Região tem dependência externa de cerca de 80%

Professor catedrático jubilado de Economia da Universidade dos Açores Mário Fortuna defendeu, numa palestra no Rotary Club de Ponta Delgada, que a Região precisa de reforçar os setores transacionáveis para reduzir uma dependência externa de cerca de 80%



O economista Mário Fortuna estima que a Região tenha uma dependência financeira externa de cerca de 80%, resultado de uma produção insuficiente, de transferências que se tornaram estruturais e de um recurso permanente ao crédito externo.

O professor catedrático jubilado de Economia da Universidade dos Açores foi orador no Rotary Club de Ponta Delgada, onde apresentou a palestra “O que move a economia dos Açores: produção de bens e serviços e transferências”.

Na sua intervenção, Mário Fortuna começou por traçar o retrato da economia açoriana, que, explicou, assenta em três forças motrizes: a produção de bens e serviços, as transferências financeiras externas e o recurso ao crédito.

Sobre a primeira, o economista sublinhou: “A produção de bens e serviços transacionáveis e não transacionáveis, que é fundamental na generalidade das economias, baseia o seu fulgor na sua capacidade produtiva. A razão é muito simples: é por aí que se alimentam efetivamente as pessoas, de forma sustentável e duradoura. Portanto, está aqui a primeira força motriz da nossa economia.”

Mário Fortuna referiu que os principais setores transacionáveis (turismo, com 15,4%, e agroindústria, com 11,0%) representam apenas 26,4% do VAB, o que é insuficiente para suportar um peso do setor público superior a 30% do VAB.

Quanto à segunda força motriz, revelou que “é aquilo que possamos conseguir, já que não temos recursos naturais, de transferências.” O economista destacou que, nos últimos anos, as transferências do Orçamento do Estado e da União Europeia rondam os 700 milhões de euros.

Por fim, a terceira força: “Para além disso, há outro recurso que nós utilizamos: o crédito. O crédito é habitualmente utilizado pelas famílias quando querem comprar casa ou carro, pelas empresas quando pretendem fazer investimentos e pelo Governo quer para investimentos quer para consumo.”

No caso das famílias apontou que se regista um endividamento de cerca de 3,6 mil milhões de euros, sendo 2,5 mil milhões para habitação e 1,1 mil milhões para consumo. O economista explicou que os empréstimos das famílias são geralmente para investimentos em habitação ou em bens duradouros como viaturas e eletrodomésticos. Os depósitos dos particulares, por outro lado, montam a 2,5 mil milhões de euros (menos 100 milhões do que o crédito obtido).

No caso das empresas a um total de 1,7 mil milhões de euros de crédito estão associados 900 milhões de euros de depósitos, com um défice de 800 milhões de euros.
Em relação ao Governo Regional, recordou que o défice orçamental público acumulado é de 3,5 mil milhões de euros.

No acumulado de famílias, empresas e governo a Região tem um défice de recursos internos da ordem dos 4,4 mil milhões de euros.

Neste contexto, Mário Fortuna concluiu que se verifica um desequilíbrio estrutural preocupante, com um forte enfraquecimento dos setores transacionáveis exportadores, como a agricultura e o turismo, em detrimento de uma economia virada para o consumo interno e o setor público.

Face a estes dados, o economista alertou que a região se caracteriza por uma elevada dependência externa, estimando-se que cerca de 80% seja impulsionado por recursos que vêm de fora, através de subsídios, empréstimos e fundos governamentais, assim como por endividamento.

“Com esta composição de transferências e crédito na nossa mobilização, quer dizer que temos uma deficiência financeira bastante significativa. Temos uma economia bastante vulnerável, exatamente por causa do desequilíbrio que existe entre estas três fontes de dinamização da economia”, afirmou, explicando: “Os privados absorvem mais do que a totalidade dos nossos depósitos (-100 milhões). As empresas têm um défice de crédito versus depósitos de 800 milhões de euros. O Governo tem um défice de 3,5 mil milhões de euros”.

Realçou ainda que “um saldo negativo de 4,4 mil milhões de euros de recursos financeiros para financiar a economia” significa que “os juros são pagos a estrangeiros, porque foram eles que nos emprestaram o dinheiro”.

“Isso dá-nos um valor de cerca de 132 milhões de euros por ano, a uma taxa média de 3%, que tem de ser entregue a terceiros porque eles nos emprestaram o dinheiro”, destacou.

Para reduzir esta vulnerabilidade, Mário Fortuna aponta quatro prioridades de futuro: fortalecer os setores transacionáveis (turismo e agroindústria), atrair investimento privado externo, rever a eficiência da despesa pública e aumentar a produtividade.  

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