Sem o controlo das duas câmaras do Congresso, como serão os últimos dois anos do segundo mandato de Donald Trump enquanto presidente dos Estados Unidos daAmérica? E que Partido Democrata surgirá depois da “onda azul” que varreu os estados? Estas foram algumas das questões colocadas pelo Açoriano Oriental a três figuras conhecedoras da realidade norte-americana e estudiosos da política externa.
Para Diniz Borges, professor na Universidade de Fresno, a mudança causada pelas eleições intercalares - ou midterms - será “extremamente importante”, pois é o congresso, através das suas duas câmaras (Representantes e Senado) “quem controla a parte económica e legislativa”.
Borges acredita que a Administração de Donald Trump será alvo de diversas investigações, devendo assistir-se a uma reversão de algumas políticas postas em prática, como as tarifas, por exemplo.
Contudo, o professor universitário é cauteloso em prever a atuação do Partido Democrata: “O receio aqui é se os democratas vão ou não utilizar esta “onda azul” para responderem ao que o povo fez nas urnas: repudiar totalmente as políticas de Donald Trump. O povo falou e falou claramente, o presidente inclusive já assumiu: os democratas não podem utilizar esta vitória para prepararem as eleições presidenciais de 2028, sem fazerem aquilo que é absolutamente necessário fazer”.
Rodrigo Vaz também considera que a “bola” está agora no campo dos vencedores: para o consultor em assuntos europeus, o grande desafio do Democratas é não serem vítimas do próprio sucesso.
“O sucesso dos democratas foi absolutamente histórico, mas foram eleitos várias personalidades políticas de sensibilidades diferentes: o James Talarico e o Jon Ossoff, mais centristas; ou outros mais progressistas, como o Abdul El-Sayed”.
Vaz assinala que os desafios de coesão interna no Partido Democrata não são de agora, mas com os resultados dos midterms assumem uma importância “central” até às eleições presidenciais de 2028. “Se garantirem um ticket (dupla de candidatos) coeso e em que as várias pulsões internas do partido se revejam, podem alcançar um resultado igualmente histórico. Mas com vários políticos em contenda (Newsom, Alexandria Ocasio-Cortez, o próprio Ossoff, e tantos outros - até a Kamala é uma possível candidata presidencial), este vai ser um risco considerável”.
Mas tendo em conta o histórico de Donald Trump, será possível que o presidente dos Estados Unidos da América leia a mensagem dada pelos eleitores na terça-feira?Diniz Borges quer acreditar que sim, dando como exemplo o facto de já ter reconhecido a derrota e ter dito estar disposto a trabalhar com os Democratas. “Veremos, mas aí até saúdo o presidente por ter este espírito democrático”.
Já Tomé Ribeiro Gomes tem menos certezas: para o investigador e professor no ISCTE, a personalidade de Trump é distinta dos seus antecessores.
“Há um imponderável muito grande, quando se fala de Donald Trump, que é a personalidade diferente de todos os outros presidentes. O normal seria interpretar esta derrota como um cartão vermelho à sua política externa - e temos um precedente, também com uma guerra no Médio Oriente, a guerra do Iraque em que o George W. Bush admite que a derrota nas intercalares teve a ver com a guerra e despede o seu Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld”.
É possível que o agora designado Secretário de Guerra, Pete Hegseth, seja “sacrificado” e que Tump admita uma mudança na guerra no Irão, acredita.
“Mas isso não quer dizer que vá ser mais cauteloso, porque Trump - e isto tem a ver com a personalidade dele - ao sentir-se secundarizado, aproveite que tem mais manobra na política externa (pois na interna depende do Congresso) e se meta em aventura complicadas no Irão, ou noutros alvos, como a América Latina, procurando uma vitória rápida como conseguiu em janeiro deste ano na Venezuela”, aponta.
Tomé Ribeiro Gomes diz que a tentação de causar distrações - através da política externa - continua a ser “muito apetitoso” para o presidente dos Estados Unidos da América, prevendo “grande volatilidade” daqui para a frente.
Até porque, com a corrida presidencial em curso, o especialista vê muitos republicanos a quererem se distanciar de Trump, desde logo na questão das tarifas, tidas como principais causadoras da inflação que afeta a economia norte-americana, o que poderá levar o presidente a largar a coerção económica, sendo positivo para a União Europeia.
“Mas as ameaças à soberania da Gronelândia, as bravatas internacionais, podem continuar, pois ele não depende do Congresso para isso. Os nossos decisores devem contar que os Estados Unidos da Américavão continuar muito voláteis, muito complicados”.
