Açoriano Oriental
Entre África, Canadá e Açores
Rosário Pinheiro é cabeleireira há 50 anos

Em África conheceu a arte de cuidar dos cabelos, pelas mãos da sua mãe, Eugénia, cujo nome emprestou-o ao salão localizado na zona de Nova Lisboa. A Angola de Rosário Pinheiro já lá vai na história que o tempo fez do país e da vida desta cabeleireira com 50 anos de actividade profissional, a mais antiga da Ilha Terceira. Mas ficou o berço e a memória.



Foto: Nancy Pinheiro
Autor: Sónia Bettencourt/AO Online

Aos 69 anos nem tudo está por um fio de cabelo, nem mesmo a paciência para acordar de manhã e ir tratar dos cabelos das suas clientes, garante Rosário Pinheiro que há poucos meses completou meio século de actividade profissional como cabeleireira. Deu por si a fazer contas ao número de mulheres que atende à terceira geração. Avós, filhas e netas, juntas, de quando em vez, para cortes e penteados, dentro ou fora dos padrões da moda, conforme o gosto e o pedido.

Hoje, a sua rotina é pacata, no centro da cidade de Angra do Heroísmo, e muito diferente de um passado distante. Por circunstâncias de um tempo que mesmo longe deixaram marcas em nome da emigração, da busca de melhores condições de vida e das razões que, tal como no amor, a própria razão desconhece.

Uma coisa é certa: foi numa zona da antiga Nova Lisboa, em Angola, que tudo começou, quando, nos Açores, um capítulo parecia ter terminado no momento da partida do “Carvalho Araújo” do cais de Angra em viagem até Lisboa durante três dias.

“Depois fomos para Luanda no navio “Quanza” e levámos 17 dias a chegar a Lobito. O meu pai emigrou para lá. Era tudo tão bonito. Tinha 12 anos, a minha mãe era cabeleireira, começou a trabalhar, e eu fui seguindo os seus passos, uma vez que também não havia muitas facilidades para ir estudar”, recorda Rosário Pinheiro, colocando a tónica na palavra “mãe”, a sua referência máxima, que lhe fez a bata à medida ao ver a sua vontade de ajudar nas tarefas diárias do salão. “Ela dizia que eu não podia, que era muito pequenina, e eu subia a um banquinho para ficar da altura dos mais velhos”, conta.

Não muito tempo depois, naturalmente, Rosário Pinheiro deixou de precisar de um banco para alcançar o tamanho dos adultos, e, anos mais tarde, já casada e com um filho, teve mesmo de assumir o comando do “Salão Eugénia” e da família, por questões do estado de saúde da sua mãe. A partir dali, o “banquinho” que simbolizava o início de um percurso profissional, passou a representar o retrocesso, a estagnação, a necessidade de mudança, a vida nas chamadas “colónias”, ou, uma vez mais, serviu de apoio desta feita para avistar ao longe os Açores, a “casa-mãe”, de braços abertos a meio do Atlântico.  “Voltámos todos para os Açores. Nunca mais lá fui [a África]”, afirma.


Torna-viagem

No ano de 1975, em Angra do Heroísmo, ainda não havia cursos para o ensino do cuidado dos cabelos, contudo, como em qualquer cidade, existe sempre quem espreita a inovação para o negócio.

Em termos de beleza capilar, segundo Rosário Pinheiro, destacava-se o antigo “Salão Chique”, de Maria Isilberta Melo, na Rua de Santo Espírito, para onde foi trabalhar e orientar mais de uma dezena de profissionais.  

“Havia 14 profissionais e eu fui para lá. Ela abriu-me a porta”, salienta a cabeleireira, então de torna-viagem, com dois mundos no seu interior, pronta para dar conta do recado numa terra tão sua quanto estranha. “A integração não foi fácil. Os meus hábitos eram diferentes. Em África, por exemplo, havia mais proximidade com as clientes”, confessa ao considerar que, nos Açores, a sociedade era mais conservadora e, por isso, aquilo que trouxe de conhecimentos e experiências era visto e sentido como algo “fora da caixa”.

Entretanto, o caminho da cabeleireira terceirense voltou a ser abalado pela mudança. Desta vez, literalmente. Um sismo com uma magnitude de 7,2 na escala de Richter destruiu grande parte da cidade, a 1 de janeiro de 1980, agora Património Mundial pela UNESCO, e deixou por terra um monte de vidas, entre mortos e feridos, casas, trabalhos e sonhos.

No horizonte, a família de Rosário Pinheiro apenas avistou mais uma viagem com passaporte para o Canadá, ou se quisermos, para a felicidade. “Foi um recomeço. Tive de fazer a minha formação de cabeleireira toda de novo para poder exercer a profissão no Canadá. A língua mostrou-se um obstáculo. Mas consegui, abri lá um salão. Sempre trabalhei enquanto lá vivi. E lá também nasceu a minha filha”, recorda a profissional, referindo que, à data, já conhecia o país aquando de uma visita ao seu pai e à sua irmã entretanto emigrados para o outro lado do Atlântico. 


Evoluir sempre 

A lembrar Camões,“mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” em África, no Canadá ou nos Açores, quer nos negócios, quer fora deles, e Rosário Pinheiro sabe disso como ninguém ou não tivesse ela sido também a própria mudança na sua jornada pessoal e profissional – a cortar, pentear e colorir cabelos, cá ou lá, a expressão máxima do seu trabalho recorre a tesouras, tintas e demais acessórios para produzir o efeito desejado, tudo ao alcance de qualquer pessoa que queira estudar e dedicar-se a este ofício. “Mas é preciso gosto e paixão”, ressalva a profissional dos cabelos, sublinhando que, a caminho dos 70 anos de idade, ainda frequenta formações na Terceira, em São Miguel e em Lisboa, isto é, mantém abertura à aprendizagem e à evolução das empresas do sector. “A profissão também tem muito da nossa cabeça, da nossa criatividade. Gosto imenso de trabalhos artísticos, de idealizar e pentear; gosto das colorações e mistura de tintas, muito em voga nos dias de hoje. Eu própria gosto de mudar a cor do meu cabelo”,  salienta.

Neste sentido, aliás, considera as mulheres terceirenses vaidosas, e, por isso, a força dos negócios na área dos cabelos e da estética “não será apenas uma moda”. Estima que, actualmente, o número de cabeleireiros no centro de Angra do Heroísmo anda à volta de uma dezena, e chegue à centena no total da ilha. Interessados não faltam sobretudo jovens. O que poderá faltar, confessa, é “mais união entre os profissionais”. “Temos muitos e bons profissionais na ilha. Seria interessante nos juntarmos, de dois em dois meses, por exemplo, num encontro para conversar e trocar ideias. Penso que seria um bom complemento ao que aprendemos nas formações e no nosso dia a dia”, sugere.

Contudo os laços existem e os nós têm história, desde uma funcionária que começou a trabalhar consigo aos 14 anos e hoje conta 40, passando pelas jovens a quem ensinou o ofício antes do aparecimento dos cursos profissionais, a pedido das suas mães, até às suas clientes que de tão antigas alcançaram o estatuto de amigas. E dá exemplo de Maria do Céu Valadão, uma senhora que veio de Angola para os Açores, há muitos anos, entretanto já falecida, e que sempre deixou o seu cabelo ao cuidado de Rosário Pinheiro.

Por outro lado, à laia de sonho, se pudesse escolher uma figura pública para cuidar dos seus cabelos, diria a Diana, Princesa de Gales. Na verdade, todas as suas clientes são “princesas”, inclusive a sua própria filha, Nancy, que empresta o seu nome ao salão.

Do “Salão Eugénia” ao “Salão Nancy” vai uma geração, um salto de África para os Açores, passando pelo Canadá, que, refere Rosário Pinheiro, na profissão de cabeleireiro não teve continuidade na sua família. “Os meus filhos não tiveram interesse por esta profissão. Mas não fico triste, cada um deles faz o que gosta. Eu sempre fiz o que mais gostava”, concretiza.


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