“Dou mais valor à atitude do atleta em prova, de querer patinar, do que a ganhar medalhas”

Geraldo Andrade. A paixão pela patinagem artística começou em criança. Desde então, construiu um percurso marcado pela aprendizagem e pela formação de atletas. Tornou-se treinador e selecionador nacional, e ajudou a construir a história do Clube de Patinagem de Santa Cruz




A paixão pela patinagem começou ainda em criança, com um par de patins escondido numa caixa embrulhada. O desejo de Geraldo Andrade patinar já existia e era tão forte que, quando percebeu que o pai tinha comprado uns patins para lhe oferecer no aniversário, não conseguiu esperar pelo dia do seu aniversário. 

Conta-nos que “vi uma caixa com papel embrulhado e sabia que o meu pai tinha comprado os patins, fui à falsa, abri o caixote e calcei os patins. Fui para o meu quintal, parecia que já patinava. Não tive aquela dificuldade em equilibrar-me. Era algo que já estava dentro de mim querer patinar”. No quinto ano, na escola do Fisher, “tinha uma colega que praticava patinagem na Escola de Patinagem de Ponta Delgada, com o Filipe Viegas, um querido amigo. Digo sempre que ele é o meu segundo pai e um segundo irmão mais velho”. 

O primeiro treino ficou marcado por um imprevisto. No antigo pavilhão da PSP, Geraldo Andrade calçou os patins e as correias rebentaram. Como o treinador não tinha correias suplentes, passou o treino a observar os outros atletas. O pai tratou de resolver o problema, “comprou todas as correias para não me faltar mais nenhuma”, recorda com carinho. Geraldo Andrade queria sempre fazer mais, aprender mais depressa. Refere que “o Filipe estava a acabar de explicar e eu já estava a querer ir fazer. Queria que ele olhasse para mim. Fazia as coisas ao pé dele. Não queria comparar-me com ninguém, queria era aprender”. Praticou também hóquei em patins e recorda que “descia a rua do Pavilhão Sidónio Serpa de patins para não chegar tarde ao treino no pavilhão da PSP e o Filipe adorava ver isso. Ele dizia: ‘Tu és o único, ninguém faz isso’ (…)”. Naquela altura, patinagem artística estava concentrada em Ponta Delgada, mas iria chegar à freguesia de Santa Cruz, na Lagoa. 

Conta-nos que um dia, o Padre José Pires, fundador do clube, “um grande amigo e grande padre (...)”, o viu a patinar no polidesportivo, enquanto as outras crianças jogavam futebol. Não falou diretamente com ele, falou com a irmã Susana e com o presidente da junta. Pouco depois, surgiu a ideia de ensinar outras crianças a patinar. Diz-nos que num sábado de manhã, “a minha irmã Susana acordou-me e disse: ‘Vamos ensinar os meninos a patinar’. 

Veio o inverno e a atividade regressou no ano seguinte (1994) com muitas mais crianças. Os pais começaram a encomendar patins de iniciação e de pré-competição. A modalidade ganhava raízes e foi necessário tornar a estrutura formal. Alguns pais foram ao cartório tratar da constituição do Clube de Patinagem de Santa Cruz. Afirma que “embora tivesse 16/17 anos acompanhei (…). Agora percebo porque o Padre José Pires disse-me que era importante ir... Parece que ele sabia o futuro (...)”.

Com o Clube de Patinagem de Santa Cruz já fundado, “treinamos no polidesportivo de Santa Cruz de 1993 até 2002 e fui fazendo a minha atividade escolar até ao 12.º ano. Depois comecei a trabalhar na empresa do meu pai, mas sempre conciliando, sempre tentando evoluir”. A sua formação também era feita com os meios disponíveis. Como Filipe Viegas tinha mais contactos no continente, “ele avisava quando existiam cursos ou ações de formação e íamos”. 

Foi também com Fernando Andrade, um dos treinadores portugueses que mais admira, que aprofundou conhecimentos. “Quando ia a Lisboa, o treinador disponibilizava cassetes com provas de campeonatos da Europa e do Mundo, via-as todas e muitas vezes pedia para trazer para São Miguel, copiava-as e devolvia-as na viagem seguinte. Tenho essas cassetes ainda guardadas”. Em 2014, Geraldo Andrade concluiu a formação de nível 2 e, posteriormente, alcançou o nível 3 da World Skate. Continua a participar em formações de treinadores, juízes, dirigentes e outras áreas relacionadas com o desporto porque “é sempre um ‘refresh’, e como também faço muito trabalho de diretor de clube, como agendar viagens, hotéis, inscrições, reuniões e há muitas formações sobre isso, é bom participar, porque nunca se aprende tudo de uma vez”. 

Várias etapas marcaram o crescimento do Clube. Um desses marcos aconteceu em 2002, com a inauguração da Escola Secundária da Lagoa. Geraldo Andrade refere que os clubes que treinavam no Fisher passaram para o novo pavilhão e “ficamos com mais disponibilidade de horários”. Nesse mesmo ano, o Clube participou pela primeira vez na Taça de Portugal, terminando em 18.º lugar, depois “fomos sempre subindo e em 2008 ficamos no pódio”, disse para recordar que na chegada na São Miguel “estavam pessoas no aeroporto que nos receberam com aplausos, fomos notícia nos jornais, nas rádios e foi aí que os apoios começaram a aumentar e comecei também a fazer com que os atletas participassem em estágios”. 

Em 2014, uma homenagem pelos 20 anos de percurso de Geraldo Andrade acabaria por dar origem a outro desafio: trazer uma competição nacional para a ilha. Organizaram a Taça de Portugal e depois veio o Campeonato do Mundo, em 2017, e o Campeonato da Europa, em 2018. Acrescenta e, “fugindo às competições, os festivais de Santo António e as primeiras galas de patinagem também fazem parte dos momentos que marcaram o clube, que mantém o mesmo objetivo de sempre, o de “formar as crianças nos homens de amanhã”. Em 2021, surgiu outro desafio, mas pessoal, o de ser selecionador nacional de cadetes e juvenis. Geraldo Andrade conta-nos que a primeira resposta foi não, porque as “dispensas que tinha na autarquia - no trabalho no CATL - estavam associadas ao Clube de Santa Cruz”. Mas, todos lhe disseram para avançar. Ainda assim, hesitou, mas o diretor técnico nacional acabou por lhe dizer que precisavam dele e aceitou. Permaneceu no cargo até setembro de 2025.

Questionado sobre o que sente quando um atleta entra em pista, Geraldo Andrade afirma que “é um orgulho”. No entanto frisa que “dou mais valor à atitude do atleta em prova, de querer patinar, do que a ganhar medalhas. Acho que se o atleta entrar para a prova com vontade, com carisma, mostrar aquilo que sabe, não se sentir inferior aos outros, mesmo sabendo que não vai ganhar, mas vai dar o seu melhor, para mim isto é que é uma medalha”. Aproveita para recordar que no Campeonato do Mundo na China, quando o seu patinador entrou em pista, sentiu um arrepio, e “o meu colega ao lado perguntou-me: ‘Estás a sentir?’. Ele também já tinha sentido aquilo”. Noutra ocasião, durante o Campeonato da Europa realizado na Lagoa, as emoções foram ainda mais fortes, “nem conseguia falar com o patinador e  os meus colegas perceberam e ajudaram-me”. 

Geraldo Andrade trabalha no CATL, frequenta a universidade, onde está a terminar Serviço Social e divide-se entre o Clube de Patinagem de Santa Cruz e o de São Vicente Ferreira. Neste último, “era para lá ficar até que viesse um treinador, mas até agora tem sido eu. Tenho uma pessoa, que foi minha atleta em São Vicente Ferreira, que me tem ajudado com a iniciação e tenho conseguido gerir a competição. É um clube que está no meu coração e é um clube que está a crescer”.

Conciliar tudo isso nem sempre é fácil e reconhece que não conseguiria fazê-lo sozinho, por isso afirma que “só consigo fazer isso tudo porque tenho uma família fantástica, bons amigos, tenho boas pessoas que estão ali para ajudar”. Até os antigos atletas continuam presentes “alguns quando vêm cá de férias, perguntam: “Geraldo, queres ajuda?, e na universidade tenho um grupo fantástico de amigos que partilha a informação”.

Ao longo dos anos, as dificuldades do Clube foram muitas. Treinar em cimento quando se pretendia um piso de madeira foi uma delas. Mas o  mais recente desafio está relacionado com o pavilhão do Fisher. Em 2021, durante obras no teto, o clube foi treinar para Ponta Garça, onde os horários disponíveis eram tardios. Ora, “muitas crianças desistiram”. Quando regressaram ao pavilhão surgiu outro problema, a humidade tornava o piso escorregadio. Agora, com a demolição prevista do pavilhão do Fisher, a preocupação regressa, esperando que seja encontrada a melhor solução possível, porque “o Clube de Santa Cruz merece”.

Para este ano, o Clube tem prevista uma gala de Natal, “em conjunto com a Banda Filarmónica de Santa Cruz, em que irão tocar ao vivo e vamos patinar, com coreografias alusivas aos Açores, com músicas também relacionadas com o nosso Arquipélago. Temos a Gala de Campeões, da Associação de Patinagem de São Miguel”. Em termos de competição, “já nos dias 17 e 18 de outubro, marcam presença na Taça da Europa, na Alemanha, com o patinador Rafael Costa, depois na “Taça Açores, no Torneio Nacional e na Taça de Portugal”.

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