Portugal no conflito da Guiné contado em livro


 

Lusa/AO   Internacional   8 de Nov de 2007, 07:55

O conflito militar de 1998/99 na Guiné-Bissau é o "pretexto" para contar o envolvimento concertado da diplomacia e da defesa portuguesas no livro "Bissau em Chamas", dos oficiais Alexandre Reis Rodrigues e Américo Silva Santos.
A lançar hoje à tarde, em Lisboa, a obra, já nos escaparates, tem prefácio de Jorge Sampaio, que sublinha que, ao escreverem o livro, os vice-almirantes Reis Rodrigues (na reforma) e Silva Santos (na reserva) "prestaram um belo serviço a Portugal".

    "Este livro vem preencher, com rigor e interesse, uma lacuna da nossa vida diplomática e militar (…) que pode bem considerar-se um caso de sucesso que evidenciou as nossas capacidades e a eficácia da nossa diplomacia e das nossas Forças Armadas", escreve Sampaio que, na altura do conflito, era o Presidente de Portugal.

    No entender de Sampaio, Portugal "saiu claramente prestigiado na cena internacional", sobretudo "pela sabedoria com que agiu num contexto de extrema dificuldade".

    "Bissau Em Chamas", de 319 páginas, editado pela Casa das Letras e com várias ilustrações, relata o envolvimento português em todas as fases do conflito militar guineense, explicando os antecedentes, as operações militares, as primeiras evacuações, a cobertura noticiosa, o acordo de paz e o pós-conflito.

    Segundo os autores, a Guiné-Bissau assistiu, a 07 de Junho de 1998, a um "golpe de Estado militar", seguido, "sem solução de continuidade", por uma guerra civil "sem quartel".

    "Não se tratava, obviamente, do primeiro golpe militar africano. Mas, para Portugal, era uma ocasião especial por razões de natureza política e estratégica e por motivações afectivas muito próprias", escrevem os dois oficiais.

    Para os autores, abriam-se duas vias que "pareciam fornecer a Portugal a oportunidade e os instrumentos necessários" para recolher os cidadãos nacionais em situação precária e ajudar o povo e o estado da Guiné-Bissau a retomar o caminho da democracia.

    "Em primeiro lugar - sustentam -, a catalisação de uma aliança com nações amigas para uma intervenção humanitária militar, preparada para impor e manter a paz entre as partes em conflito".

    "Em segundo lugar, a acção nacional isolada, com o acordo das autoridades guineenses, correndo o risco de enfrentar hostilidades de potências já envolvidas no conflito", afirmam.

    Segundo os vice-almirantes Reis Rodrigues e Silva Santos, os esforços desenvolvidos para a primeira solução "lamentavelmente falharam".

    "Mas Portugal ousou. Rápida e decididamente, de forma que se revelou oportuna, competente e eficaz, assumiu a segunda via. Vencendo cepticismos internos e externos, a diplomacia e as Forças Armadas Portuguesas, sob uma direcção política com vontade de fazer, viram recompensada a sua ousadia", defendem os dois autores.

    O conflito militar guineense começou a 07 de Junho de 1998 e terminaria 11 meses mais tarde, a 07 de Maio de 1999, com o fim do regime do então presidente João Bernardo "Nino" Vieira, hoje novamente no poder, depois de vencer as presidenciais de 2005, após seis anos de exílio em Portugal.

    O líder da revolta foi o então demitido Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), brigadeiro Ansumane Mané, que viria a ser abatido a tiro em Novembro de 2000, após se ter posto em fuga por recusar acatar ordens do poder político que considerava serem "descabidas e nefastas" para os militares e para o país.

    A "Nino" Vieira sucedeu o até então presidente do Parlamento, Malam Bacai Sanhá, que, com a ajuda do primeiro-ministro Francisco Fadul (Fevereiro de 1999 a Fevereiro de 2000), organizou as eleições gerais de Novembro de 1999 e Janeiro de 2000, que deram a vitória a Kumba Ialá e ao seu Partido da Renovação Social (PRS).

    O vice-almirante Reis Rodrigues, que iniciou a sua carreira em 1963, precisamente na então colónia portuguesa da Guiné, como fuzileiro especial, desempenha actualmente as funções de secretário-geral da Comissão Portuguesa do Atlântico e coordenador do jornal Defesa e Relações Internacionais.

    No mar, comandou, entre outras forças, a STAVFORLAND, da NATO, e foi comandante operacional da Marinha, da EUROMARFOR e da CINCSOUTHLANT.

    Por seu lado, o vice-almirante Silva Santos, foi professor de Estratégia no Instituto Superior Naval de Guerra e comandante da Escola Naval.

    Dedicou-se também às operações, área em que exerceu, à semelhança de Reis Rodrigues, os cargos de comandante operacional da Marinha e do CINCSOUTHLANT. Escreveu vários trabalhos sobre a Estratégia e as relações Internacionais, as Operações Navais e a NATO.
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