A recente dinamização da construção de botes baleeiros e o aumento da frota para atividades desportivas, lúdicas e turísticas nos Açores estão a gerar apreensão quanto à preservação da autenticidade histórica destas embarcações emblemáticas. O alerta é do sociólogo e etnólogo José Carlos Garcia, que critica a falta de orientação técnica e de diálogo entre as entidades envolvidas.
Em entrevista ao Açoriano Oriental, o investigador, que esteve em São Miguel a convite da Associação de Classe do Bote Baleeiro Açoriano (ACBBA) para acompanhar o projeto de construção de novos botes em Rabo de Peixe, destacou que a ilha vive uma fase de forte reativação da sua herança marítima, com a construção de embarcações de raiz, a expansão da frota para regatas e atividades recreativas e o envolvimento desportivo de homens e mulheres.
O projeto da ACBBA “A operação – Preservar, Navegar e Conectar: Memórias ao Serviço do Futuro”, financiado em cerca de 111 mil euros pelo programa operacional Mar 2030, prevê a construção de dois botes representativos da arquitetura naval baleeira.
O primeiro, já em construção, é um bote de tabuado horizontal (modelo açórico-americano), que reproduz o bote faialense Veloz, transferido em 1973 para um parque temático francês e adquirido, em 2017, por um cidadão francês residente em São Miguel.
O segundo é um bote de tabuado em dupla diagonal (modelo micaelense ou açórico-madeirense). Este modelo foi introduzido em 1952, fruto da cooperação técnica com a Madeira, e usado até ao fim da baleação na ilha, em 1973. O bote chamar-se-á Santa Madalena. Na ilha, o bote Santa Joana é o exemplar de referência.
Além do valor físico das embarcações, o projeto permitirá realizar um estudo descritivo, comparativo e interpretativo sobre ambos os modelos e reintroduzir em São Miguel os saberes e as técnicas tradicionais da construção naval baleeira, até agora concentrados no Pico.
Para o etnólogo, o bote ocupa um lugar central no sistema baleeiro e, enquanto património, no sistema identitário. “Costumo dizer que é a segunda peça mais emblemática do sistema identitário baleeiro, logo a seguir à baleia”, sublinha.
Considera, no entanto, que São Miguel ficou à margem dos processos de patrimonialização e musealização que valorizaram as ilhas dos grupos Central e Ocidental. As antigas estruturas baleeiras da ilha “degradaram-se, entraram em ruína, desapareceram”. Por isso, vê nesta reativação “uma espécie de justiça social” e defende a refuncionalização do bote: “Não serve de nada mantermos um objeto, por muito bom que seja, inútil”.
Também diz que o bote açoriano carrega “uma longa história”, sendo herdeiro do bote baleeiro americano, cresceu de 8,5 para 12 metros entre o final do século XIX e a década de 1950 e foi aperfeiçoado pelos construtores locais para responder aos desafios da baleação. Por isso, as técnicas de construção não são um pormenor: “Aqueles saberes estão mesmo na madeira. O imaterial está no material. São duas dimensões que não se podem separar.”
Segundo José Carlos Garcia, a construção e a classificação deste património móvel devem respeitar a autenticidade histórica da embarcação, o que exige regulação, inspeção e uma resposta à fórmula competitiva das regatas. Em causa estão possíveis desvios que comprometem o rigor dos modelos tradicionais consolidados ao longo da história da baleação.
Na sua opinião, o problema deve-se à falta de articulação entre a Direção Regional da Cultura e a Comissão Consultiva do Património Baleeiro Regional, onde estão representados os responsáveis pela gestão dos bens culturais. Referindo que os projetos avançam isoladamente, sem um manual de boas práticas ou diretrizes científicas e técnicas que definam os princípios e a operacionalização destes processos.
José Carlos Garcia defende, por isso, a reunião urgente de todas as entidades tutelares, especialistas, construtores e gestores do património, para negociar e encontrar um ponto de equilíbrio entre o papel social do bote no presente e o respeito escrupuloso pela autenticidade do objeto histórico legado pela baleação.
Durante a estadia em São Miguel, o sociólogo e etnólogo proferiu ainda, na Universidade dos Açores, uma palestra sobre o Património Baleeiro Regional, aproximando o conhecimento académico da realidade social. Nessa sessão houve ainda tempo para um representante da ACBBA dar a conhecer o papel social desta instituição sediada em Vila Franca do Campo e apresentar o projeto dos botes.
