“Eu devia ter acreditado numa criança de dois anos e meio e não nelas”

Depoimentos dos pais marcaram o terceiro dia do julgamento das quatro ex-auxiliares da creche da Casa do Povo de Rabo de Peixe, com relatos de mudanças de comportamento, nódoas negras e arranhões que ganharam outro significado após a divulgação das imagens



“Eu devia ter acreditado numa criança de dois anos e meio e não nelas, é disso que eu me culpo”. Foi assim que uma mãe descreveu o que sentiu ao perceber que o filho era uma das crianças retratadas nas imagens captadas pelas câmaras de vigilância na creche da Casa do Povo de Rabo de Peixe.

A sala de audiências ficou em silêncio várias vezes ao longo do terceiro dia de julgamento das quatro ex-auxiliares. Os pais foram ouvidos na terça-feira, e, naquele espaço, as histórias de algumas crianças ganharam voz. 

Um dos pais falou que começou com pequenas marcas no corpo do filho: um arranhão perto da orelha, depois nódoas negras nas pernas, uma ferida no nariz e negro por baixo dos olhos. As explicações eram sempre as mesmas, “são rapazes, brincam na rua”, “bateu num armário ou “ia caindo e agarrei-o”, e o pai ia acreditando. As situações começaram quando o filho passou para a sala de transição, com idade entre um e três anos.

Além das marcas, o menino deixou de querer ir para a creche, chorava ainda antes de chegar. Dizia que não queria dormir, que não queria “mimi”, e chegava quase sempre a casa com a roupa urinada dentro de um saco: “Era só na creche, em casa não fazia xixi nas calças”, garantiu o pai.

Também começou a tapar os ouvidos e a repetir “susto, susto”, sempre que ouvia barulhos mais fortes. Um dia, o pai mostrou-lhe fotografias das auxiliares no telemóvel e quando apareceu a imagem de uma delas, a criança levou a mão à cara e disse: “pau pau”.

Em casa o comportamento também mudou, a mãe falou de comportamentos mais agressivos, gritos, pontapés: “Pensávamos que eram birras”, disse. Mas, mais tarde, perceberam que não.

Outro casal relatou que o filho aparecia com feridas no céu da boca e na língua, o que levou a várias idas ao hospital. Na hora do banho, não deixava que a água do chuveiro lhe tocasse na cabeça, só aceitava a esponja, pois gritava de dores: “Ele estava cheio de galos”, disse o pai, sem nunca imaginar o que estaria por trás. 

A criança passou também a ter medo de barulhos fortes, imitava castigos, pondo as bonecas da irmã de castigo, e reproduzia frases que ouvia na creche. Quando estava numa fila de carros, dizia: “anda mosquito, anda cismado”.

A mãe afirmou que “elas brincavam com o psicológico das crianças e dos pais”, pois ao mesmo tempo em que a violência acontecia, a auxiliar mostrava-se carinhosa quando entregava o filho no final do dia: “Daquelas portas para cá, elas são anjos”.  

Com o tempo, começaram as queixas vindas da creche. Diziam que o menino estava difícil nas refeições, que vomitava. “No princípio ele comia muito bem, mas depois parecia que qualquer coisa o fazia vomitar. Ganhou facilidade em pôr comida fora”, contou a mãe, acrescentando que o filho repetia várias vezes: “colher na garganta”.

Outro pai falou da filha, uma criança com autismo, que deixou de sorrir, de querer ir para a creche e começou a colocar os dedos na boca até ao fundo como quem provoca o vómito: “A nossa menina não fala, mas compreende”, disse, sem conseguir encontrar uma explicação para os comportamentos violentos que aconteciam na creche. E conta ainda que hoje a criança foge da massa tricolor.

Antes dos pais, o tribunal ouviu também trabalhadoras da instituição. Uma funcionária da cozinha afirmou que lavou babetes sujos de sangue e associou isso à forma como a comida era dada à boca com talheres de metal, cabos de colher, garfos e até dedos enfiado na boca das crianças. Outras testemunhas relataram situações em que a comida vomitada era novamente levada à boca, inclusive relataram episódios em que a colher além de vómito tinha também ranho.

Durante as refeições disseram que não era dada água às crianças para evitar idas à casa de banho e quando pediam, muitas vezes não era dada autorizada, o que resultava em roupa urinada. 

Ao longo da sessão, houve palavras que se repetiram vezes sem conta: medo, culpa e silêncio. O medo terá sido, segundo várias testemunhas, o maior aliado das quatro arguidas e o maior obstáculo para que tudo fosse denunciado mais cedo.

O julgamento prossegue no próximo dia 15 de abril.  

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