“Estava longe de imaginar que iria desenvolver a minha vida nos Açores”

Sara Miguel. Veio viver para os Açores para ter uma experiência diferente. Primeiro escolheu a ilha Terceira, depois o Pico por intuição. O certo é que a cantora, natural de Matosinhos, não pensa em regressar. ‘Mar&Ilha’ e ‘Línguas de Fogo’ são os seus projetos de coração




Natural da cidade de Matosinhos, Sara Miguel fez dos Açores a sua casa e não conta regressar. A cantora vive atualmente no Pico, mas já viveu na ilha Terceira. Aliás, foi para a Terceira que se mudou quando sentiu que a “minha vida estava um pouco num impasse”. Tendo estudado sempre no Porto, Sara Miguel conta-nos que nunca tinha tido “aquela experiência de ir para fora, e pensei em ter uma experiência diferente. 

Como tinha ido à Terceira para um concerto, tinha achado maravilhoso. Estava longe de imaginar que iria desenvolver a minha vida nos Açores e que agora já não quereria ir embora”. Viveu cinco anos na Terceira, onde “fiz muita coisa, trabalhei com orquestras, filarmónicas, grupos de teatro, dei aulas.  Curiosamente algumas das oportunidades mais incríveis que tive na minha carreira foram na Terceira e não quando estava no Porto, por exemplo, colaborar com o Mário Laginha no disco do ‘Vulcão’, ser cantora residente da Orquestra AngraJazz”.

A música é a sua vida. Refere que as suas memórias de infância, as mais presentes, são da “escola primária e mais associadas à música, também da escola básica e por aí adiante”, sublinhando que “a música sempre esteve muito associada às minhas memórias, estarmos nos intervalos das aulas a ensaiar as músicas dos filmes, para depois prepararmos as festas ou então participarmos em concursos de escrita, recordo-me das audições de piano na primária. Tenho muitas memórias que são mais associadas a este gosto pelas artes e a esta necessidade da autoexpressão”. Portanto, “sempre fiz música, sempre gostei de fazer música, mas só mais tarde, quando já estava no ensino superior, num outro curso, é que percebi que havia alguma coisa que tinha abandonado”. Sara Miguel entrou no curso de psicologia e no segundo ano percebeu que não era aquilo que queria e “tive voltar atrás. Fiz a preparação específica para entrar na Escola Superior de Música e entrei. Nessa altura percebi que sim, que aquele era o caminho porque era o que sabia fazer melhor e o que deixava-me mais feliz”.

A reação dos pais à mudança de curso foi de alguma surpresa, porque “eles sabiam que a escolha de ser músico profissional não é uma escolha tão segura, em termos de nível de estilo de vida. Mas, por outro lado, eles também sabiam que isso estava dentro de mim, consideravam que tinha talento e que poderia ter potencial para fazer disso a minha vida”. No fundo, diz Sara Miguel, “eles conhecem-me e sabem que quando gosto de uma coisa e quero uma coisa, sou obstinada para a conseguir. No fundo, eles querem é que seja feliz e apoiaram-me. Hoje em dia continuam a apoiar-me”.

Ainda antes de ir viver para a Terceira, Sara Miguel, gravou o seu primeiro disco, em 2012, no Porto, “tinha o meu quarteto, com o qual apresentava-me em alguns lugares, com alguma frequência”.

Ora, ao fim de cinco anos de estar da Terceira, a cantora voltou sentir que estava a precisar “de um novo estímulo. Sabemos que nas ilhas é tudo muito circular e chega um momento em já conhecemos as pessoas, os projetos, as dificuldades e os obstáculos, e às vezes, preciso de renovar o ar para renovar a minha motivação naquilo que faço e pensei em mudar de ilha”.

Revela que na altura estava muito indecisa entre ir viver para a ilha do Faial ou para o Pico, mas “acabei por escolher o Pico por intuição e acho que escolhi bem porque o Pico tem algo que me apela mais. Não sei se é a natureza, se é a tranquilidade, se é a força da montanha e aquela verticalidade de espírito das pessoas, aquela coisa forte e honesta”, disse para frisar que “gosto disso e acho que isso inspira-me”.

Dos projetos que desenvolve na ilha montanha, Sara Miguel destaca o ‘Mar&Ilha’, que é “o meu projeto principal e o ‘Línguas de Fogo’, que nasceu há dois anos. O ‘Mar&Ilha’ tem uma ligação à música tradicional, à viola da terra e “como transportamos a viola da terra para a música mais contemporânea, misturá-la com várias linguagens de pop, de música folk, de música mais de autor”, disse a cantora, revelando que “vamos lançar o novo disco em abril de 2025”. Tendo em conta que este é um projeto “em que todos os músicos são homens, as ‘Línguas de Fogo’ vem dar um ar fresco, porque é só de mulheres, algo que nunca tinha feito desta forma. Já tinha tido um ensamble vocal só de mulheres, no Porto. É normal vermos mulheres a cantar, mas mulheres a tocar vemos muitos menos”. Então, “fizemos ‘ponto de honra’ de neste projeto, que é de homenagem à poesia de Natália Correia, termos só mulheres a compor e a tocar, para fazermos esta afirmação de que as mulheres têm que se empoderar mais no meio artístico”.

Pessoa de desafios, a cantora afirmou que veio para os Açores “para ter uma experiência nova e fazer o que gosto e tentar adicionar um bocadinho às coisas que se fazem cá, não por achar que sou a melhor, mas por achar que é mais uma pessoa a fazer cultura”. Ciente de que há sempre quem “goste mais do nosso trabalho e quem não valoriza tanto; há quem goste de nós como pessoas e quem ache que não somos tão interessantes. Para mim, isso foi uma descoberta de não associar o meu amor próprio à opinião alheia”. Por isso, “acho que os Açores estão a ensinar-me, porque não agradamos a toda a gente e o nosso trabalho nunca chega a toda a gente. Porém, sinto que aqui, há pessoas que gostam do que faço, chego com mais facilidade e isso aquece-nos o coração”.

Aquece-lhe tanto o coração que não pensa em regressar ao Porto. Conta, aliás, que “já construí casa no Pico e os meus pais estão a construir também. Fazem planos de virem para cá na sua reforma”, referindo ainda que o “meu irmão também tem vindo com mais frequência aos Açores e imagino que no futuro se possa fixar cá”. Portanto, aos poucos “estamos a construir o nosso pequeno sonho de comunidade familiar para terminarmos a nossa vida nos Açores, todos juntos em família”. “Sentimos, neste momento, que este é um lugar onde podemos ter as condições de vida que desejamos ter, nomeadamente associadas à calma, à tranquilidade, a uma vida mais próxima da natureza”.

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