Educação

Pais recorrem a crédito para comprar material escolar

Pais recorrem a crédito para comprar material escolar

 

Sílvia Maia, Lusa/AO online   Nacional   5 de Set de 2008, 11:15

Há quem recorra a créditos, quem comece as compras com meses de antecedência ou antecipe o subsídio do natal. Há também quem conte com a ajuda das "madrinhas". Motivo de preocupação para os pais, as compras do material escolar são contudo uma aventura excitante para os mais novos.
A uma semana do começo das aulas, Matilde, seis anos, diverte-se como se estivesse num parque de diversões. Fintando as dezenas de clientes que se acotovelavam no hipermercado, a menina corre os grandes olhos castanhos pelos corredores na ânsia de ser bem sucedida na sua tarefa: encontrar uma mochila que ela goste, que as irmãs mais velhas aprovem e que a mãe aceda em comprar.

    "Vou para a escola das minhas irmãs e vou ter uma mochila nova. Queria que a mãe me comprasse uma das Princesas", conta à Lusa a filha mais nova de Regina Carreira.

    Durante duas horas e meia, a família Carreira escolheu canetas, lápis, borrachas, dossiers, mochilas… Em nenhum momento, Matilde, Margarida ou Constança mostraram qualquer sinal de cansaço ou aborrecimento. "Acho que este é um momento excitante para elas porque lhes é completamente dedicado. Andam a comprar as suas coisas e sentem que têm algum poder de escolha", explica a mãe.

    Não foi preciso avisar antes de sair de casa que era preciso ter atenção aos custos. Nem recordar a regra de comparar sempre os preços. Na família Carreira estas são "leis" instituídas há muito. Mesmo assim, entre manuais e material de apoio, a factura passou os 900 euros, sem contar com as mensalidades do colégio que frequentam.

    "Este é um mês que custa sempre um bocadinho e já estamos a gastar da conta ordenado, mas planeamos repor nos meses de Outubro e Novembro", desabafa Regina Carreira.

    Segundo a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, os portugueses deverão gastar este mês 80 milhões de euros só nos manuais obrigatórios. Depois é preciso comprar ainda todo o restante material. Hiper e supermercados parecem ser o espaço preferencial dos portugueses que na procura do melhor preço esbarram em promoções desnecessárias e nos constantes pedidos dos mais pequenos, "influenciados pela publicidade e colegas".

    Marta, cinco anos, é um alvo fácil dos programas e anúncios televisivos. Agarrada a um estojo cor-de-rosa choque, a menina com pouco mais de um metro de altura estica o pescoço para perguntar se também pode levar "a mochila, o caderno e aquela coisa da Barbie". Ana Conceição reconhece ser difícil resistir: "As madrinhas não olham a preços. Esta é a primeira vez que ela vai para a escola e como ainda não temos a lista do material escolar eu vou levar-lhe o que ela pede".

    Ceder ao desejo das crianças sem olhar ao orçamento disponível é um erro a evitar, sublinha o psicólogo Daniel Sampaio, lembrando que "o excesso de gratificação não é benéfico".

    Além disso, alerta, "deve-se gastar de acordo com as possibilidades, até porque saber poupar é muito importante. Os pais devem ensinar os mais pequenos a saber resistir à pressão dos colegas e publicidade".

    No hipermercado Continente existem mochilas a partir de cinco euros, mas raramente os olhos das crianças recaem nessas. São as marcas de desporto e os desenhos animados da televisão que ditam as modas.

    Segundo a responsável pela assessoria daquela loja, para as crianças entre os quatro e os sete anos, estar na moda é ter uma mochila do "Noddy" ou da "Dora, a Exploradora" - duas personagens dos desenhos animados.

    Já os meninos da primária ficam de beicinho quando os pais dizem "não" a uma mochila do "Wrestling", "Homem Aranha" ou "Morangos com Açúcar" e as meninas não conseguem resistir à tentação de andar com umas "Winx" - desenhos animados sobre umas meninas com asas - às costas. Entre os jovens, são as marcas desportivas como a O´Neill, Reebok e Converse que mais vendem.

    O presidente da Associação Nacional de Pais alerta que é preciso não cair na tentação das "marcas". Albino Almeida dá como exemplo a diferença de orçamento entre comprar produtos de linha branca ou de "bonequinhos": "Um caderno de linha branca custa 90 cêntimos e um de marca passa facilmente os três euros. Se fizermos as contas a um aluno com 13 disciplinas a diferença é entre pagar 12 euros ou 40 só nos cadernos".

    Os 13 filhos da família Castro sabem bem que os materiais escolares são "instrumentos de trabalho" e que comprar algo mais caro é "um miminho excepcional", garante a mãe Leonor. As compras começaram em Julho e só vão terminar no próximo mês para "suavizar o orçamento".

    Apesar da alegria dos dois filhos da família Fonseca - Bernardo e Teresinha - que esta semana foram comprar o material escolar ao hipermercado, os pais garantem que não compram nada de marca e que, mesmo assim, só o subsídio de natal antecipado salvou a família de pedir um empréstimo.

    Longe das preocupações dos crescidos, Matilde Carreira abandonou o hipermercado triunfante: conseguiu comprar todo o material que vai guardar religiosamente na mochila até começarem as aulas. Já só faltam cinco dias.

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