A história da Boneca, a cadela dos Romeiros dos Fenais da Luz

Ao longo dos 600 quilómetros da romaria, o rancho teve uma companhia especial: a cadela Boneca seguiu-os dos Fenais da Ajuda até aos Fenais da Luz, como uma “romeira de quatro patas”



“Acredito que não foi por acaso, o rancho dos Fenais da Luz foi escolhido”. A frase é de Bruno Costa, mestre do rancho que, arriscamos a dizer, foi o mais seguido de toda as romarias quaresmais realizadas este ano na ilha de São Miguel. A razão tem quatro patas e dá pelo nome de Boneca, a cadela que fez 600 quilómetros lado a lado com o rancho de romeiros, numa comunhão que não deixou ninguém indiferente.

Não é que seja incomum ver animais, principalmente cães, a acompanhar os ranchos de romeiros. “Geralmente, seguem de uma freguesia para outra, duas no máximo”, explica Bruno Costa, em entrevista ao Açoriano Oriental.

O rancho de romeiros dos Fenais da Luz saiu no sábado, dia 21. Logo no segundo dia, quando estavam a passar pelos Fenais da Ajuda, a caminho da Algarvia, o Procurador das Almas - o último elemento do rancho, que vai recolhendo as preces das pessoas - sobressaltou-se com o aproximar de uma cadela de grande porte. Não era a primeira vez que a Boneca seguia os romeiros: segundo a dona da cadela, já o fez por três vezes. Mas desta vez, a companhia de Boneca foi mais além. O animal acompanhou o rancho durante alguns quilómetros, até os deixar, ao avistar, mais à frente, o rancho de romeiros de São Brás.

Mas a história não ficaria por aí: ao chegar à Povoação, os romeiros dos Fenais da Luz são informados por um funcionário da Câmara Municipal da Povoação que a cadela está na bomba de gasolina das Furnas, amarrada por uma corda e que a dona do animal pedia que a soltassem e levassem consigo.

“Eu disse que nós não podíamos responsabilizar-nos pela cadela, pois estávamos em romaria e precisei de algumas horas para pensar, pois iríamos passar por zonas de maior trânsito, como Lagoa e Ponta Delgada”, partilha.

Desconhecedor de todo o burburinho gerado pela notícia que havia uma cadela a acompanhar um rancho de romeiros, Bruno Costa confessa que, ao chegar às Furnas, o coração falou mais alto. “Falei com o rancho, todos aceitaram que ela nos acompanhasse. Quando nos viu, ficou muito alegre”.

E foi assim que o rancho passou de 26 elementos a 26 mais um: a Boneca seguiu todo o caminho, até de volta aos Fenais da Luz, ao lado dos romeiros, como se de um deles se tratasse.

“Nunca vi um cão que apenas ladrou duas vezes e uma delas foi por não ter entrado no Santuário. Ela tinha todo o seu ritual quando chegávamos a uma igreja: nós fazíamos a oração de entrada e ela entrava na igreja, como um guia. Depois, voltava e entrava connosco. E quando nos colocávamos de pé a acabar a oração, ela escolhia sempre um de dois lados: ou à frente do altar, ou à frente do Santíssimo. Depois pedíamos para sair e ela fazia o mesmo”.

Os romeiros só tomaram noção do que se estava a passar, nomeadamente nas redes sociais, durante o Encontro de Famílias. O mestre do rancho reconhece que ficaram “mais expostos”, mas diz que, ao fim de 20 romarias feitas, foi a melhor da sua vida.

“Foi a romaria de puro humanismo, não só pela inclusão da Boneca que nos deu mais força, mas por um conjunto de situações que foram acontecendo ao longo da romaria. Diga-me ocasiões em que todos colocaram as diferenças de lado e uniram-se numa só missão? Foi isso que aconteceu com a Boneca. Ela conseguiu unir várias pessoas, de faixas etárias diferentes, de classes diferentes e isso sensibilizou-nos bastante. Pois esse é o verdadeiro espírito da romaria: sejamos doutores ou desempregados, ali somos todos iguais”.

Opinião semelhante tem Hugo Silva, contramestre do rancho, romeiro desde 2010. Para ele, a Boneca “também ajudou-nos nos momentos mais difíceis. Os pormenores , o respeito , o agir dela tinham coisas que ninguém consegue explicar o porquê”.

Ao longo da romaria, o rancho foi cuidando da cadela: Bruno Costa levou, nos primeiros dias, a ração no seu saco, às costas, mas depois, por onde passavam, todos tinham algo preparado para a Boneca. “Houve muito cuidado, foi comovente ver como as pessoas se sentiram tocadas pela história da Boneca”, diz Bruno Costa.

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