“Quero continuar a cantar porque gosto muito do que faço e divulgar a palavra bem dita”

Carlos Alberto Moniz. Entre memórias de infância, manuscritos de canções recolhidas pelo avô e uma carreira de 55 anos marcada pela música, televisão e rádio, o artista mantém uma forte ligação aos Açores. É um homem feliz que quer continuar a cantar e que tem muito orgulho no percurso dos seus filhos




Carlos Alberto Moniz, nascido na ilha Terceira, está a celebrar 55 anos de carreira artística. São 55 anos de vida de palcos, de televisão, de rádio, composição e outras tantas atividades ligadas à música.

“Sou um homem feliz”. É desta forma que, sem qualquer hesitação, Carlos Alberto Moniz resume 55 anos de carreira, um percurso que ganhou dimensão nacional e internacional e que, apesar das viagens e dos palcos por todo o mundo, nunca perdeu a ligação às raízes açorianas. É também por aqui que começa a sua história - a história de uma vida em que a música sempre fez parte.

Foi com uma voz alegre e bem disposta, que nos levou aos seus 18 anos: “Era para ter regressado à Terceira, passado uns anos de ter vindo para o continente estudar Agronomia. Só que em Agronomia comecei a conhecer gente da música. Tinha 18 anos na altura, e houve um dia que chegou-se ao pé de mim um senhor – eu estava com a viola em cima dos joelhos – e perguntou-me: ‘jovem, tu é que és o açoriano? Disse-lhe: sim senhor. Então este senhor disse-me: amanhã temos gravação’. E pronto, lá fui para o estúdio”. Ora e, “como um bem nunca vem só, apareceu lá o Zeca Afonso. Disse-me que tocava bem viola e que em breve ia a Madrid gravar um disco e, lá fui para Madrid com o Zeca Afonso e a Maria do Amparo (cantora e ex-esposa). Fomos todos participar no disco do Zeca Afonso. Entretanto, a vida foi-se complicando, no bom sentido. Comecei a fazer discos, a fazer programas de televisão, rádio e nunca mais parei...”.

Carlos Alberto Moniz, filho único, cresceu numa família ligada à música e recorda o seu avô que “andava de burro pela ilha Terceira a recolher as canções. Ele tinha que fazer as pautas, porque o papel era branco e tinha que escrever as cinco linhas. Eu tenho alguns manuscritos desses em casa, na Praia da Vitória. E é interessante, porque por aí dá para ver algumas das origens das canções açorianas. Há lá uma que costumo cantar e cantamos muito nos Açores, que é: ‘O Sol perguntou à Lua quando havia amanhecer....’ e  tem vários títulos riscados, até que ele a chamou ‘O Sol’ (...)”. O pai era pianista de uma das big band jazz que animavam a Base das Lajes, numa altura em que a presença americana transformava a vida cultural da ilha. Refere que “havia duas orquestras importantes, uma era liderada pelo senhor Artur ‘Art’ Carneiro que veio de Macau para a Terceira. A outra orquestra era Olmmar Band, de que o meu pai fazia parte (…)”. 

E partilha connosco mais uma memória destes tempos: “Foi graças à orquestra que eu, com dois anos, conheci um menino com três anos de nome Roberto Carneiro (ex-ministro da Educação no primeiro Governo de Cavaco Silva ) que era o filho do senhor Art Carneiro. Quando chegaram à Terceira ficaram no hotel em frente à minha casa. Esses dois meninos, na altura cumprimentaram-se e ainda hoje somos amigos (…)”.

Carlos Alberto Moniz, recorda também uma memória da sua mãe: “ela gostava de fazer um bifinho raspado com molho de manteiga, porque o meu pai gostava muito, e depois dizia: ‘não devias comer tanta manteiga, olha que vais ficar gordo’”, recordou entre risos. Ainda sobre o pai, revela que “não sei se fui muito justo com ele porque dizia que não gostava de música, mas ele queria que estudasse música e estudei. Depois ele disse que não podia ser o pai a ensinar ao filho, então aprendi solfejo, composição, harmonia com o maestro Raul Coelho e mais adiante, estudei, cinco anos, violino com Manuel Arraial”. Frisa, no entanto, que “não sou violinista”, mas o ter sabido tocar violino “permitiu-me saber que notas vão num violino quando escrevo para orquestra, e escrevi muito para a orquestra, particularmente para o Festival da Canção”.

Diz-nos que a sua vida é cheia de viagens e já pisou muitos palcos em muitos países, e em todos os Açores estiveram presentes: “corri o mundo todo a tocar e a cantar, desde o Azerbeijão a Montreal, Toronto e aos países todos da Europa... são uns 17 países que já visitei, sempre com a viola na mão, e sempre, sempre, - estou a dizer de propósito - que começo um concerto no estrangeiro, começo assim: ‘É a primeira vez que neste auditório canto, em nome de Deus começo, Pai, Filho e Espírito Santo’. Depois digo que é uma cantiga da minha terra - todos os bailinhos nos Açores começam por dar boa noite às pessoas - e depois, com os dedos das mãos explico que somos nove ilhas, ‘eu nasci nesta, mas a minha alma está com as nove ilhas. Para mim os Açores são uma unidade em que as ilhas têm o mar à volta, que é para podermos viajar de uma ilha para a outras (…)”.

Foi precisamente do mar que mais falta sentiu quando partiu para Lisboa e diz-nos que “quando chego à minha casa na Praia da Vitória, chego à varanda e quase que toco no mar, na areia”. No continente, “moro numa zona no Oeste, numa aldeia muito agradável, onde as pessoas são encantadoras e estou muito perto de uma praia de areia branca e de vez em quando lá vou com a minha mulher dar um passeio e ver o mar”. “Ela é continental, mas já está ligada ao mar e aos Açores. Não conhece ainda todas as ilhas, mas quero que ela conheça todas, porque não há nenhuma igual. Se pensarmos bem e quisermos ver os Açores de uma forma poética, mas realista, cada ilha tem o seu encanto (…)”.
E traz-nos mais uma recordação: “quando vim estudar para Lisboa, os meus amigos chamavam-me o ‘queijo da ilha’ e fiquei com esse apelido até há bem pouco tempo”.

Os Açores nunca saíram de si, “estou sempre a cantar os poetas açorianos, a música popular açoriana. Há um disco que fiz com um quarteto de cordas, os ‘Clássicos Açorianos’ e fui a quase todas as ilhas apresentá-lo, só não se conseguiu ir às Flores na altura por causa do tempo, mas espero um dia ainda poder fazê-lo”. 

A tradição musical na família não terminou com Carlos Alberto Moniz. “Se calhar pode ser um bocadinho genético”, afirma com humor. Isto porque os filhos seguiram caminhos diversos, mas, de certa forma, mantiveram uma relação próxima com as artes. Fala-nos da filha Lúcia Moniz, que “seguiu a carreira de atriz, ela canta muito bem, não tem é exercido muito a função de cantora”. A Sara Moniz “também foi atriz e representou bastante. A Inês vive em Madrid e além de ser diretora de marketing, tem uma carreira musical muito importante, a trabalhar com grandes produtores madrilenos e com canções de êxito. O meu filho João é guarda-redes de andebol do Belenenses, só não é músico porque não quer (..). Estou muito contente com os meus ‘pequenos’”, frisa com boa disposição.

Em 2003, Carlos Alberto Moniz foi condecorado como Comendador da Ordem de Mérito pelo Presidente da República Jorge Sampaio. Recebeu outros prémios e homenagens ao longo da sua carreira e não esconde o orgulho perante o reconhecimento. 

“Obviamente quando alguém nos dá um prémio é porque acha que a gente merece”. Por isso, não partilha da ideia de que os prémios não têm importância, porque “se alguém teve o trabalho de propor e votar, é porque também gosta da gente. Portanto, agradeço”. Mas existem outros prémios que considera ainda mais importantes, o reconhecimento das pessoas na rua. Nos Açores, esse contacto é “particularmente intenso, mas também no continente e em lugares onde não esperava encontrar quem conhecesse o meu trabalho.  Isto não me dá vaidade. Pelo contrário, é muito agradável saber que parte da nossa memória está nas pessoas que foram acompanhando a minha carreira”. 

A finalizar diz-nos que quer “continuar a cantar porque gosto muito do que faço, cantar os poetas e divulgar a palavra bem dita”.

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