“Senti-me sempre muito ligada à ilha e com curiosidade de aprofundar mais esta relação”

Maria Ana Vasco Costa. Entre Lisboa e São Miguel, a ceramista constrói uma carreira marcada pela memória familiar e pela paisagem açoriana. Filha de um vila-franquense transformou as raízes em matéria-prima artística, criando peças que refletem a luz, o mar e a rocha vulcânica da ilha que a viu crescer, mesmo à distância




Filha de um vila-franquense, a ceramista Maria Ana Vasco Costa nasceu em Lisboa, mas possui laços familiares profundos com São Miguel, ilha que continua a inspirar os seus trabalhos artísticos.

Bisneta de João Teotónio Silveira de Moniz, conta que a avó, conhecida como Fernandinha do Carneiro, durante o período da guerra, conheceu o avô, que era de Lisboa e prestava serviço na Marinha, num dos típicos bailes de marinheiros. Apaixonaram-se, casaram e ela mudou-se para Lisboa.

Apesar de residir no continente, a avó fez questão absoluta de que todos os seus filhos nascessem em Vila Franca do Campo. Além disso, regressava com frequência à ilha de São Miguel.

Durante a infância, Maria Ana vivia em Lisboa e tinha uma rotina essencialmente urbana. Contudo, passava pelo menos um mês por ano na casa da família nos Açores. Em São Miguel, encontrava o oposto da cidade: um espaço de liberdade, exploração, libertação e uma profunda ligação à terra e à natureza.

“Senti-me sempre muito enraizada e ligada à ilha, ou com curiosidade e vontade de aprofundar mais esta relação”, conta, revelando: “De alguma maneira, ao crescer, percebi que queria ter esse lugar mais presente na minha vida. E acabou por ser isso que me fez também fazer quase um projeto de vida: ir para aí e instalar-me aí um mês, ou o tempo que eu conseguisse.” E acrescenta: “Quando os meus filhos nasceram, pedimos ao meu pai que ficasse com a casa e, desde há uns 10 anos para cá, eu tenho ido todos os anos um mês com os meus filhos e eles estão a crescer, em parte, aí.”

Desde jovem, Maria Ana Vasco Costa gostava de “pôr a mão na massa”. Acompanhava a mãe, que era decoradora de interiores, mas sentia que procurava algo que transcendesse e aprofundasse as suas sensações.

Mas, como não pensava na possibilidade de ser artista devido ao receio da instabilidade num país pequeno e pela educação de pais empreendedores que a incentivaram a ter uma carreira independente, optou por estudar Arquitetura, por ser uma decisão vista como mais “segura”, cuja base técnica e estrutural acabou por ser determinante para o seu futuro.

Após tirar o curso, foi trabalhar para Londres como arquiteta. Contudo, devido à sua extrema sensibilidade e dedicação obsessiva ao trabalho, a exigência do ritmo laboral levou-a a um estado de ‘burnout’ aos 28 anos.

Esse momento de crise fê-la reavaliar a sua vocação. Com maior maturidade e independência, decidiu estudar Artes Visuais. Procurava um meio artístico no qual tivesse controlo direto sobre o processo criativo, sem depender de grandes equipas ou do trabalho contínuo ao computador, permitindo-lhe voltar ao trabalho físico e tátil.

Foi nesse caminho que percebeu que a cerâmica era a sua matéria-prima. Ficou fascinada pelo barro e pelo potencial inexplorado dos vidrados na arquitetura.

“Começo logo a explorar ideias de padrão e de padrão de escala, porque também percebi a minha necessidade, como arquiteta, de me sentir confortável a trabalhar a uma grande escala, e a única maneira que eu tinha de poder alcançar essa escala era através da repetição”, conta.

“Isso chamou um bocadinho a atenção de arquitetos que foram ver as minhas exposições de fim de ano, de estudante, e que então propuseram que fizéssemos projetos em conjunto”, revela.

Maria Ana Vasco Costa destacou vários projetos fundamentais no seu percurso, que marcam a evolução da sua prática desde as primeiras fachadas personalizadas até grandes intervenções de arte pública e museológica.

A fachada da Travessa das Almas, que foi a primeira fachada que realizou e representou um momento de viragem na sua carreira. “E foi aí que eu percebi que não ia ser uma marca de azulejos, mas ia ser a pessoa que ia cuidar de um projeto e fazer peças quase à medida, como se fosse joalharia. Ou seja, havia remates de janelas, havia pormenores que iam ser resolvidos e a fachada era um resultado desse cuidado. Isso foi assim um grande salto para a minha compreensão do que é que eu queria fazer”, conta.

O Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM) foi a sua obra de maior impacto, visibilidade e projeção do seu percurso. O resultado final da intervenção ultrapassou as expectativas iniciais e consolidou o reconhecimento do seu trabalho no meio da arte e da arquitetura, afirmando-o no campo das artes visuais.

Nos Açores, tem um projeto na Casa da Galeria, em Ponta Delgada, para a qual desenhou peças com diferentes posições e orientações para captar a luz açoriana e refletir os tons prateados do mar nos dias cinzentos.

Mas tem também exposto em galerias. A sua primeira exposição individual intitulou-se “Água d’Alto”, na Galeria Municipal de Arte, em Almada, para a qual criou esculturas em cerâmica vidrada e desenhos (’glaze drawings’) que recriam o aspeto da rocha vulcânica molhada e o escorrimento de água e minerais da paisagem açoriana. Realizou também a exposição “Salto”, uma instalação no festival Walk&Talk, e participações em feiras como o ARCO Lisboa e a Drawing Room, através da galeria de Fátima Macedo.

Apesar de trabalhar como artista há dez anos, considera que está “apenas a começar”. Avalia a primeira década como um período muito intenso - por ter conciliado o arranque da carreira com a educação de filhos pequenos -, sentindo agora mais espaço e liberdade para explorar novos territórios.

“Tenho muita vontade de estar muito em ateliê, de continuar a fazer os projetos de azulejo, mas, como eu costumo dizer, são poucos e são bons, porque me estruturam e me mantêm”, afirma, e acrescenta: “Quero muito dedicar-me ao meu lado não de empresária, mas ao meu lado de recolhimento e de pesquisa, de trabalho. Estou com muita vontade disso.”

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