Porto Formoso mantém tradição das Urtigas nas festas

Há mais de seis décadas que os moradores do Porto Formoso, mantêm a prática de colocar vasos de Coleus à porta de casa durante as festas da padroeira Nossa Senhora da Graça.




Foi no início dos anos 60 que, segundo antigos registos fotográficos, nasceu esta tradição nesta freguesia do concelho da Ribeira Grande.

A festa em honra da padroeira local, Nossa Senhora da Graça, decorre no segundo fim de semana de setembro, com a procissão e a exposição das Urtigas a realizarem-se no domingo.

Nesse mesmo dia, os portoformosenses cumprem o costume de colocar os vasos da planta à porta de casa, as colchas nas janelas e os típicos tapetes de flores por onde a procissão passa.

Apesar do nome mais comum ser Urtiga, a planta exposta tem o nome científico de Coleus. É uma espécie ornamental herbácea e de origem asiática. Embora seja uma planta tropical, José Pacheco, engenheiro agrícola, esclarece que se trata de uma planta de “meia-sombra” e “muito exigente em água” que necessita de ser replantada todos os anos “senão perde a sua beleza, a sua graça”, podendo atingir entre 40 centímetros e um metro de altura.

Visualmente, destaca-se pela sua folhagem que apresenta, maioritariamente, uma combinação das cores verde, amarelo, vermelho e roxo, formando um degradê.

Pertencentes à família das Lamiáceas, a mesma da hortelã, são cultivadas no Porto Formoso cerca de 30 variedades. Para atingir o aspeto vegetativo em setembro, são necessários alguns cuidados: a sementeira ocorre na altura da Páscoa ou, no caso da estacaria, em meados de junho.

Para garantir o degradê da folhagem, os cultivadores retiram as flores nela presentes. “Uma das práticas culturais desta planta é exatamente retirar essas flores para que a sua energia seja canalizada para as folhas”, detalha o engenheiro agrícola.

O combate às lagartas, praga capaz de destruir a espécie quase por completo, é outra tarefa obrigatória dos moradores.

Há também uma exigência em relação à luz solar.

O especialista relata que há residentes a utilizar guarda-sóis de esplanada para proteger os vasos nas horas de maior calor. E há quem recuse a água da rede pública devido ao cloro, optando por recolher a água da chuva para regar as plantas, ao que José Pacheco observa que os residentes “cultivam com muito cuidado, carinho e têm muito empenho nesta atividade”.

Herança e memórias de família
O sentimento de pertença e a passagem de testemunho vivem no dia a dia das famílias do Porto Formoso.

Maria Eduarda, de 72 anos, é um reflexo desta continuidade. Residente no Porto Formoso há 55 anos, após ter-se mudado de Vila Franca do Campo, aprendeu a cuidar da planta ornamental com as “vizinhas antigas” da freguesia. “Eu casei com 16 anos, vim para cá muito nova. Elas [vizinhas] ensinaram-me e eu fiquei com essa ideia”, afirma a moradora, que faz questão de fazer durar a tradição: “E agora venho ensinando aos outros, aos mais novos”, admite Maria.

O processo de cultivo começa no seu próprio jardim, onde trabalha para preservar as Urtigas. “Guarda-se as sementes, semeia-se e guarda-se os pés e a planta”, explica. No dia da procissão, as folhagens coloridas atraem a atenção dos visitantes. “Há muita gente que gosta de pedir”, relata Maria Eduarda. A moradora diz que não se importa de dar algumas, mas mantém uma regra: “Nunca dou as que estão na rua, tenho sempre outras em casa”.

Para além da partilha na comunidade, a tradição das Urtigas da Senhora da Graça assume, para muitos, a forma de memória. José Pacheco sublinha que a tradição “envolve toda a família”.  Relembra que, apesar de os pais já não estarem presentes, “ainda tem este cuidado” de decorar anualmente a fachada da casa da família.

“A minha mãe era uma pessoa também apaixonada por plantas, e todos os anos ela dedicava o seu tempo a elas”, recorda, revelando que a mãe “tinha uma variedade específica de que gostava muito”.

A tradição acompanha-o desde a infância, tempo em que ajudava “a fazer o tapete para a passagem da procissão”, juntando-se as colchas bordadas. “Sempre houve este carinho. A festa era um dia especial, havia muita preparação e muita dedicação, era algo especial para todos nós”, refere o engenheiro agrícola.

Mostra das Plantas Ornamentais e raízes históricas
Para assinalar e preservar esta prática, a Junta de Freguesia do Porto Formoso organizou, entre os dias 12 e 14 de setembro, a 2.ª edição da Mostra das Plantas Ornamentais, após 15 anos da realização da primeira.

O evento contou com a exibição de 2 023 vasos de Urtigas e 73 pinheirinhos (Bassia Scoparia), distribuídos por 217 famílias, superando os cerca de mil vasos registados na primeira edição.

Rúben Adriano, presidente da Junta de Freguesia do Porto Formoso, refere que o objetivo do regresso da iniciativa passou por “manter aquilo que é uma cultura da freguesia”.

A antiguidade do costume foi evidenciada através da recuperação de um móvel em madeira de criptoméria com mais de 50 anos, concebido por uma família local e utilizado para expor as plantas, bem como de fotografias antigas.

A avaliação dos vasos foi realizada pelas ruas, sem inscrições prévias, por um júri de sete elementos que juntou o executivo da Junta de Freguesia, a vice-presidência da Câmara Municipal da Ribeira Grande, especialistas botânicos como José Pacheco, Fernando Costa, Carina Nobrega e, ainda, o pároco da freguesia.

“Nós percorremos todas as ruas em que as Urtigas estavam expostas e fomos vendo onde detetávamos vasos com melhor qualidade”, explica o presidente da Junta de Freguesia. A análise incidiu sobre a saúde da planta, a ausência de pragas e o enquadramento visual dos vasos com as fachadas das casas e as tradicionais colchas presentes nas janelas.

O coordenador das duas edições da iniciativa, José Pacheco, realça que a Mostra das Plantas Ornamentais não é uma competição, mas “uma forma de prestar uma certa homenagem” a todos aqueles que dedicam o seu tempo às Urtigas para honrar a sua padroeira, Senhora da Graça.

Como a organização do evento foi concretizada há apenas dois meses, o júri decidiu não atribuir primeiro, segundo e terceiro lugares. Em alternativa, identificaram mais de 20 moradas com “excelência nas plantas” e entregaram uma menção honrosa a cada uma.

José Pacheco reconhece que a tradição das Urtigas na fachada das casas já ultrapassou as fronteiras do Porto Formoso, referindo que também se realiza em outras freguesias da ilha de São Miguel, como em Santa Bárbara e São Brás, no concelho da Ribeira Grande, e na freguesia de Candelária, no concelho de Ponta Delgada.

“As coisas boas devem ser copiadas, como esta tradição”, nota o especialista.

Face à adesão da população, o executivo liderado por Rúben Adriano planeia avançar com um processo de reconhecimento oficial: “Temos todas as condições para, muito em breve, junto da Câmara Municipal da Ribeira Grande e do Governo Regional, tentar reivindicar as Urtigas da Senhora da Graça como património imaterial”, conclui o autarca.

PUB

O programa da Fundação La Caixa de combate à pobreza infantil e exclusão social chegou a 36 famílias e 48 crianças e jovens da costa norte do Concelho de Ponta Delgada no ano letivo 2025/2026. Rede prevê alargar a intervenção aos Arrifes no presente ano letivo.