Matriz Atlântica quer ser laboratório de ideias e cultura

Coliseu Micaelense apresentou o projeto Matriz Atlântica, uma iniciativa estratégica em parceria com o Centro Português de Serigrafia, que visa transformar o equipamento micaelense num agente ativo na vida cultural



O projeto Matriz Atlântica marca um novo posicionamento do Coliseu Micaelense, que deixa de ser apenas um equipamento passivo de eventos para se tornar um agente ativo na vida cultural, funcionando como um fórum de debate e um laboratório de ideias.

"O nosso desígnio é ser um ator ativo na dinamização cultural. Somos o grande encontro para a partilha de conhecimento e um fórum onde se debatem as grandes questões do nosso tempo. Queremos dar um enfoque inusitado, permanente e estruturado às artes visuais e à criação contemporânea. Queremos ser o laboratório onde as ideias se cruzam, onde os criadores encontram o seu público e onde a reflexão crítica ganha palco", afirmou a presidente do Conselho de Administração do Coliseu Micaelense na sessão de abertura do evento de apresentação do projeto "Matriz Atlântica".

Segundo Cila Simas, o projeto Matriz Atlântica é uma iniciativa estratégica que resulta de uma parceria entre o Coliseu Micaelense e o Centro Português de Serigrafia (CPS), através da qual se pretende dar um destaque permanente e estruturado às artes visuais, servindo como um espaço onde criadores e público se encontram e onde a reflexão crítica é estimulada.

"No mundo globalizado existe uma tentação perigosa de aceitar que o centro das decisões da vanguarda artística reside invariavelmente nas grandes cidades continentais. (...) O projeto Matriz Atlântica surge para subverter de forma radical este preconceito. É urgente assumirmos de uma vez por todas que o Atlântico também é o centro", defendeu.

Assim, o projeto estrutura-se em diferentes componentes, entre elas residências artísticas organizadas pelo Centro Português de Serigrafia com artistas convidados e abertura através de “open calls”, pretendendo também alcançar artistas plásticos da diáspora açoriana, mas também um ciclo de exposições: numa primeira exposição apresentará um conjunto de edições anteriores de artistas açorianos pertencentes ao acervo do CPS e, na fase seguinte, exibirá as novas obras inéditas concebidas durante as residências artísticas.

"Quando criei o Centro Português de Serigrafia em 1985 tinha a convicção de que a arte não deveria ser o privilégio de poucos e de que uma pessoa, independentemente da sua condição económica ou do lugar onde vivia, deveria poder ter uma obra de arte em sua casa, de que era possível criar uma relação mais próxima entre o artista e o público", afirmou, acrescentando: “Esta parceria constitui-se para aprofundar a missão de promoção e de democratização da arte. Queremos aproximar a criação contemporânea do nosso povo, valorizar os artistas e ampliar a sua ligação ao panorama artístico nacional".

Para D. André de Quiroga, curador do projeto, o Matriz Atlântica tem como desígnio dinamizar a produção cultural açoriana e colocar em destaque o valor dos artistas nascidos no arquipélago, enquanto promove a educação para as artes e a formação continuada de públicos.

Para o curador do projeto, pretende-se ainda posicionar a cultura como ‘soft power’, gerando prestígio externo, dinamização económica e atratividade turística para a Região.

Em paralelo, serão realizadas conferências e debates focados na arte contemporânea, como a conferência que decorreu ontem no Coliseu Micaelense e foi dedicada ao tema "Mecenato e Arte Contemporânea".

E sobre a importância do mecenato, Cila Simas defendeu que o desenvolvimento artístico e a sustentabilidade das iniciativas culturais dependem obrigatoriamente do envolvimento da sociedade civil e das empresas.

"Esta conferência traz a debate um tema de uma urgência: mecenato e arte contemporânea. Não há vanguarda artístico e não há sustentabilidade cultural sem o compromisso firme e audaz da  sociedade civil e do tecido empresarial", defendeu.

E, neste contexto, a presidente do Coliseu Micaelense realçou que o mecenato deve ser desvinculado de qualquer noção de assistencialismo ou caridade, sendo conceptualizado como uma visão estratégica de retorno e elevação da própria comunidade acolhedora.

"O mecenato não é caridade. O mecenato é visão, é a compreensão por parte das empresas e instituições privadas de que o valor que gerem deve ser reinvestido na elevação da comunidade que as acolhe", defendeu.

Também o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, na sua intervenção na sessão de abertura do evento, recordou que foi aprovado e publicado o diploma que altera o Estatuto dos Benefícios Fiscais e cria a Plataforma Nacional do Mecenato. E explicou que, enquanto o regime anterior apresentava normas dispersas, procedimentos pouco claros e exigências burocráticas que desincentivavam pequenas estruturas, o novo regime elimina repetições administrativas quando já existe uma avaliação pública recente e cria os títulos oficiais de "entidade cultural" e "iniciativa cultural".

Alberto Santos clarificou ainda que o mecenato não substitui o financiamento público, mas acrescenta recursos essenciais, permitindo dar aos artistas tempo e meios para criar, expor e fazer circular obras que ainda não encontraram o seu mercado.

"O mecenato não substitui o financiamento público, como sabemos, sobretudo onde ele é mais necessário, mas acrescenta recursos, permite que os projetos encontrem quem queira participar no seu desenvolvimento por muito mais tempo e faz com que durem para além da candidatura ou de um ciclo anual", defendeu.

Também a secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, Berta Cabral, defendeu que o mecenato não deve ser visto apenas como um apoio financeiro pontual, mas sim como uma forma de compromisso ativo com a sociedade, participando no desenvolvimento, na valorização da criação artística e no reforço das relações entre cultura, economia e comunidade. Nesse sentido, considerou que falar de mecenato e de financiamento cultural é também falar de desenvolvimento regional, criatividade, qualificação do território, identidade e capacidade de projeção, sendo necessário adaptar os modelos e práticas às especificidades da realidade geográfica e económica açoriana.

Por sua vez, Piedade Lalanda, presidente do Conselho Económico e Social dos Açores, num painel dedicado à discussão "Do Papel para o Território – Ferramentas Fiscais e Financiamento Cultural", referiu que o mecenato deixou de ser a mera filantropia do passado - na qual famílias abastadas apoiavam individualmente os artistas sem regulação - para se transformar num mecanismo estruturado que gera mais-valias, quer para o setor empresarial, quer para a sociedade.

E, neste contexto, realçou que, para o setor privado, o mecenato combina a responsabilidade com o retorno, ou seja, o investimento em arte traz prestígio, visibilidade e valorização da marca, exigindo um retorno concreto em termos de público e presença social.

"As empresas querem financiar, mas querem ter retorno desse financiamento. Desde logo querem ter prestígio, ou mais prestígio, de estarem a financiar. Querem que, se for um espetáculo, a sala esteja cheia. Portanto, para um empresário, investir na área da arte já não é só filantropia, há muito mais do que isso", considerou.

Por outro lado, destacou que o mecenato tem como principal mais-valia democratizar a cultura, garantindo que a arte não beneficie apenas as elites ou as populações com maiores rendimentos e escolaridade que já a consomem habitualmente.

Já D. André de Quiroga realçou a necessidade de sensibilizar para a necessidade de mecenato privado e de incentivos fiscais que colmatem o financiamento público limitado na cultura.

"Hoje estamos a falar do mecenato e do financiamento. Sem dinheiro não se pode produzir obra e o mecenato tem de ser supletivo àquilo que é o investimento público, que é necessariamente e obrigatoriamente curto", afirmou, acrescentando: "Os privados são fundamentais nisto. Tem é que se criar medidas para tornar o mecenato algo atrativo para as empresas e para os particulares".  

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A Confraria da Veja dos Açores, em conjunto com a Confraria da Alcatra da Terceira e a Confraria do Vinho Verdelho dos Biscoitos, levam a cabo, entre os dias 18 e 20 de setembro, na ilha Terceira, o 1.º Encontro das Confrarias dos Açores e Capítulos de Entronização