Um em cada quatro estudantes inquiridos com ansiedade severa

Projeto SeMente, da Universidade dos Açores, reuniu 552 respostas de estudantes no ano letivo 2024/2025. A investigação revelou que a ansiedade é uma das principais queixas, sendo que 18,3% dos inquiridos situam-se no nível severo a extremamente severo



O Projeto SeMente ouviu 552 estudantes da Universidade dos Açores (UAc) e desvendou níveis preocupantes de ansiedade, depressão, stress e autodano. Os dados mostram que um  terço dos estudantes considera ter um problema de saúde mental, sendo que um em cada  quatro  tem níveis severos de ansiedade e que 77% já sentiram ansiedade em situações de avaliação académica. Por detrás destes números estão jovens que já chegam à universidade, muitas vezes, com a sua saúde mental fragilizada e até doente. 

O estudo foi realizado através de um questionário online e reuniu respostas de 552 estudantes, o que corresponde a 16,8% dos 3285 alunos da UAc no ano letivo 2024/2025. A média de idades é de 23 anos e a maioria dos participantes é do sexo feminino.

A ansiedade é uma das principais queixas, mas não é a única: 26,1% dos estudantes apresentam níveis severos ou extremamente severos de depressão; enquanto 17,6% têm níveis severos ou extremamente severos de stress. No que diz respeito aos momentos de avaliação, 77% dizem já ter sentido ansiedade durante um teste escrito ou oral.

Autodano e ideação suicida
A investigação revela ainda situações de grande fragilidade emocional: 28,1% dos estudantes dizem já ter tido comportamentos de autodano ao longo da vida, incluindo magoarem-se de propósito ou cortarem-se; outros 34,1% associam o autodano a comportamentos de risco, como o consumo de substâncias e condução perigosa.

No que diz respeito à ideação suicida, 66,1% não apresentam níveis de ideação. No entanto, 27,2% têm níveis moderados e 6,7% demonstram ter níveis elevados a muito elevados. Isto só mostra que há estudantes a passar por dificuldades que ultrapassam os desafios habituais do percurso académico.

15% recorrem a medicação para dormir
O sono, a alimentação, as relações sociais e os hábitos do dia a dia influenciam a saúde mental.

Nesse contexto, 59% dos inquiridos dizem estar insatisfeitos com o sono e 15% recorrem a medicação para dormir. Apenas um em cada três pratica exercício físico regularmente e em relação à alimentação, 90% dizem beber água todos os dias e 72% afirmam comer fruta e legumes diariamente. 

No que diz respeito à solidão, 36% dos estudantes têm perceção de solidão, embora os níveis globais sejam baixos a moderados. 

Ainda assim, apesar das dificuldades, há relações que dão algum apoio. A satisfação com a relação com os colegas chega ao 75% e com a própria UAc aos 70%; relativamente à família e amizades chegam a 65%. Já a satisfação com a vida académica fica pelos 54%.

Cerca de 100 pedidos de consulta por ano
O estudo também revela o trabalho que é feito pelo  Gabinete de Saúde e Bem-Estar da Universidade dos Açores. Por ano, são feitos pouco mais de 100 pedidos de consulta, segundo Filipe Fernandes, psicólogo e investigador do Projeto SeMente. 

Na maior parte das vezes, a procura parte dos próprios estudantes. Além disso, atualmente, não existe lista de espera e todos os casos estão a ser acompanhados. 

As razões que levam os alunos a procurar ajuda passam sobretudo pela ansiedade generalizada, sintomas depressivos e dificuldades nas relações, incluindo problemas familiares, dificuldades de comunicação e violência no namoro. 

O trabalho do Gabinete não fica só pelas consultas. A equipa organiza caminhadas, trilhos e workshops para estudantes e docentes, com o objetivo de levar a saúde mental para fora do espaço tradicional da consulta.

Contudo, Filipe Fernandes sublinha que muitos alunos já chegam à universidade com histórico de problemas relacionados com a saúde mental.

Portanto, as universidades são obrigadas a lidar com problemas que começam antes dos estudantes se sentarem nas suas salas de aula. 


Já arrancou o I Encontro Insular para Promoção da Saúde Mental

O campus de Ponta Delgada da Universidade dos Açores recebeu ontem o I Encontro Insular de Saúde Mental no Ensino Superior, que decorre também ao longo do dia de hoje.  O evento reúne especialistas, docentes e estudantes da Universidade dos Açores e da Universidade da Madeira para discutir os fatores de risco e de proteção associados à vivência académica nas ilhas.

Em foco estão a apresentação dos projetos e intervenções que têm vindo a ser desenvolvidos por ambas as instituições, a transição para o ensino superior e a necessidade de consolidar políticas públicas sustentáveis de promoção da saúde mental. 

A iniciativa parte da ideia de que a saúde mental dos estudantes não é uma responsabilidade exclusiva das universidades, mas sim um desafio que envolve também toda a sociedade.




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