O Alojamento Local (AL) tem sido um dos setores mais afetados pela saída da Ryanair dos Açores. Não só porque os turistas independentes que normalmente as companhias low-cost trazem têm mais apetência pelo AL, como também atualmente e para um família do continente, viajar para os Açores está demasiado caro.
E um dos primeiros resultados de 10 meses consecutivos de redução de dormidas nos Açores, em termos homólogos, está a ser o aparecimento de vários Alojamentos Locais à venda na ilha de São Miguel. Em declarações ao Açoriano Oriental, o sócio-gerente da imobiliária ComprarCasa Ponta Delgada, António Afonso, confirma que “há cada vez mais ALs para venda” e o motivo é “a rentabilidade e a ocupação, que têm vindo a diminuir de forma continuada”.
E estes Alojamentos Locais que estão a ser postos à venda são principalmente moradias nas zonas mais afastadas de Ponta Delgada, onde a diminuição das dormidas e dos preços tem sido mais acentuada.
Alertas estão a tornar-se realidade
Em declarações ao Açoriano Oriental, o presidente da Associação do Alojamento Local dos Açores (ALA), João Pinheiro, afirma que “infelizmente, aquilo que nós vimos a alertar nos últimos meses já está a acontecer”, explicando que “a redução dos voos, a redução das dormidas e a redução dos hóspedes” está a ter um efeito muito negativo no Alojamento Local. E o resultado é o de numa altura em que “ainda não entramos na época baixa, já estarmos a sentir o reflexo de falta de rentabilidade nos Alojamentos Locais”, o que está a fazer com que “muitos dos proprietários estejam a tomar decisões e alguns deles mesmo a colocar os imóveis para venda”.
Recordando um pouco os fatores que estiveram na origem do desenvolvimento do Alojamento Local, João Pinheiro salienta que “grande parte dos Alojamentos Locais são fruto de reabilitações por parte de investidores que compraram moradias ou que tinham moradias familiares degradadas e que fizeram um esforço grande em reabilitá-las, muitas vezes indo à banca para fazer um investimento avultado, mais ainda nos dias de hoje, com a inflação na construção”.
Além disso, o presidente da ALA alerta: “nós temos um garrote à entrada de passageiros face ao número de alojamentos que existem neste momento”, o que tem levado a uma pressão para baixar preços e, por esta via, também a rentabilidade dos alojamentos. “Claro que a concorrência fica muito mais agressiva e depois há aqui um jogo de preços que não é nada saudável para a nossa economia, que é frágil”, lamenta João Pinheiro.
Números têm de ser atualizados
Refira-se que a ilha de São Miguel tem neste momento um registo oficial de perto de três mil Alojamentos Locais. Mas segundo João Pinheiro, esse número precisa ser atualizado, porque há empresários a sair do setor e há casas que podem já não estar no mercado do alojamento, apesar de ainda terem o registo ativo. Conforme salienta o presidente da ALA, “existem proprietários de alojamentos que já desistiram, que os colocaram à venda ou que já os venderam e que não fizeram o cancelamento”.
Quanto ao futuro do Alojamento Local e perante estes sinais de alerta, João Pinheiro considera que ele deve passar por uma maior qualificação dos alojamentos e não por uma restrição pura e simples de novas licenças. “A limitação não resolve nada. Nós já vimos isso em Lisboa, Porto e noutros municípios que limitaram o AL e não resolveram o problema. Aqui a questão é mesmo dar um passo para a qualificação”, afirma João Pinheiro.
O presidente da ALA lembra ainda que a portaria que regula o Alojamento Local já tem uma década e precisa ser revista, colocando o Alojamento Local “noutro nível” em termos de qualificação da oferta.
