Imagens de animais marinhos com plástico à volta das guelras ou barbatanas não são incomuns, infelizmente. Apesar do problema ser já do conhecimento da maioria da população, existem poucos dados quantitativos.
Foi com isso em mente que os investigadores do Instituto das Ciências Marinhas (OKEANOS) e do Instituto do Mar (IMAR), Yasmina Rodriguez, Frederic Vandeperre, Hugo Parra, Miguel Machete, Jorge Fontes, Mónica A. Silva e Christopher K. Pham lançaram mão aos dados existentes de 17 anos de observações no mar entre os Açores e Portugal Continental. E as conclusões encontradas apontam para uma pressão adicional sobre os ecossistemas de mar aberto, o que reforça a necessidade de maior monitorização do problema.
Segundo o estudo “Emaranhamento em detritos marinhos e os impactos associados na megafauna ao longo do Oceano Atlântico Nordeste”, publicado no início do presente mês, foram analisados dados recolhidos entre 2008 e 2024, a partir de utilizadores do mar (como operadores turísticos, cientistas, observadores das pescas), e da rede de arrojamento, tendo sido incluídos apenas os eventos suportados por evidência visual.
Um total de 41 casos, onde mais de metade (56%) os detritos eram artes de pesca abandonadas, perdidas ou descartadas (como cordas, redes, entre outros), sendo o plástico de uso único (como sacos plásticos) responsável pelos restantes casos (44%).
Ao todo, 10 espécies diferentes de vertebrados foram afetados pelo lixo marinho: tubarão-azul, peixe-espada, tartarugas marinhas comum e verde, cagarro, golfinho-roaz, baleias-anã, de Bryde e sei, e a baleia-de-bico de Sowerby.
Amaioria (95%) foi observado no mar, com apenas 2 casos (5%) arrojados na costa. dos 41 casos, 31 foram na Zona Económica Exclusiva dos Açores: ao redor do arquipélago, foram encontrados cetáceos, tartarugas marinhas e pássaros marinhos. Já os peixes pelágicos emaranhados foram observados em alto mar, enquanto os tubarões foram encontrados tanto em alto mar, como junto às ilhas açorianas.
Os tubarões e as tartarugas marinhas são os grupos mais afetados pelo lixo marinho.
Quanto aos impactos nos animais, 9% (3) morreram devido ao emaranhamento (provocado por afogamento, devido ao aumento do da resistência gerado pelo plástico), com 91% a apresentarem lesões externas, das quais 57% foram consideradas severas, 14% moderadas e 29% ligeiras (17% não registou qualquer dano, enquanto em 5% dos animais emaranhados não foi possível avaliar possíveis lesões).
Entre as lesões mais comuns estão constrições (46%), feridas ou lacerações (39%), perdas de membros (11%) ou deformações (4%).
Perante este cenário, o estudo entende que o impacto do lixo marinho na megafauna está subestimado, devido à dificuldade de monitorização, e que o plástico flutuante está a exercer uma pressão significativa nos ecossistemas de mar aberto.
“Isto é particularmente preocupante porque a região estudada serve como um habitat crucial para vários vertebrados marinhos migratórios e residentes, incluindo diversas fases juvenis”, assinala o estudo.
Mas não só: as espécies documentadas no
estudo estão classificadas como ameaçadas, em perigo ou protegidas ao
abrigo de acordos internacionais de conservação e são “intrinsecamente
vulneráveis aos impactos antropogénicos [originados ou causados pela
atividade humana] devido à sua elevada longevidade e baixas taxas de
fecundidade”.
Aspetos que levam os investigadores a defenderem a
importância de uma monitorização “cuidadosa e da gestão das pressões
humanas, como as causadas pelo lixo marinho”.
O estudo não tem
dúvidas em afirmar que a presença de plástico flutuante “transformou o
oceano aberto num ambiente perigoso”, sendo necessário aprofundar os
efeitos e impactos a longo prazo desta ameaça nas populações de
megafauna marinha.
