabalhar em conjunto em prol da conservação e de políticas públicas que permitam a conservação dos oceanos, bem como uma exploração responsável, tendo em vista uma economia azul do futuro. Essa também é uma área em que podemos trabalhar bastante.

A defesa desta zona do Atlântico é também alvo de preocupação?
As áreas do espaço e da defesa são outros assuntos, penso eu, em que existe uma conexão natural e cujo interesse continua a aumentar, com empresas que decidem estabelecer-se nos Açores. Empresas do Canadá, por exemplo, que se estabelecem nos Açores para terem um pé na Europa, estando o mais próximo de casa possível, de certa forma, mas estando também num lugar estratégico, onde questões com o espaço, o mar, a segurança, a defesa e as comunicações se interligam todas entre si e onde há, acredito eu, um terreno fértil para ampliar esses laços.

De que forma podem os jovens beneficiar desta relação estratégica?
Temos também a ambição de ver mais iniciativas direcionadas para os jovens, em parcerias com universidades, por exemplo. Acho realmente que estas áreas tradicionais nos ligam desde sempre, sejam as nossas populações, sejam as nossas conexões, seja o mar, a defesa, o espaço e tudo mais. Tudo isto são questões que contribuem para que haja uma aproximação de ambas as partes.

O turismo é outro fator a ser explorado?
Acredito também que temos de ver cada vez mais turismo de ambos os lados, através das conexões diretas que mencionei. Todos os anos temos números recorde de canadianos a visitar Portugal, e acredito que há potencial para que muitos deles possam descobrir ou redescobrir os Açores, que eu pessoalmente acho um paraíso, um lugar de natureza muito especial, muito lindo e que corresponde muito à visão que os canadianos têm também daquilo que é uma natureza aberta, acessível e literalmente natural, para que as pessoas possam aproveitar.
Muitos canadianos gostam disso no nosso próprio país e acabam por buscar estes fatores quando vão ao encontro de novos países, novas culturas, e os Açores realmente podem oferecer isso.

Acredita que esta relação vai continuar a ficar mais forte ao longo do tempo?
Obviamente que vejo muitas questões estratégicas que passam através do Atlântico, conectando-se de uma forma ou de outra aos Açores. O território marítimo em redor dos Açores tem uma relevância estratégica para parceiros atlânticos, como o Canadá e a União Europeia, e os Açores são, de certa forma, a zona mais próxima de nós em vários aspetos, especialmente neste momento em que estão a ocorrer grandes mudanças geoestratégicas.
Acredito que os nossos laços atlânticos têm que ser reforçados, e o Canadá e os Açores têm tudo para contribuir nesse sentido.

As empresas canadianas veem potencial nos Açores?
Sim. Existem, de facto, algumas empresas que estão já estabelecidas nos Açores, inclusivamente na área de drones e na área de segurança, bem como em outras áreas. Existem de facto empresas que estão já com presença física nos Açores.
Acho que isso é um bom sinal, é uma forma de as empresas se desenvolverem, aproveitando o ambiente dos Açores para depois entrar no mercado europeu através dessa porta.

Em que consiste o acordo realizado entre Portugal e Canadá relativamente a operações de busca e resgate?
Isso é uma ótima notícia. Já há alguns anos que estamos a trabalhar para desenvolver, e finalmente assinar, um memorando de entendimento entre o Canadá e Portugal para a realização de operações de busca e salvamento.
Obviamente, o território limite onde são realizados exercícios em comum e onde colaboramos de maneira muito próxima é nos Açores. Então, nos últimos anos, foram realizados exercícios conjuntos que contaram com a participação canadiana e com a marinha portuguesa, tendo sido o palco dessas ações os Açores.
E este acordo vem, assim, formalizar essa colaboração e fazer com que ela seja enquadrada por um instrumento que vai nos permitir de ampliar, espero eu, cada vez mais esta colaboração num momento onde há cada vez mais, não quero dizer perigo, mas ameaças e incerteza no mundo, inclusivamente nos mares e nos oceanos. Então, é importante ter esse tipo de colaboração para garantir que podemos oferecer a capacidade de fornecer esse serviço.

Existem parcerias no âmbito da economia azul?
A Coastal Explorers Field School (CEFS), organização sediada em Newfoundland and Labrador, está a explorar uma parceria, com a Escola do Mar dos Açores (EMA), a ADFMA e o Okeanos (Universidade dos Açores), centrada na sensibilização dos jovens, formação prática em áreas ligadas ao oceano, desenvolvimento de competências profissionais e monitorização ambiental marinha.
A Oceans Advance (cluster de tecnologia oceânica do Canadá Atlântico) e a CEFS encontram-se em diálogo com a EMA e o Okeanos relativamente à organização do OceansXchange Innovation Forum & Industry Connector, a realizar-se na ilha do Faial, em novembro de 2026. Esta iniciativa tem como objetivo reforçar as ligações entre o Canadá e os Açores no setor dos oceanos e poderá incluir uma delegação canadiana composta por empresas tecnológicas e organizações ligadas à economia do mar.
Existe também o Projeto Mission 2030, que é uma iniciativa proposta para o Faial, envolvendo as entidades acima referidas, que visa estabelecer a cidade da Horta como um centro de formação em ciência cidadã e de promoção da literacia e conservação dos oceanos. Os planos incluem um projeto-piloto em 2026, com a participação de estudantes da Okeanos na monitorização de espécies invasoras no Porto da Horta, bem como uma visão de longo prazo focada na monitorização ambiental marinha, envolvimento público e desenvolvimento de competências variadas.

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