Cuidado da saúde mental exige “comunidade inteira” a trabalhar em rede

O cuidado da saúde mental nos Açores exige “uma comunidade inteira” a trabalhar em rede: saúde primária, escolas, famílias, instituições locais e investigação. Foi esta a mensagem central de uma mesa-redonda sobre os principais desafios que os Açores enfrentam ao nível da saúde mental que decorreu no âmbito da “Saúde Mental – A sociedade ansiosa”, organizada pelo Açoriano Oriental.



Para Carla Rocha, psicóloga clínica e da saúde e coordenadora da Comissão Instaladora do Serviço de Psicologia do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), é necessária uma visão sistémica e comunitária da saúde mental, que saia do modelo biomédico tradicional centrado no hospital e nos médicos, considerando que a falta de articulação e de respostas comunitárias faz com que a população recorra, em última instância, às urgências hospitalares. Na sua intervenção, defende que a prevenção deve estar enraizada na comunidade (filarmónicas, sociedades recreativas) e apela a políticas públicas centradas nas famílias.

A presidente do Conselho de Administração da Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel (USISM), Sandra Silva, destacou que a abordagem da saúde mental nos Cuidados de Saúde Primários assenta em quatro variáveis fundamentais: promoção, prevenção, identificação precoce e continuidade de cuidados. Defende a transição de uma atuação reativa para uma atitude preventiva e de promoção da saúde ao longo de todo o ciclo de vida (desde a gravidez e o período perinatal até à velhice). Sublinhou ainda que a USISM tem desenvolvido trabalho nas escolas junto de professores e famílias para capacitar os jovens e identificar fatores protetores e de risco, como o bullying e as dependências digitais.

Por sua vez, Célia Barreto Carvalho, psicóloga, doutorada em Psicologia Clínica e professora na Universidade dos Açores, anunciou que, em breve, serão conhecidos os primeiros dados epidemiológicos integrais da doença mental nos Açores. A psicóloga considerou ainda que a região tem condições para funcionar como um “laboratório vivo” de boas práticas e que se deve intervir precocemente sobre os fatores de risco comuns.
Ainda na sua intervenção a defendeu que a prevenção dadoença mental começa “voltando a pôr a família em primeiro lugar”.
“Mais do que o resto, de encontrar remendos, diria eu, é capacitar as famílias. Na minha perspetiva, considero que trabalhar as famílias seria um passo gigante na questão da proteção e da prevenção”, defendeu.


Já João Mendes Coelho, médico psiquiatra, abordou o acesso à saúde mental sob a perspetiva da literacia da população (capacidade de reconhecer sinais em si e nos outros) e da resposta integrada entre o Serviço Regional de Saúde, o setor social, o privado e a investigação. Reconhecendo os desafios geográficos e a escassez de profissionais nas ilhas, sugeriu a telemedicina como um complemento útil à presença humana para aproximar cuidados. Defendeu que cada uma das nove ilhas necessita de diagnósticos próprios e de uma afetação pragmática de recursos baseada em dados, focando a intervenção na infância e na juventude. 

PUB