As restrições de slots no aeroporto de Lisboa e o seu impacto na acessibilidade aérea aos Açores estiveram em destaque no debate sobre a conectividade aérea e o turismo regional. Na abertura do encontro das Casas Açorianas, realizado na sexta-feira, dia 23 de outubro, a secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas havia considerado que estas limitações prejudicam o turismo açoriano. Já entre os especialistas que analisaram a questão, houve quem apontasse para a necessidade de alargar o diagnóstico aos preços das passagens e à ocupação dos voos.
Alberto Mota Borges, diretor da ANA Aeroportos dos Açores, sublinhou as limitações do aeroporto da capital, explicando que “tem uma capacidade de 38 movimentos por hora. Há um plano para passar para 42. Enquanto não passar para 42, os slots existentes são muito poucos e são altamente disputados”.
O responsável lembrou ainda que “os slots são das companhias” e que a sua atribuição está sujeita a regras europeias e internacionais. Perante os constrangimentos existentes, defendeu a procura de alternativas: “Portugal não é só Lisboa. (...) E, naturalmente, temos de olhar para os outros aeroportos e procurar as alternativas de ligação em outros aeroportos”, disse.
Alda Metrass, especialista em turismo e transportes, questionou, contudo, se a falta de slots explica, por si só, as dificuldades de acessibilidade aérea aos Açores. “Sendo especialista em aviação, confesso que me perturba ouvir continuamente que o problema são os slots”, afirmou, sem contestar a existência de restrições no aeroporto de Lisboa.
A especialista apontou para tarifas que podem ultrapassar os 300 euros nas ligações aéreas e para fatores de ocupação inferiores a 50% em vários voos entre Lisboa e Ponta Delgada. “Porque é que estamos a falar de aumentar a frequência quando as frequências que temos neste momento estão vazias?”, questionou.
“Quando estamos a falar de uma população com esta dimensão e com um território extremamente disperso, estamos a falar daquilo que se chama o monopólio natural, ou seja, não faz sentido pensar que vamos ter três ou quatro ou cinco ou seis ou sete ou oito companhias aéreas a quererem vir aos Açores, porque isso simplesmente não vai acontecer. Não há mercado para isso. Uma coisa é o wishful thinking, mas realmente preocupa-me a parte do diagnóstico e também a de ter expectativas realistas”, acrescentou.
Saída da Ryanair levou consigo 25 voos semanais
A perda de ligações aéreas foi também analisada por Gavin Eccles, professor na Nova SBE e especialista em aviação. Segundo os dados apresentados, a saída da Ryanair implicou a retirada de 25 voos semanais, dos quais cerca de dez terão sido inicialmente substituídos por operações da TAP e da SATA.
“No momento, apenas nove foram reinstalados”, afirmou o especialista, estimando que a redução líquida da oferta represente cerca de 15 voos por semana e mais de 3000 lugares semanais perdidos.
Eccles considerou que “o desafio que estão enfrentando não é o internacional, é o ‘doméstico’, dominantemente, focado em Lisboa”, identificando o mercado interno como uma das principais conectividades aérea dos Açores.
Apesar das perdas associadas à saída da Ryanair e aos ajustamentos de outras companhias, o especialista apontou para uma possível recuperação da oferta até ao verão de 2027, admitindo que as novas operações previstas poderão compensar o impacto da retirada da transportadora low cost.
Turismo deve privilegiar qualidade e valor acrescentado
Vera Gouveia Barros, especialista em economia do turismo e da habitação, defendeu que a atual conjuntura deve ser aproveitada para uma reflexão estratégica sobre o modelo de turismo que os Açores pretendem desenvolver.
“Devemos nos preocupar muito menos com quantos turistas é que vêm, mas sim com fazê-los ficar mais tempo e gastar mais”, afirmou.
A economista destacou a natureza como principal elemento diferenciador do destino açoriano e defendeu uma aposta num turismo de nicho, assente na autenticidade, na qualidade da experiência e na valorização dos produtos regionais.
Vera Gouveia Barros contestou ainda a ideia de que os passageiros das companhias de baixo custo representam necessariamente um turismo de menor valor económico. Segundo explicou, os dados que analisou apontavam para a possibilidade de estes visitantes deixarem mais dinheiro no destino, por canalizarem para a estadia e para as atividades locais parte do que poupam na viagem.
O debate decorreu num contexto de inversão da tendência de crescimento turístico. De acordo com os dados apresentados por Gavin Eccles, entre janeiro e setembro de 2026, os desembarques nos aeroportos registaram uma quebra de 11%, correspondente a menos cerca de 121 mil chegadas.
