Comunidade Vida e Paz diz não verificar variação no número de sem-abrigo em Lisboa

A Comunidade Vida e Paz diz que não verifica variação no número de pessoas em situação de sem abrigo em Lisboa, apesar de o presidente da Câmara Municipal ter anunciado uma redução com base nos dados de 2025



“Com base na atuação da Comunidade, que através da ação dos seus 600 voluntários percorre praticamente toda a cidade, bem como no número de ceias entregues — cerca de 180.000 por ano — não detetamos uma variação no número de pessoas em situação de sem abrigo”, disse à Lusa o presidente da Direção da Comunidade Vida e Paz, diácono Horácio Félix.

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Carlos Moedas (PSD), anunciou em julho, no seu espaço de comentário no canal Now, que o número de pessoas em situação de sem-abrigo na cidade diminuiu de 3.780 em 2024 para 2.822 em 2025, apesar de o relatório do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA) referente a 2025 ainda não ter sido publicado.

A Lusa contactou o coordenador do Plano Municipal para as Pessoas em situação de sem abrigo, João Marrana, sobre quando será conhecido o documento, tendo o responsável indicado que os dados de Lisboa estão apurados, mas a divulgação está sob alçada da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA).

A agência Lusa questionou também a CML, mas não obteve resposta.

“Constatamos sim, uma diminuição no número de migrantes face à situação registada o ano passado”, acrescentou a Comunidade Vida e Paz, Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), tutelada pelo Patriarcado de Lisboa, cuja missão principal é apoiar pessoas em situação de sem-abrigo ou vulnerabilidade social.

Questionado sobre novas zonas da cidade onde é visível a permanência de sem-abrigo, Horácio Félix apontou que estas pessoas “possuem uma grande mobilidade que implica que por vezes surgem em maior número em alguns locais, podendo dar a sensação de aumento no seu número, mas que geralmente tem explicação na sua mobilidade”.

Em audição na Comissão de Direitos Humanos e Sociais e de Inovação da Assembleia Municipal de Lisboa, em 03 de julho, João Marrana tinha dito que o relatório do NPISA deveria ser conhecido “provavelmente” na semana seguinte.

Na mesma audição, a vereadora com este pelouro, Maria Luísa Aldim (eleita pelo CDS-PP), revelou que os dados apenas dos técnicos da câmara indiciavam uma “quebra no número de pessoas em situação de sem-abrigo”.

Questionada na ocasião pelo deputado António Valente (PAN) sobre o Hotel Social de Lisboa, anunciado no anterior mandato do presidente Carlos Moedas (PSD), que visava a abertura de um alojamento de emergência para sem-abrigo na Mouraria, a vereadora garantiu que o projeto é para ter continuidade, embora esteja a ser reavaliado o público-alvo.

“O que neste momento está a ser analisado é que o público-alvo possa ser pessoas com vulnerabilidade social, precisamente pelo contexto de bairro, para nós é importante que seja enquadrado e que não exerça algum tipo de pressão social sobre o mesmo espaço”, adiantou Maria Luísa Aldim.

A Lusa questionou a CML sobre em que fase está a execução do projeto e se se mantém a previsão de conclusão até final do ano, mas não obteve resposta.

A Junta de Freguesia de Santa Maria Maior disse à Lusa que “lamentavelmente, não dispõe de informação atualizada sobre o estado da execução da empreitada” e que mantém a sua oposição ao projeto.

“Continuamos a defender que estas respostas não devem ser concentradas no coração da Mouraria, um território que há vários anos - e agora com manifesta agudização - enfrenta uma forte pressão social, urbana e de segurança, onde coexistem já diversas respostas de apoio social e onde os moradores vivem diariamente com desafios muito significativos”, considerou a presidente da junta, Maria João Correia (PS), em resposta escrita enviada à Lusa.

A autarca salientou que “os problemas sociais existem e não podem ser ignorados ou escondidos”, mas devem ser enfrentados “com estratégia, planeamento e equilíbrio territorial”, razão pela qual defendeu respostas sociais “descentralizadas por toda a cidade, envolvendo todas as freguesias e distribuindo de forma mais equilibrada os equipamentos e serviços”.

Para a presidente da junta, “a solidariedade deve ser um compromisso de Lisboa como um todo, e não um esforço exigido sempre aos mesmos bairros”, continuando a defender que “naquele edifício cabem respostas mais adequadas à vida do bairro e à realidade atual”, como renda acessível, alojamento estudantil ou habitação para polícias deslocados.


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