Nem todos os motoristas que constam das listas de transição para a nova concessionária Vale do Ave Açores deverão manter a sua decisão de mudar de empresa. Cerca de 70 trabalhadores estão envolvidos neste processo, mas há motoristas que estão a ponderar entregar a carta de demissão e aceitar propostas de outras empresas, alerta o Sindicato dos Profissionais dos Transportes, Turismo e Outros Serviços de São Miguel e Santa Maria (STTOSSMSM).
“Já tem uma carta ou outra de demissão feita”, revela Nuno Amaral, presidente do sindicato, ao jornal Açoriano Oriental.
O dirigente explica que há muita procura por motoristas, sobretudo de empresas ligadas ao turismo e até à construção civil. Ou seja, aumenta a concorrência entre os empregadores e dá também mais margem de escolha aos trabalhadores.
Segundo Nuno Amaral, as listas de transição incluem cerca de 25 motoristas da Caetano, Raposo & Pereira, 30 da Auto Viação Micaelense e 15 da AçorGo, o que faz um total de aproximadamente 70 trabalhadores. Mas avisa que esse número pode não ser a realidade no dia 1 de setembro.
A Vale do Ave Açores refere, numa nota de imprensa, que são necessários “aproximadamente 130 colaboradores” para assegurar a operação. Pelas contas do sindicato, ainda faltam alguns, mesmo que se esteja a contar com a confirmação dos cerca de 70 motoristas que constam das listagens de transição.
“O Governo não pode assobiar para o lado”, defende Nuno Amaral. Segundo o sindicalista, as condições de trabalho pesam na decisão de muitos destes profissionais. Recorda que há motoristas que chegam a fazer jornadas de 13 horas para assegurar o serviço público e compara essa realidade com outras ofertas que existem no mercado.
“Diz-lhe assim: quer transitar para ir fazer carreiras e estar 13 horas fora de casa, sai de casa às seis da manhã e chega às oito da noite, às vezes até mais tarde. Ou prefere estar numa empresa de turismo, entrar às nove da manhã e às seis ou sete da tarde estar despachado?”, exemplifica.
Apesar de a Vale do Ave Açores oferecer um acréscimo de cerca de 80 euros mensais aos trabalhadores com mais de dez anos de casa, alterando o regime remuneratório de diuturnidades para níveis, a verdade é que mesmo assim, segundo Nuno Amaral, nem todos consideram que a mudança compensa.
Outra das preocupações tem a ver com a possibilidade de deixarem de fazer as carreiras que sempre fizeram. O dirigente diz que a empresa já explicou aos trabalhadores que os mesmos podem ser colocados em percursos diferentes dos que hoje fazem.
“Muitos não estão a dizer ‘sim’ por
uma questão de conforto”, refere. Lembra que a transição é “automática” e
consta do próprio caderno de encargos do concurso público: “Os
motoristas vão ser abrangidos, mas o processo não os protege, nem lhes
dá conforto”, afirma.
Férias estão em risco?
Além da transição, o sindicato alerta para as férias dos motoristas. A falta de profissionais levou a que as empresas atuais adiassem o gozo de férias até 31 de outubro: “Aí sim posso dizer que 90% dos que vão transitar ainda têm férias por gozar”, diz.
O sindicato diz que propôs que os trabalhadores abdicassem de dias e em contrapartida fossem recompensados financeiramente: “Nós sabemos que não é uma solução legal, mas é uma forma de aliviar o problema”, explica Nuno Amaral.
Ainda assim, diz
que até ao momento não há resposta do Governo Regional, nem da nova
empresa Vale do Ave Açores: “Não se consegue obter respostas porque
ninguém consegue assumir isso. Em causa estão vários trabalhadores que
estão a ver a sua vida a andar para trás e continuam sem saber o que vai
acontecer”, lamenta o dirigente.
