“Os Açores são um modelo de resiliência e inovação”

Entrevista a Konstantina Kamitsi, Embaixadora da Grécia



Realizou recentemente a sua primeira visita aos Açores. O que a trouxe especificamente ao arquipélago e que expectativas trazia em relação a esta deslocação, tanto para as relações entre Portugal e a Grécia como, em particular, para os Açores?

Em primeiro lugar, agradeço a honra de conceder uma entrevista ao jornal mais antigo de Portugal e um dos dez mais antigos do mundo inteiro, publicado de forma contínua e regular com o mesmo nome, o Açoriano Oriental. No início de 2026, assumi as minhas funções como Embaixadora da Grécia em Portugal e, neste contexto, considerei um dever visitar os Açores, uma região de extrema importância e identidade única no espaço atlântico, e ter audiências com o presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, eng.º Luís Carlos Correia Garcia, o presidente do Governo Regional dos Açores, Dr. José Manuel Bolieiro, o comandante da Zona Marítima dos Açores, comodoro Luís Nicholson Lavrador e a magnífica reitora da Universidade dos Açores, Prof.ª Dr.ª Susana Mira Leal. O interesse da Grécia pelos Açores é, aliás, comprovado pela existência, há muitos anos, de um Consulado Honorário na capital, Ponta Delgada, que funciona até hoje com o apoio incondicional do excecional Cônsul Honorário, eng.º António Costa Santos.

Grécia e Portugal estão ligados por laços de amizade duradouros, baseados nos nossos valores europeus comuns, na estabilidade regional e na ênfase na economia azul. Esta visita tem como objetivo o aprofundamento das sinergias em áreas de interesse mútuo. Identificamos um grande potencial de cooperação no turismo sustentável, na investigação do mar, nas fontes de energia renováveis e na transição ecológica. Uma vez que ambos os nossos países se caracterizam por uma forte componente insular, os Açores constituem um modelo de resiliência e inovação, do qual pretendemos retirar boas práticas, criando, ao mesmo tempo, oportunidades para ações conjuntas.

Os Açores e muitas ilhas gregas enfrentam problemas semelhantes, como transportes, ligação ao continente e sustentabilidade. Em que áreas concretas acha que os Açores e as ilhas gregas podem trabalhar juntos nos próximos anos?

Levanta uma questão extremamente relevante, uma vez que a insularidade constitui um destino geográfico e estratégico comum para a Grécia e para Portugal. Os desafios que referiu - tais como a coesão territorial, a conectividade e a garantia da sustentabilidade - não são meros problemas locais, mas sim desafios europeus e globais que exigem respostas coordenadas.

A garantia de transportes regulares, economicamente acessíveis e amigos do ambiente para o continente é de importância vital. Podemos colaborar na conceção de portos “inteligentes” e ecológicos, na otimização das redes de transportes marítimos e na reivindicação conjunta de fundos europeus. O nosso objetivo é financiar infraestruturas que reduzam o isolamento das ilhas mais remotas.

Os Açores constituem um modelo internacional de turismo ecológico, enquanto as ilhas gregas ocupam uma posição de liderança mundial no setor da hotelaria. De facto, Astipalea foi proclamada uma ilha inteligente e sustentável, graças à substituição gradual dos veículos tradicionais por automóveis, motociclos e autocarros elétricos. A nossa colaboração pode centrar-se na partilha de boas práticas para evitar o excesso de turismo, na gestão racional dos recursos hídricos e dos resíduos, bem como na proteção dos ecossistemas insulares sensíveis.

Do ponto de vista diplomático, Grécia e Portugal podem funcionar como a “voz comum” da insularidade europeia em Bruxelas. Ao colaborarmos estreitamente, podemos garantir que as especificidades e as necessidades das nossas ilhas estarão sempre no centro das políticas europeias e dos instrumentos de financiamento da União Europeia. Neste ponto, gostaria de sublinhar que a ênfase na importância de proteger a insularidade através de uma política europeia integrada para as ilhas em vários domínios, tais como a conectividade, os investimentos, a autossuficiência energética e a resiliência às alterações climáticas, constitui uma das principais prioridades que o meu país tenciona promover ao assumir a Presidência do Conselho da UE no segundo semestre de 2027.

O turismo é muito importante para a Grécia e para os Açores. Acredita que pode haver mais ligações aéreas ou projetos turísticos que unam os dois arquipélagos? 

O turismo constitui, sem dúvida, um dos pilares mais sólidos da nossa economia e um canal dinâmico de comunicação cultural. A ideia de uma ligação mais estreita entre as ilhas gregas e o arquipélago dos Açores é extremamente aliciante e avança na direção certa da integração europeia. Tanto o fluxo turístico dos portugueses para a Grécia como o dos gregos para Portugal apresenta uma tendência de crescimento significativa em 2025. O fluxo de visitantes é facilitado pela existência de uma ligação aérea direta e regular entre Atenas e Lisboa, inaugurada em junho de 2016 pela Aegean Airlines. Para além da Aegean Airlines, outras companhias aéreas que asseguram a ligação entre a Grécia e Portugal são a Sky Express e, a partir de julho de 2026, a TAP.

O desenvolvimento de programas turísticos comuns poderia criar as condições para uma maior interligação do setor. Em conclusão, embora a distância geográfica crie desafios para os transportes diretos, a ligação digital, institucional e empresarial entre as duas regiões insulares é perfeitamente viável e pode trazer benefícios significativos nos próximos anos.

Há cada vez mais interesse pela língua e cultura portuguesas na Grécia e também pelo grego em Portugal. Como vê o reforço deste intercâmbio entre universidades, escolas e centros culturais, e que papel podem ter as pessoas e as comunidades nos dois países nesta aproximação?

O facto de se verificar uma atração mútua e crescente entre as línguas grega e portuguesa constitui uma mensagem extremamente encorajadora, que confirma a afinidade cultural dos nossos dois povos. As nossas universidades e escolas devem ser os principais impulsionadores desta aproximação.

Nas maiores cidades de Portugal existem faculdades e departamentos de estudos gregos, como na Universidade de Lisboa, na Universidade de Coimbra, na Universidade do Porto, na Universidade do Algarve e na Universidade de Évora. Além disso, no Instituto de Línguas da Universidade Nova de Lisboa existe um programa de ensino do grego moderno que funciona há vários anos. Da mesma forma, na Grécia, desde 2022, a língua portuguesa é ensinada na Universidade Nacional Kapodistriana de Atenas, através do Departamento de Língua e Filologia Espanhola. Por meio destes programas educativos, reforça-se a divulgação da língua e da cultura dos dois países. A Embaixada da Grécia em Portugal, por sua vez, organiza e continuará a organizar diversos eventos culturais que aproximam as culturas afins dos dois povos, através da música, do cinema e da literatura. 

Em paralelo, o número cada vez maior de visitas de alunos e estudantes universitários através do programa Erasmus+ em ambos os países reforça significativamente a compreensão internacional e intercultural, bem como o respeito mútuo entre os jovens. Ao investir na nova geração e nas nossas instituições de ensino, lançamos as bases para uma aliança profunda, sincera e duradoura entre a Grécia e Portugal.





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