Vinte e cinco anos após o ataque terrorista às torres gémeas do World Trade Center, o mundo mudou completamente. Quase 3000 mil pessoas faleceram e milhares ficaram feridas.
Para quem esteve no terreno, foi um momento que mudou a vida. “A imagem que tenho daquele dia vai ficar impressa na minha mente para sempre. É algo de que me lembro como se tivesse acontecido ontem”, conta Paulo Pacheco ao Açoriano Oriental.
Paulo Pacheco é um médico gastrenterologista que nasceu na ilha Terceira, mas emigrou aos oito meses de idade com os pais para os Estados Unidos da América.
A 11 de setembro de 2001, Paulo Pacheco estava no seu consultório no Cornell University Hospital, um dos maiores hospitais de Nova Iorque. O luso-americano descobriu o primeiro ataque através de um telefonema da irmã, que ligou preocupada para saber as condições do irmão. “Um avião bateu na torre”, disse-lhe a irmã. Uns minutos depois, surge o segundo ataque às torres gémeas do World Trade Center.
Como o hospital tinha um centro de queimados, a expectativa seria de que chegariam centenas ou milhares de vítimas ao hospital, que estava em estado de emergência, com centenas de médicos prontos a intervir. Contudo, poucas vítimas chegaram ao hospital.
Os médicos não essenciais foram mandados para casa para descansar, na expectativa de que pudessem ser novamente chamados no dia seguinte.
Logo de manhã no dia 12, Paulo Pacheco tomou a decisão de ir para o Ground Zero.
“Eu coloquei os meus óculos, o meu estetoscópio, o meu cartão de identificação e disse para mim mesmo: ‘Tenho de trabalhar hoje’. Mas o mundo mudou”, recorda em declarações ao Açoriano Oriental. Como a cidade estava fechada e o hospital não tinha doentes não urgentes para atender, decidiu que seria mais útil no local da tragédia.
Começou a caminhar, mas encontrou uma barreira policial que lhe impedia a passagem. Foi então que um grupo de cerca de 10 a 15 bombeiros o viu. Nesse momento, Paulo Pacheco explicou-lhes que era médico e queria ajudar.
“Venha connosco. (...) Vamos levá-lo para o Ground Zero, nós precisamos da sua ajuda”, conta o médico, recordando a conversa dos bombeiros.
À medida que se aproximava do local, Paulo Pacheco lembra-se que os destroços acumulavam-se pelas ruas. Havia lojas e supermercados abandonados, portas abertas e produtos intactos. Nas ruas, carros ardiam e o calor tornava-se cada vez mais intenso. Antes de chegar, o médico confessa ao Açoriano Oriental que não sabia o que iria encontrar.
Imagens que estão marcadas para a vida
Paulo Pacheco chega ao epicentro da tragédia. “Quando cheguei era como o fim do mundo”, relata o médico gastrenterologista. Ainda antes das 7h00 da manhã do dia 12, encontrou uma área gigante, ainda em chamas e coberta de destroços. Havia ambulâncias e polícias, mas quase não havia médicos.
“Eu perguntei: ‘Onde estão os médicos?’. E ela virou-se para mim e disse: ‘Somos apenas nós os dois’”, recorda Paulo Pacheco. A médica que encontrou no local tinha sido uma das primeiras a chegar. Os dois começaram a montar postos improvisados para tratar de bombeiros e polícias que estavam com ferimentos ligeiros, sendo que, ao mesmo tempo, procuravam possíveis sobreviventes nos destroços.
“Nós pensávamos ouvir vozes. Corríamos para tentar encontrar pessoas, mas nunca encontrávamos”, lembra-se.
Ao logo do dia, vários médicos chegavam ao local. Ao final da tarde, mais de uma centena de médicos estava no lugar, entre eles um antigo professor do médico açoriano.
Paulo Pacheco passou o dia a circular entre o fogo, o metal e os destroços. Só ao final do dia, já exausto, regressou a casa. “Estava literalmente coberto de terra, cansado e quente”.
Durante esse dia, o The New York Times tirou-lhe uma fotografia que publicou posteriormente numa notícia.
Quando chegou ao prédio onde vivia, subiu ao telhado, onde conseguia ver as chamas, o fumo e o calor a subir do local da tragédia, voltando no dia seguinte.
Não queria voltar ao local
Já se passaram 25 anos, e Paulo Pacheco garante que guardou a memórias daquela tragédia para o resto do dia. “As imagens que tenho são vivas e claras”, salienta o especialista.
Apesar de ser médico e de ter experiência com situações de doença, morte e emergência, Paulo Pacheco admite que o impacto do 11 de setembro foi diferente.
“Eu não sou uma pessoa super emocional. Sou muito calmo e tranquilo, mas não tinha ideia do impacto que isso teria”.
Durante quase 25 anos, evitou regressar ao Ground Zero. Imagens de aviões, fogo ou destruição continuam a despertar-lhe recordações. Só voltou recentemente, a convite, para um momento simbólico, e foi ao museu pela primeira vez.
No museu, ver as fotografias daquele dia fez-lhe regressar as sensações. “Senti o fogo e vi as caras das pessoas de novo”, conta.
Esta experiência vivida tornou-se uma parte permanente da sua forma de olhar para a vida. Paulo Pacheco tem dois filhos e diz que tenta transmitir-lhes uma simples ideia: os conflitos não fazem sentido perante a fragilidade da existência, pois “a vida é muito curta e pode acabar num dia”.
Desde aquele dia, Paulo tenta encontrar um equilíbrio entre trabalhar e passar tempo com a família, os filhos e os amigos.
