Era dia 22 de março de 2025 e Maria Palhinha Cordeiro, então com 18 anos, natural da freguesia das Furnas, do concelho da Povoação, estava prestes a viver o dia mais transformador da sua vida.
Um dia que começou como qualquer outro: acordou feliz, após ter celebrado no dia anterior o aniversário da mãe, sem imaginar que, em poucas horas, tudo mudaria de forma irreversível. “Comprei-lhe um presente, dei-lhe um abraço, e fui dormir sem imaginar que, ao acordar, nada seria como antes”, recorda Maria, ao Açoriano Oriental. Mas a manhã seguinte trouxe sinais que ninguém esperaria: a perna dormente, a mão que deixava de obedecer, a dificuldade em abrir a porta. “Bati com a cabeça na maçaneta e pensei que tivesse apenas dormido mal. Mas, quando tentei pegar no telemóvel, a minha mão fechou-se sozinha… percebi que algo não estava bem”, descreve.
O medo tornou-se real quando a sensação de dormência se
espalhou pelo lado direito do corpo quando estava deitada no sofá e a
fala começou a ficar impercetível. “A minha mãe estava a tentar dar-me
água, mas depois viu que comecei a revirar os olhos”, diz Maria. Com
apenas 18 anos, a jovem furnense teve um Acidente Vascular Cerebral
(AVC) isquémico, ou seja, causado pela interrupção do fluxo sanguíneo
Maria alerta que o seu corpo já dava sinais
Antes do AVC, Maria já sentia sinais de alerta que poderiam ter prevenido a gravidade do episódio. Dores de cabeça fortes e a tensão arterial elevada deixavam-na preocupada, mas a vida de estudante ocupava os seus pensamentos. “Achei que fosse apenas stress, estava a terminar o meu curso profissional. Cheguei a ir ao centro de saúde da Povoação e encaminharam-me para o Hospital Divino Espírito Santo (HDES). Disseram-me que podia ser apenas um vírus e fizeram um exame de sangue. Nunca imaginei que seria algo tão grave”, recorda.
O dia do medo e confusão
A entrada de Maria no HDES, em Ponta Delgada, foi marcada por confusão e medo. “Entrei no hospital sem conseguir andar, sem perceber o que se passava. Achava que estava a ter um ataque de pânico. Só depois de uma ressonância é que os médicos me disseram que tinha sofrido um AVC”, explica.
O internamento durou 22 dias, e cada hora trouxe novos desafios. “Foi muito difícil porque há dois meses tinha feito 18 anos. A visita dos meus pais era limitada a apenas uma hora por dia, e eu sentia-me completamente dependente”, lembra.
Maria descreve a
experiência como emocionalmente intensa. “Muitas vezes tive ataques de
ansiedade. Sentia-me assustada, frustrada, mas, ao mesmo tempo, estava
determinada a recuperar. Cada fisioterapia, cada sessão de terapia da
fala, era uma batalha e uma vitória ao mesmo tempo”, sublinha.
Reabilitação intensiva e desafios físicos
No dia 8 de maio de 2025, Maria foi transferida para o Centro de Reabilitação do Norte, no Porto, onde iniciou uma fase intensiva de recuperação. Durante quase quatro meses, enfrentou um regime diário de fisioterapia, terapia ocupacional, terapia da fala e hidroterapia.
“A hidroterapia ajudou-me muito. Aprendi a caminhar novamente, mesmo estando em cadeira de rodas no início. Hoje, caminho sem ajuda, mas ainda preciso de apoio no pé e não recuperei totalmente a mão direita”, explica. No entanto, realça que poderá não mexer mais com a mão direita: “Tive um ataque de ansiedade quando descobri, mas lembro que tenho uma grande força e que vai dar tudo certo, mesmo sem mexer com essa mão”.
Cada progresso físico era acompanhado de pequenas vitórias
emocionais: “Quando consegui comer sozinha, vestir-me sozinha, sentir
que estava a recuperar independência, sentia uma alegria imensa. Foi
como conquistar o meu corpo de novo”, recorda. Acredita que a ida para o
Porto foi o passo fundamental para ter a recuperação que observa hoje
em dia.
Apoio da família é um pilar essencial
Maria destaca
a importância do apoio da família durante todo o processo: “A minha mãe
e todos os familiares foram essenciais. Mesmo sem carro, organizavam-se
para vir todos os dias ao HDES. Foi uma luta conjunta. Sem eles, não
teria conseguido atravessar este período”, conta. O amor e dedicação da
família ajudaram-na a manter a força nos momentos mais difíceis.
Viver a vida com as limitações
O AVC obrigou Maria a adaptar-se a uma nova realidade, reavaliando desde tarefas básicas até objetivos profissionais.
“Aprendi a viver com limitações. Não consigo cortar um bife, desfiar um frango ou usar totalmente a minha mão. Tenho de pedir ajuda à minha mãe. Mas cada passo que consigo dar sozinha é uma vitória”, desabafa.
A experiência
também mudou os planos profissionais de Maria. Inicialmente, pretendia
seguir enfermagem, após o curso de Técnica Auxiliar de Farmácia, mas as
limitações físicas levaram-na a optar por Psicologia. “Sempre gostei de
Psicologia, e percebi que era a área onde podia continuar a crescer,
mesmo com as minhas limitações. Quero seguir em frente e realizar os
meus sonhos”, disse ao Açoriano Oriental.
Recuperação emocional e mensagem de esperança
A recuperação de Maria não foi apenas física, "tive acompanhamento psicológico, que tem sido fundamental. Aprendi que a recuperação não é só sobre o corpo, é também sobre a mente e a forma como olhamos para a vida”, afirma.
Hoje, com 19 anos, Maria encara a sua história como uma lição de resiliência: “Todos nós podemos enfrentar problemas, mas somos muito fortes e podemos alcançar tudo o que queremos. Esta dor é uma cicatriz em construção, mas com o tempo será apenas parte da minha história. Quero olhar para o futuro e reconhecer a coragem que tive aos 18 anos”, conclui.
Maria Palhinha Cordeiro é um exemplo de força,
determinação e esperança. A sua história lembra que o AVC não escolhe
idade e que os desafios inesperados podem transformar vidas, mas que a
vontade de lutar e o apoio incondicional podem transformar obstáculos em
conquistas.
